Cadillacs and Dinosaurs (Arcade) – Vigorosamente socando dinos e capangas através das eras

Fabio Zonatto / 26 de abril de 2017 / Análises, Arcade

Aqui está a máquina responsável pelo “sumiço” de muito troco de pão: Cadillacs and Dinosaurs!

Porém antes de abordarmos o jogo propriamente dito, vale trazer a questão do quanto é imprevisível falarmos sobre os consoles nos anos 80 e 90, já que muitos gamers naquela época possuíram apenas uma plataforma pelo óbvio motivo financeiro. Desta forma, quando um de nós redatores falamos sobre um clássico absoluto do Mega Drive ou Super Nintendo por exemplo, existe uma grande possibilidade de você, leitor, jamais tê-lo jogado, não importando o quão marcante e reconhecido o título tenha sido.

Porém nos Arcades a coisa muda de figura. Mesmo quem nem tinha videogame em casa podia arriscar gastar de 25 a 50 centavos em uma ficha num fliperama qualquer. Fosse cabulando a aula, na hora do almoço no serviço ou em qualquer outro momento transformado em oportuno pela facilidade de acesso, as máquinas de Arcades engoliam nossos trocados e nos presenteavam com jogos espetaculares – muitos até para os padrões atuais.

Cadillacs and Dinosaurs é somente um dos muitos jogos que na época traziam legiões de viciados à frente de seus controles. Um beat ‘em up dos mais caprichados e divertidos em todos os tempos que ainda lhe permitia jogar em trio com amigos (isso nas poucas máquinas brasileiras que apresentavam o gabinete correto – na maioria dos botecos era somente em dois jogadores mesmo), Cadillacs atravessou gerações e até hoje segue como um dos retrogames mais emulados em PCs, celulares e outros consoles.

O jogo é da autoria da velha Capcom, e chegou aos fliperamas em 1993. Foi baseado nos quadrinhos Xenozoic Tales, do autor Mark Schultz, amplamente publicado no exterior entre os anos de 1986 e 1987. Hoje, é possível encontrar a série de gibis republicada por selos como Dark Horse e Marvel – e se você é fã de Cadillacs and Dinosaurs nos videogames, nós fortemente recomendamos que vá procurar estas revistas!

Alinhado o tom de nostalgia da matéria e apresentado o grande jogo do qual hoje falaremos, vamos adiante nesta pancadaria para mostrar até a um certo Dr. Grant como realmente se lida com dinossauros!

Um futuro mesozóico até demais

Como já mencionado, a trama de Cadillacs and Dinosaurs vem dos quadrinhos oitentistas Xenozoic Tales, e contam a história de uma Terra futurística onde o nós não estamos mais no topo da cadeia alimentar.

Muitos desastres naturais acometeram nosso planeta por centenas de anos, e estes fenômenos tornaram a Terra inabitável aos humanos. Sem opções se quisesse sobreviver, a turma toda tratou de abandonar a superfície e foi morar em cidadelas subterrâneas (fãs de Fallout já ligam as antenas neste ponto), até que finalmente deixaram os esconderijos para encontrarem novamente um planeta habitável sob a luz do sol – isso já no ano de 2513.

Porém nada estava abandonado: para a surpresa dos sobreviventes humanos, dinossauros repovoaram o planeta e agora traziam de volta sua supremacia. Mesmo inicialmente sendo criaturas pacíficas, a coisa logo ficou feia graças a uma nova gangue chamada Black Marketers – mercenários e caçadores que passaram a chacinar os dinos.

Logo, os répteis titânicos passam a ver seus recentes vizinhos humanos como almoço, e assim começaram a atacar povoados e vilarejos em busca de comida. Não apenas estes dinossauros caçadores agora devem ser impedidos, como também a gangue de bandidos precisa aprender uma ou duas lições de como levar um soco na mandíbula. Neste momento é que entram os heróis de nossa história.

