Apocalypse (PS1) – Fim do mundo, Bruce Willis e uma tremenda confusão

Fabio Zonatto / 11 de maio de 2017 / Análises, PS1

Uma ótima ideia empacotada em um plano ambioso, porém executada toscamente – isto pode ser usado para descrever Apocalypse.

O ano para o qual vamos viajar desta vez é 1998. O primeiro Playstation está no auge, e a Neversoft quer fazer bonito com um título ambicioso, exatamente como mencionado na frase de abertura mais acima: os planos são de lançar um jogo que seja exatamente como um filme de ação nos moldes de Hollywood – e com ninguém menos que o “Duro de Matar” Bruce Willis escalado para o elenco.

A ideia começa a tomar forma assim que os elementos básicos são definidos: o jogador será o herói da história, e o tio Willis representará seu parceiro de ação (o que nos Estados Unidos chamariam de “sidekick”, um coadjuvante). Com isto resolvido, o ator então teve suas expressões faciais captadas para serem digitalizadas e tratou de gravar todas as falas que estavam no roteiro dado a ele pelos produtores do jogo. Na época, o próprio Bruce Willis chegou a afirmar em entrevista que estava bastante empolgado com o projeto, e que os videogames seriam o futuro do cinema… Terá ele acertado?

Porém, o que estava tornando-se uma tremenda promessa logo começou a ir para o brejo, e tudo graças aos prazos apertados de produção que a equipe da Nerversoft tinha para entregar o disco à sua publicadora, a Activision.

Na correria, um dos elementos mais importantes dentre todos teve de ser brutalmente alterado: a idéia de um herói desconhecido e seu parceiro teve de ser descartada para adiantar o trabalho, e o personagem que Bruce Willis interpretaria em Apocalypse – o cientista-brucutu Trey Kincaid – passou de coadjuvante a personagem principal num piscar de olhos.

Embora de início não pareça lá grande problema, isso complicou todo o plano já em andamento. Para entender, tente imaginar ter toda a trama escrita e em desenvolvimento, além de ter todas as falas de Willis já gravadas (especificamente com Kincaid sendo apenas um ajudante) e ter de simplesmente mudar completamente o rumo das coisas de um momento para o outro… Chamar o cara para gravar novas falas? Nem pensar com a agenda de Willis lotada. Mas que fria!

O resultado saiu “da forma que foi possível”, mas provavelmente nos privou do que poderia ter sido um jogo de muito mais qualidade e fama. O que restou para Apocalypse foi o “aproveitamento das frases usáveis” do ator hollywoodiano e uma história com estranhas lacunas e remendos para adequar-se ao seu novo protagonista. Não fosse por isso, literalmente teríamos um bom filme de Bruce Willis no formato de CD para o Playstation, com conceitos inovadores que teriam ajudado o título a fincar sua bandeira como marco na trajetória dos videogames.

Jamais jogou Apocalypse? Nós não o culpamos, já que no Brasil ele não recebeu lá muita cobertura por parte das revistas especializadas (em 98 a internet ainda era privilégio para muitos lares no país). Contudo, já que realmente acreditamos que o jogo ainda valha a pena mesmo após tanta presepada, aqui estamos para apresenta-los à esta injustiçada bolacha espelhada perdida no passado.

Bruce Willis apresenta: o Apocalypse

Bem verdade que os personagens estrelados por Bruce Willis no cinema não são estranhos no mundo dos videogames – temos o indefectível John McClane em Die Hard (“Duro de Matar” no NES e Playstation) e Korben Dallas em The Fifth Element (“O Quinto Elemento”, também no Playstation). Porém estes jogos citados são adaptações de filmes, e o que acontece em Apocalypse é uma outra história.

O roteiro deste jogo foi escrito especialmente para ele, com Willis inicialmente escalado somente como um “ator coadjuvante”. Contudo, devido a problemas que já citamos na apresentação, o personagem do velho McClane pulou para o papel principal, e a história e falas gravadas previamente por ele tiveram de ser adaptadas. Em termos de cinema, seria algo parecido com ter de transformar um filme já quase pronto em outro diferente utilizando somente efeitos especiais e muita edição de vídeo. Vai sair algo no final das contas? Ora, sair até que vai – mas não espere “aquela” qualidade, é claro.

