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Avalon, MUDs e Role Play

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Um dia desses eu estava conversando com um amigo sobre as possíveis características definidoras dos RPGs eletrônicos e, dentro desse papo, apoiado por uma pesquisa que ambos estávamos fazendo, as diferenças entre os RPGs ocidentais e japoneses iam se apresentando naturalmente. Foi quando falamos sobre a questão do Role Play, um aspecto definidor e essencial dos RPGs não eletrônicos (afinal, a sigla vem de Role Playing Game, como vocês sabem).

Em RPGs de mesa, com contexto e ambientação definidos, é esperado que os jogadores não apenas se valham de habilidades e atributos, mas que também interpretem um personagem fictício (e que suas habilidades e atributos sejam fatores que definam o personagem). Na maioria dos casos, quanto mais os participantes souberem do universo temático do jogo, maior a possibilidade do role play propiciar uma experiência interessante.

Se na fantasia você é um orc cyberpunk que pretende derrubar o governo através da tecnologia e da violência, suas falas, ações e intenções não podem ser as mesmas das de um assistente em um laboratório de análises clínicas que joga RPG com os amigos no fim de semana (mesmo que sua vida real tenha grande influência na sua imaginação e no tipo de personagem que você vai viver).

Esse aspecto do Role Playing está, em termos gerais, bastante apartado dos JRPGs como conhecemos hoje e, surpreendentemente, encontrou muitas dificuldades de aplicação mesmo nos RPGs ocidentais para computadores. Claro que existem jogos de campanha com sistemas voltados para o Role Play, sistemas de alinhamento etc., mas o gênero acabou se colocando muito mais no campo de uma simulação imersiva do que do Role Playing propriamente dito.

Há um gênero “irmão” dos RPGs, no entanto, que desenvolveu bastante o Role Play como fator definidor da experiência: os MUDs (Multi-User Dungeons ou Calabouços Multi-Jogador).

O mundo entre siglas: dos RPGs, aos MUDs e MMOS

Mas antes de falar dos MUDs, vale a pena retraçar os princípios dos RPGs eletrônicos, afinal foram eles que influenciaram os primeiros Multi-User Dungeons. Aliás, não estou enquadrando os MUDs como um subgênero dos RPGs pelo fato de que existem MUDs que não são RPGs. Nesse caso, o exemplo também se aplicaria aos Roguelikes (e Roguelites), gênero que já recebeu um excelente post bastante informativo na coluna Pixels Modernos, aqui do Jogo Véio. Eles nasceram de RPGs dungeon-crawler, mas se estenderam para outros tipos de jogos que não só aqueles com mecânicas e sistemas de RPG.

Mas voltemos aos precursores dos RPGs eletrônicos. Nos anos 1950-1960, computadores pessoais não eram uma realidade dos lares americanos, mas centros acadêmicos e universitários possuíam máquinas já razoavelmente avançadas. É nesse contexto que nascem os primeiros jogos eletrônicos, feitos por estudantes das áreas de tecnologia. Os RPGs, por sua vez, também receberam uma atenção especial desses estudantes e em meados da década de 1970 uma série de iniciativas apareceram. Esses são os possíveis “primeiros RPGs eletrônicos” da história, influenciados pela literatura fantástica e pelo D&D (Dungeons and Dragons).

Feitos a partir do sistema PLATO (que era usado nas universidades norte-americanas), esses títulos variavam em complexidade de sistemas e mecânicas. Nesse rol cabe ressaltar o lendário m199h, pedit5, além dos mais importantes, dnd (1975) e Avatar (1979). Pretendo fazer um texto focado apenas em dnd em algum momento do ano, mas por hora deixo a indicação do artigo sobre os RPGs para PLATO assinado pelo tal amigo que mencionei no começo da conversa.

Enquanto Ultima (Apple II) foi desenvolvido meio que a parte desse histórico do sistema PLATO, outros games como Wizardry (Apple II) dialogavam mais diretamente com essa referência. Este possui uma ligação mais íntima com a gênese dos RPGs japoneses, tema que iremos tratar mais extensivamente no futuro.

Mas o sistema PLATO não era o único que via florescer jogos. O PDP-10 também recebeu games pioneiros, como Colossal Cave Adventure (um jogo de aventura em texto) e Zork (1977). Ambos figuram como importantes referências para os primeiros MUDs. Aliás, um dos primeiros jogos do gênero chamava-se justamente MUD (Multi-User Dungeon).