O quarteto selecionável é formado por Jack Tenrec, Hannah Dundee, Mustapha Cairo e Mess O’Bradovich, e cada um tem suas próprias características que os torna únicos em estilo de jogo. Tome nota:

  • Jack Tenrec: como um “old blood” (um mecânico especialista em transformar sucata do “velho mundo” pré-apocalipse em máquinas úteis), Jack tem atributos balanceados e pode ser controlado tanto por veteranos quanto por novatos com a mesma facilidade. Sua força é o atributo que se sobressai, e sua rasteira deslizante é ótima para limpar a tela;
  • Hannah Dundee: cientista e embaixadora, Hannah também sabe se virar muito bem no campo de batalha. Seguindo o modelo feminino em beat ‘em ups (vide Golden Axe e Streets of Rage, por exemplo), ela é mais fraca em poder de ataque, porém também é bastante ágil nos movimentos e golpes. Sua grande habilidade ainda a permite fazer com que os armamentos encontrados pelo caminho durem mais em suas mãos.
  • Mustapha Cairo: como Jack, Mustapha também é um mecânico habilidoso – mas em combate, ambos tem estilos bem distintos. Isso porque a principal característica do guerreiro de boné amarelo é a agilidade, a qual combina com a força para criar a mistura perfeita. Por muitos, Mustapha é considerado o melhor personagem dentre os quatro, e basta alguns minutos de gameplay com ele para entender o porquê.
  • Mess O’Bradovich: se a sua praia é força de monstrão pra sentar a porrada geral sem se preocupar com velocidade, então Mess é o seu personagem. O poder de ataque do grandalhão é o maior do jogo, e sua boa habilidade no manuseio de armas faz dele uma opção muito divertida de jogo. O problema é mesmo sua falta de agilidade – se você se acostuma a jogar com o Mustapha ou a Hanna, passar para os controles do Mess vai te fazer sentir-se jogando em slow-motion.

Desafiando dinos e caçadores cretinos (só pra rimar)

Como no melhor estilo dos beat ‘em ups clássicos, Cadillacs and Dinosaurs segue a mesma linha de desafio: começa no mamão com açúcar, e vai engrossando com o passar dos estágios. Também pesa bastante o fato de estarmos falando de um jogo de Arcade – a dificuldade era sempre maior que a vista em um jogo para consoles caseiros justamente para comer mais e mais da sua grana em fichas.

Não é brincadeira: é bem possível perder todas as suas vidas já no final do primeiro estágio, ainda mais quando se está começando. No segundo, novos inimigos muito mais fortes já são introduzidos, e o chefão é ainda mais casca-grossa que o primeiro. Capangas e dinos menores tem uma boa resistência às suas porradas (por isso jogar-se sozinho com a Hannah é tarefa das mais difíceis), e alguns caçadores ainda podem aparecer armados com rifles para atingi-lo a longa distância.

Sempre fique de olho quando a tela chegar a algum dinossauro maior roncando tranquilamente – capangas tentarão acordá-lo na base da porrada e, se conseguirem, o bicho vai direto pra cima de você! Certifique-se de dar cabo dos vagabundos que se aproximarem do dino dorminhoco para mantê-los em seus sonhos coloridos e fora da sua lista de problemas.

Sendo tradicionalmente um jogo de Arcade, os estágios finais são um tremendo pesadelo: dúzias de inimigos poderosos se acumularão na tela, e também podem ajudar os chefões durante os confrontos. Isto dito, terminar Cadillacs and Dinosaurs geralmente é tarefa que demanda uma bela quantidade de paciência e fichas, apresentando uma dificuldade absurda e até mesmo desleal em níveis mais avançados.

Com os emuladores, ficou muito mais simples fechar a aventura deste quarteto… Mas nos velhos tempos de fliperama, encontrar alguém que tivesse sido capaz de tal façanha era algo muito mais raro. Teria sido você, leitor, um destes feras? Não vale mentir!