A trama (bem ao estilo dos filmes de ação noventistas, com muitas explosões e tiroteios) ainda esforça-se em trazer algo diferente à mesa: em um futuro distópico, a ciência está sendo marginalizada como sendo uma prática “demoníaca” por um líder fanático religioso conhecido como “O Reverendo”.

Seria este somente mais um pregador extremista e miolo-mole, não fosse pelo fato da sociedade estar literalmente quebrada, perdida nos arremedos e ruínas de um passado há muito esquecido. O desespero faz com que muitas destas pessoas ouçam o tal pastor como única fonte de verdade e esperança.

Desta forma, o tal Reverendo logo consegue influência e poder suficientes para controlar as autoridades, e ordena imediatamente que todos os cientistas – hereges, em sua ótica distorcida – sejam aprisionados. Nem passa pela cabeça de seus seguidores que o real objetivo do lunático é ficar tranquilão para realizar um plano macabro: utilizar a própria ciência que tanto condena para criar sua própria versão dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse bíblico, e assim trazer o fim à humanidade que considera corrupta e decadente.

O grande “porém” nos planos do vilão picareta é que um dos cientistas que ele capturou atende pela graça de Trey Kincaid (Bruce Willis), renegado mestre em nanotecnologia e em detonar tudo em seu caminho. Sem muito esforço, Kincaid logo consegue libertar-se da prisão onde está sendo mantido e agora torna-se a última esperança de salvação da humanidade.

“Yippee ki yay, motherf…” Ooops, filme errado!

O mundo é mais bonito com munição infinita

Controlar Trey Kincaid é algo que flui numa boa, uma vez que os comandos respondem muito bem. Saltos e tiros são a principal pedida em Apocalypse, porém é também possível abaixar-se enquanto atira (o que não vai ser lá muito necessário durante o gameplay) e agarrar-se em beiradas quando o local para o qual você está saltando for muito alto.

Importante lembrar que Trey não pode mirar nas diagonais – somente para frente, trás e para os lados. No entanto, os tiros são “direcionados” automaticamente para acertar um inimigo que não esteja em uma linha reta se este não estiver muito longe de seu personagem. Mesmo assim, se você estiver em uma situação apertada, lembre-se de que se manter em movimento  constantemente é a chave neste jogo: não há espaço para cautela!

Não se preocupe jamais com a munição da metralhadora principal, já que ela é infinita. Assim sendo, sempre dê preferência para matar inimigos mais fracos e destruir tranqueiras do cenário usando esta arma. E pode se preparar para destruir muita coisa pelo caminho: dentro destes objetos você pode encontrar power-ups, e ao explodir barris inflamáveis é possível eliminar muitos inimigos de uma única vez.

Quanto aos citados power-ups, estes podem ser vidas extras, itens de energia que restauram sua barra, Smart Bombs capazes de detonar tudo na tela, e munições especiais que concedem maior poder de fogo para detonar inimigos mais fortes. Assim que Kincaid coleta uma destas munições, a barra azul em seu marcador de vida passa a indicar quanto dela você ainda possui – e a partir dai você precisa ir na maciota com o gatilho, ou vai gastar inutilmente seus recursos preciosos.

A lista deste tipo especial de disparo é bem sortida, com efeitos para agradar a todos os gostos:

  • Flamethrower: lança-chamas que torra imediatamente inimigos mais fracos e causa bons danos a chefes;
  • Particle Beam: parecido com o lança-chamas, porém um pouco mais fraco e sem o efeito de “morte instantânea” de seu primo esquentado;
  • Rip Laser: raio elétrico que é atraído por inimigos próximos ao feixe de disparo – é só apontar em uma direção com muitos alvos e esta belezinha faz o resto;
  • Pulse Laser: disparos esféricos de um potente laser esverdeado. Causa um belo dano, mas não é muito preciso;
  • Rocket: foguetes que voam em linha reta e explodem com o impacto, causando danos em uma pequena área.
  • Homing Missle: mísseis teleguiados que caçam o alvo onde quer que ele esteja. Quando explode, causa danos em uma pequena área;
  • Granades lança uma granada que quica no chão antes de causar uma explosão em área. Grande poder de fogo, porém com o menor alcance dentre as armas;

Abrindo uma bela lata de porrada!

