Alundra (PS1) e o perigoso poder do subconsciente

Lucas Rodrigues / 10 de abril de 2017 / Análises, PS1

Será que você estaria disposto a deixar todos os seus sonhos de lado por medo de retaliações? Será que abriria mão de tudo que lhe faz humano apenas para sobreviver em uma terra sem ter esperança de dias melhores, assombrado por forças malígnas que um dia estavam ao seu lado? Estes são dilemas que o jovem elfo Alundra ajudará a humanidade a responder.

Com os ensinamentos deste incrível JRPG lançado para o PlayStation, em 1997, é possível verificar que a resposta esperada muitas vezes está dentro de você mesmo, mas é necessário um pouco de fé para chegar até ela. Confira algumas das principais características deste clássico que não pode ficar de fora do repertório de um bom e véio retrogamer.

Entre anjos e demônios

Há muito tempo, estátuas de santos espalhavam-se por todos os cantos do reino. A devoção humana pelas divindades era uma atividade extremamente prazerosa e acreditava-se que oferecia proteção àqueles que se curvavam diante dos deuses. Contudo, sem maiores explicações, a ordem do rei foi que as estátuas fossem destruídas e a adoração aos deuses cessasse.

Como resultado, os deuses ficaram extremamente aborrecidos e retiraram dos humanos a capacidade de criar. Toda a criatividade humana sumira da Terra em um piscar de olhos, assim como a vontade de viver de alguns povos. Os dias foram se tornando mártires sem fim e os pesadelos popularizaram-se aos poucos.

Sem dar-se conta, alguns humanos continuaram a rezar secretamente e a pedir proteção aos deuses, pois acreditavam que suas vidas estariam melhores ao serem preenchidas com um pouco da energia vital emanada por este humilde ato de subserviência. Eles apenas não contavam que estavam sendo enganados o tempo todo.

Invadir casas e quebrar vasos? Deve ser coisa de elfo

A bordo do navio Klark, o jovem é hostilizado por ter pesadelos todas as noites. A maioria dos marinheiros tratam-no como uma inútil criança aterrorizada. Em um de seus sonhos, o deus Lars o chama para libertar a população mundial da destruição que os acerca. Por outro lado, o incompreendido deus Melzas fará de tudo para estragar seus planos. A primeira tentativa envolve destruir o navio onde o Libertador se encontra. Foi um plano quase infalível. Melzas apenas não contava que o elfo sobreviveria e seria resgatado em uma praia por um morador da pacata vila de Inoa.

Como perdera sua esposa e filho há pouco, assim como a vontade de continuar vivendo e criando suas armas, o simpático ferreiro Jess cuida do recém-chegado Alundra como se este fosse parte de sua família, oferecendo-lhe abrigo, comida, um diário e a coisa mais importante que pode-se oferecer: amizade.

Logo ao chegar à vila de Inoa, tome algum tempo para explorá-la (conheça todos os habitantes e as casas para não se perder futuramente). Você poderá invadir casas alheias, abrir baús que não lhe pertencem a fim de coletar itens e até mesmo quebrar os vasos (já conhecemos outro elfo que adora fazer isso, não é mesmo?).

Trágico!!! Muito trágico!!!

ATENÇÃO: ESTA SEÇÃO CONTÉM UM ALTO NÍVEL DE REFERÊNCIAS.

Muito antes da série Game of Thrones ser imortalizada pela HBO nas telinhas¹ e Jim Carrey mostrar aos irmãos Baudelaire como a vida pode ser dura, Alundra já experimentara uma trágica sucessão de perdas. Você sabe do que estou falando, né?

Com seus poderes bem invasivos, este guerreiro descobriu que a maior ameaça se encontra em nossa própria mente e nos mata lentamente de dentro para fora. Entrando nos sonhos de vários dos moradores da vila, Alundra tenta mantê-los longe de Magyscar, o alpha-ômega desta série – é de lá que tudo vem, é para lá que tudo vai, se você sabe do que estou falando, né? Um a um, seus companheiros de Inoa foram morrendo, mesmo com a incansável luta de nosso amigo élfico para salvá-los.