Pelo maior envolvimento com os jogos de aventura baseados em texto, os MUDs acabaram encontrando no Role Play um campo extremamente fértil para o desenvolvimento de suas aventuras e de seus mundos. Esses títulos acabaram por enfrentar a dificuldade da transposição do Role Playing para o meio eletrônico e até pelo fato desses jogos serem baseados em texto, há uma simplificação de fatores visuais para que se mantenha a complexidade em seus sistemas e em sua capacidade de propiciar o Role Play.

Por serem jogos multi-jogador, eles primeiros se valeram das conexões internas dos computadores das universidades, para depois utilizar as conexões distantes e, por fim, o nosso conhecido ambiente www. Pela sua possibilidade de gerar aventuras únicas para cada jogador e fazê-los serem parte de um mundo sempre em expansão, os MUDs acabaram influenciando os MMORPGs.

Everquest, de 1999, um dos mais importantes MMOs, bebeu diretamente da fonte dos MUDs, tendo como influência títulos como DikuMUD e Sojourn. O advento dos MMORPGs, entretanto, não significou o fim dos MUDs, já que a experiência de Role Play ainda é limitada nos RPGs massivos, que hoje, ao meu ver, trazem muito mais uma experiência focada no cumprimento de tarefas e atividades do que no Role Playing propriamente dito.

Para quem quer experimentar o mundo dos MUDs hoje, uma das melhores indicações é Avalon (cabe ressaltar que é necessário um conhecimento um pouco mais extenso de inglês para melhor aproveitar o título, visto que ele é todo baseado em texto).

Avalon: 1989

Avalon foi publicado inicialmente em 1989 e o mais impressionante é que o jogo continua existindo em tempo real até hoje. Essa ideia do tempo real é importante, já que o mundo do game vai tendo sua histórias (e histórias) quer você participe ou não, quando você está logado jogando e também quando você não está.

Existe toda uma história do continente de Avalon e seu mundo que propicia uma série de formas de se jogar. Existem diferentes metas, que vão desde o foco em combate ou aventura, até mesmo em comércio e política. Para além das formas de se crescer dentro do contexto do jogo, também existem as diferentes profissões, cada uma com dezenas de habilidades.

Aliada à complexidade mecânica e de sistemas do jogo, está a centralidade do Role Playing. Esse aspecto é tão importante na experiência, que é indicado você conhecer um pouco da história e das cidades de Avalon para melhor compor a personalidade de seu personagem. Encarnar o personagem em suas particularidades e em como ele vai lidar com NPCs, CCCs (criaturas e indivíduos que lutam contra os jogadores) e principalmente outros jogadores.

Entra aí a importância de assumir uma postura hostil ou amigável, já que isso influencia como certas mecânicas vão se desenrolar. Você pode ser um assassino ou ladrão hostil e suas intenções e passos vão estar escondidos dos outros jogadores. Ou pode ser um altruísta que ajuda os outros e é elencado na entourage (algo parecido com uma party ou equipe) de quem está perto.

Você pode buscar o conhecimento de poções ou do sobrenatural, até mesmo focar em combate ou no trato com a floresta e os animais. Tudo isso mediado pelo seu interesse em jogar dessa ou daquela forma. Em crescer nos termos da política, tornar-se um combatente valoroso ou até mesmo um temido assassino. Esse é o tipo de experiência diferenciada que podemos encontrar nos MUDs.

Assim, o aspecto do Role Play está bem presente no gênero, mesmo patinando no tipo de jogo eletrônico que o leva no nome, os RPGs. Creio que um dos bons caminhos para os RPGs é justamente buscar as possibilidades do Role Play, testar sistemas e mecânicas que possibilitem uma interpretação maior de personagens para além do que já está posto. Mas é para falar deles que estamos aqui e oportunidade não irá faltar.

Voltaremos na próxima quinta-feira, dessa vez focando em um memorável RPG de ação para Super Nintendo. Dica: a tradução literal de seu nome seria algo como “a criação do céu e da terra”.

Você já experimentou algum desses MUDs? Conhece algum que pode ser acessado em português? Não deixe de comentar com a gente e de sobretudo, deixar sugestões de jogos e temas para a coluna Gatilho do Tempo.

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