Ou “Open up a can of whoop ass!”… Pois é, certas frases de efeito funcionam muito melhor em inglês mesmo.

De forma geral, o desafio encontrado em Apocalypse não é apavorante. Os estágios são bem longos e repletos de inimigos, e mesmo que alguns destes sejam capazes de devastar rapidamente sua barra de energia, extermina-los em grandes hordas é algo relativamente simples, até mesmo com a arma inicial do jogo. Quase todos os monstros e capangas morrem facilmente com alguns disparos, e outros um pouco mais resistentes se vão tranquilamente se você usar alguma munição especial.

A oferta de itens de vida e power-ups de ataque também não é das menores, então manter-se sempre saudável não é difícil com alguma maestria em pontaria de tiro e no desvio de armadilhas e outros perigos. Graças ao eixo no qual o jogo é executado (verticais e horizontais na maior parte do tempo), saltar abismos de plataforma em plataforma é tarefa que quase sempre pode ser desempenhada com precisão… Salvo quando a câmera fica obstruída por alguma parte do cenário. É uma droga, mas raramente acontece.

No estilão dos games de ação para o Playstation da época, o seu progresso pelos estágios é feito por meio de checkpoints: assim que alcançar um destes, qualquer detalhe deixado para trás já era. Uma vez que o sistema vai contando o percentual de inimigos abatidos no estágio – que é mostrado no final deste – tal detalhe é importante se você busca limpar 100% de cada área. Embora de início os estágios sejam considerados fáceis, lá pelos últimos a coisa fica realmente caótica: é tanto inimigo e armadilha na tela que perder algumas vidas enquanto se atravessa certas áreas parece inevitável.

Os chefões de fase não são lá grande coisa se você souber se virar bem com os controles. Muitos contarão com a ajuda de capangas extras ou armadilhas que só vão acertar o jogador, porém power-ups diversos vão surgindo em meio a batalha para equilibrar as coisas. Até nos grandes confrontos contra os chamados Quatro Cavaleiros do Apocalipse as coisas não mudam muito, já que os combates seguem a mesma linha. A diferença fica por conta da barra de energia bem maior que o normal.

Departamento técnico do Apocalypse (rude, mas divertido!)

Como já mencionado, a intenção em Apocalypse era a de se criar um jogo grandioso em todos os aspectos – um embrião do que hoje são produções para o PS4 e Xbox One dignas de Hollywood. Mas de boas intenções, o buraco quente já está cheio…

Ao que consta, a Neversoft apertou-se nos prazos do processo de desenvolvimento. O problema é que muito do jogo já estava decidido quando começaram a falar de “atalhos no serviço”, sendo tais elementos a trama, roteiro e participação do astro Bruce Willis com suas falas já todas gravadas. Desta forma, quando a decisão de transformar o personagem de Willis em protagonista foi tomada, muitos remendos e gambiarras tiveram de ser feitos para que o pacote final fosse minimamente aceitável. Mas isso é problema para o gameplay?

Na parte gráfica, nada de espetacular: os polígonos que compõe personagens, cenários e demais elementos que vemos na tela são bem grandes, serrilhados e muitos apresentam texturas pobres. Porém, no conjunto da obra, nada fica no caminho da diversão: a mistura de cores sombrias e explosões mil fazem um belo trabalho em criarem uma ambientação correta para a ação.

Além disso, os cenários são repletos de elementos destrutíveis que explodem em pedaços com alguns disparos. Desta forma, a exploração de cada área torna-se interessante e cativante – quem não quer destruir tudo em seu caminho e espalhar o caos como um furacão ambulante? Certamente esta parece uma tarefa perfeita para nosso amigo Trey Kincaid.

Por falar nele, a aparência de Bruce Willis no rosto do personagem é até convincente, mesmo que não seja lá um primor. Nas cenas em CGI, podemos ter a nítida impressão de estarmos assistindo a algum filme canastrão do “Duro de Matar”, o que nos cativa a continuar avançando na trama e descobrindo o que o destino reserva a Kincaid.