As mortes envolvem desde fratura no pescoço até lesão causada por lobisomem. Acredita-se que na próxima encarnação, o Sr. Omar gostaria de passar um bom tempo nesta vila, e com certeza vai querer Alundra bem longe. Você sabe do que estou falando, né?

Incansáveis puzzles (ou não)

Quando se trata de jogabilidade, Alundra é uma excelente escolha para treinar suas habilidades cognitivas. Você enfrentará dezenas (ou até mesmo centenas) de puzzles diferentes durante o jogo, fazendo desta a maior virtude e fraqueza deste RPG ao mesmo tempo. Um jogador poderá enfrentar incansáveis horas de enigmas e desvendá-los um atrás do outro com uma incessante animação. Mas se o jogador ficar preso e se frustrar diante de alguns destes desafios, dificilmente terá vontade de continuar jogando, pois os puzzles representam um percentual extremamente alto do gameplay e aumentarão em dificuldade e duração a cada dungeon completa. Muitos desistem no caminho e acabam não conhecendo o final deste game.

Outro aspecto que o difere da maioria dos JRPGs é o sistema de evolução do personagem. O objetivo aqui não é acumular experiência e subir de nível. Derrotando os chefes ao longo de sua jornada, itens são oferecidos a Alundra, que aumentarão seu HP máximo, sua força e lhe proporcionarão o uso de magias. Grande parte desses itens serão utilizados para descobrir áreas novas e resolver puzzles (ah, não, mais puzzles!) para obter novos itens, e assim continuamente, até que todos os sete brasões sejam recuperados e Alundra ganhe acesso à antiga fortaleza, onde poderá fazer você já sabe o que – sim, resolver mais puzzles.

Sistema de lutas

Mais uma característica que se encontra na divisa de opinião entre jogadores é o estilo de batalha. Alundra é um RPG com sistema de lutas live-action, ou seja, não existe uma tela específica para batalhas. Você encontrará inimigos conforme explora os mapas e luta com eles ali mesmo, como se fosse um jogo de ação ou aventura. Você inclusive poderá ignorar os mobs em seu caminho, já que a única função destes é atrasá-lo.

Perguntas frequentes

P: Com tantas características de um jogo de ação/aventura, Alundra não poderia ser classificado como tal?

R: Claro! E assim é classificado por muitos.

P: Mas também não é classificado como um JRPG?

R: Com certeza! Escolha a melhor opção para você.

Lembre-se: não rotule o jogo apenas por alguma característica que ele possui. A diversão é mais importante do que saber qual é seu estilo.

Afinal, por que sonhamos?

Ao perder a vontade de criar, passamos a responsabilidade de nos manter felizes para os nossos sonhos. É neles que nos completamos, buscamos coisas que acreditamos serem inalcançáveis e esperamos por mudanças que nos tornarão melhores seres humanos. Entretanto, viver apenas de sonhos pode ser algo extremamente prejudicial, como acontecera com os moradores da pobre vila de Inoa. Quando busca-se a felicidade apenas quando estamos dormindo, não se alcança ela quando estamos acordados.

Por isso, sonhe! Não deixe de sonhar com tudo o que você deseja e espera um dia alcançar. Porém, ao acordar, não deixe de agir para tornar seu sonho realidade, ou você estará fadado a ser um pobre infeliz que também morrerá diariamente de dentro para fora. Afinal, seu pior inimigo encontra-se dentro de sua própria mente!

Vídeo

Alundra – Gameplay – Fonte: World of Longplays

Observações

1 – o primeiro livro da série foi escrito em 1996. Alundra foi lançado em 1997. A referência é pela saga, denominada A Song of Ice and Fire (As Crônicas de Fogo e Gelo em português), apenas ter-se popularizado com o nome Game of Thrones (Guerra dos Tronos) após o empurrãozinho da HBO, sendo assim uma experiência mutualística, pois a HBO também estava meio apagada.

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