Na parte sonora, muitas explosões, balas ricocheteando, mísseis sendo disparados e gritos intermináveis de inimigos morrendo – ou seja, uma sinfonia de destruição pra lá de perfeita. Ainda que as frases gravadas por Willis repitam-se infinitamente (“I feel good!”, “suck on this!”, “Bring it on, baby!” e tantas outras inesquecíveis), elas agradam aos fãs do ator exatamente por lembrarem bastante alguns papeis clássicos que este viveu no cinema. Já se você não for muito com a cara dos filmes dele… Bem, pode imaginar o efeito de ouvi-lo incessantemente durante todo o jogo.

Nas trilhas musicais vemos mais da inovação que a Neversoft tentou implementar: em alguns estágios, é possível ver clipes na íntegra rolando em telões. A canção nos trechos próximos à estes telões altera-se para a cantada no clipe, então é possível dar uma pausa no tiroteio só pra curtir um sonzinho. No vídeo, está a cantora norte-americana de rock alternativo Poe – que também emprestou sua voz à chefona Plague.

Resumindo: Apocalypse não é exatamente um jogo deveras polido e que esmera-se em cada detalhe (sempre há uma rebarba gráfica aqui, outra falha de som ali), mas tudo em seu departamento técnico funciona bem o suficiente para manter sua atenção no que realmente importa – matar, destruir e explodir tudo no caminho!

O épico que nunca chegou a ser

É no mínimo uma grande lástima o que aconteceu com Apocalypse – tivesse a Neversoft mantido o jogo em preparo por mais tempo, seria bem provável que hoje tivéssemos uma boa franquia nascida naquele ponto da história. Com a idéia inicial de Trey Kincaid como um parceiro a um herói diferente, todas as suas falas teriam sido aproveitadas – e trariam um impacto muito maior à história do que simples frases rebuscadas, recortadas e coladas (em muitos trechos, é nítido que o personagem de Willis está conversando com alguém e não fazendo um monólogo).

Porém felizmente isto não tira o brilho de Apocalypse, já que explodir tudo e todos na base da metranca ainda é muito cativante e relaxante, independente das lacunas na trama. Quer uma dica esperta? Experimente jogar este título após um dia estressante de estudo/trabalho para comprovar seus efeitos terapêuticos (método testado e aprovado por este humilde redator aqui).

Talvez nunca saibamos o que de fato teríamos presenciado em 1998 caso este CD tivesse trazido toda a “revolução” que prometia, e isso pouco importa agora de qualquer forma. Deixe tal preocupação para os historiadores cata-cavaco enquanto incorpora o velho espírito truculento e indelicado de John McClane para brincar de detonar cidades enquanto salva a humanidade de mais um fim do mundo.

Não “o fim do mundo mais épico de todos os tempos” – só outro bem genérico… Mas ainda assim, muito divertido.

Videos

Apocalypse (PS1): Longplay – Fonte: World of Longplays

Música “Control” da cantora Poe, que surge em muitos momentos durante o jogo – Fonte: Azrafer

Dicas

Se terminar o jogo “na raça” não é exatamente seu foco e você só quer saber de detonar tudo da forma mais descompromissada e anti-stress possível, Apocalypse tem uma batelada de códigos que transformam a aventura de Trey Kincaid em um verdadeiro passeio no parque – e olha que nem precisa de Game Shark pra isso!

Para ativar os truques abaixo, basta pausar o jogo em qualquer momento e realizar as seguintes sequências de botões:

  • Todas as armas disponíveis: segure o botão L1 e então pressione quadrado, círculo, para cima, para baixo, botão X e quadrado;
  • Munição infinita para todas as armas: segure o botão L1 e pressione X, triângulo e círculo;
  • Vidas infinitas: segure o botão L1 e então pressione triângulo, botão X, círculo e quadrado;
  • Invencibilidade: segure o botão L1 e pressione para cima, para baixo, para a esquerda duas vezes, triângulo, para cima, para a direita e para baixo
  • Seleção de fases: segure o botão L1 e então pressione triângulo, para cima, botão X e para baixo;
  • Completar a barra de vida: segure o botão L1 e então simplesmente pressione X, triângulo e círculo.

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