Arsenal pra Rambo nenhum botar defeito

Outra tradição dos jogos do estilo são os power-ups, e geralmente estes não são tão numerosos que valham uma seção exclusiva (vide os reviews de Golden Axe, Streets of Rage e Comix Zone, por exemplo). Porém em Cadillacs and Dinosaurs não tem outro jeito: tem tanta coisa que você pode encontrar pelas fases que precisamos falar disso em específico!

Quanto aos itens de cura, não há muito a se falar: de pratos feitos (que dão até água na boca) aos clássicos franguinhos e bistecões, todos recuperam sua vida – só o que muda é a quantidade de energia restaurada (claro que uma goma de mascar não vai matar a fome como uma porção de fritas). O mesmo também aplica-se aos itens que conferem pontos extras ao seu placar (relógios, ouro, grana etc.).

É nos armamentos que está a grande jogada de Cadillacs, pois são muitos e de tipos diferentes: de porretes à armas de fogo das mais variadas. Confira a listinha a seguir pra ter-se uma ideia do arsenal:

  • Pedaço de pau: se você quer bancar o arruaceiro, não há peça melhor. Este pedaço de madeira causa danos medianos aos inimigos e, quando se quebra após muitos usos, as grandes lascas podem ser usadas como facas improvisadas.
  • Porrete: muito parecido com o pedaço de pau, porém mais forte e resistente. Seus ataques podem ser carregados pressionando-se o botão de soco por alguns segundos, o que garante golpes críticos capazes de eliminar capangas comuns rapidamente.
  • Faca: se manuseada por qualquer personagem masculino, a faca é somente uma lâmina arremessável. Já nas mãos da habilidosa Hannah, esta faquinha ganha ataques únicos e pode ajudar a combater vários inimigos antes de finalmente se quebrar.
  • Pedregulho: fique de olho pelo chão de cada estágio, uma vez que estas pedras podem passar despercebidas. Quando arremessadas, estas podem tontear um capanga facilmente, o que deixa a janela aberta para finalizá-lo sem muito esforço.
  • Tocha: muito parecida com o porrete, porém também pode incendiar inimigos atingidos para danos extras. São na maioria das vezes encontradas em fogueiras de acampamento – é só descer a porrada na lenha flamejante para que algumas tochas surjam pelo chão.
  • Facão do açougueiro: só existem duas delas pelo jogo, e são encontradas exclusivamente durante o confronto contra o chefão da segunda fase. Basta sentar a porrada no açougueiro para que ele derrube uma de suas lâminas, que pode ser apanhada e usada contra ele e seus ajudantes sem limitações de uso!
  • Dinamite e granada: explosivos de uso único que causam danos consideráveis a qualquer um no raio de destruição – inclusive a você! Enquanto a granada é mais fraca e detona-se com o impacto contra um alvo, a dinamite mostra grande poder e detona-se alguns segundos após arremessada.
  • Pistola: revolver de 6 disparos que causam belos estragos aos inimigos. Quando as balas acabam, pode ser recarregada com a munição extra ou arremessada para causar danos antes de se quebrar.
  • UZI: submetralhadora automática com capacidade para 48 disparos rápidos, porém fracos. Quando vazia, pode ser remuniciada ou então arremessada para causar danos extras antes de se quebrar permanentemente.
  • M-16A1: rifle de assalto automático com capacidade para 48 disparos rápidos e poderosos. Sem munição, pode ser recarregada ou então usada como porrete improvisado para descer na cabeça dos inimigos.
  • Rifle de caça: tem capacidade para 6 disparos mais poderosos que os da pistola, e também pode ser usado como porrete quando as balas acabam. Esta é uma das armas mais encontradas durante o jogo.
  • Carabina: a clássica calibre .12 com capacidade para 6 disparos detonantes é a arma comum mais poderosa do jogo. Se encontrar uma, tente remunicia-la sempre que possível – mas se não tiver outro jeito, é só tacar a danada nas fuças de algum infeliz.
  • Bazuca: se em Streets of Rage ela é exclusiva da polícia, em Cadillacs o jogador pode possuir este poder de fogo em suas mãos. Você ganha uma sempre que perde uma vida, acompanhada por 4 disparos que explodem em área e arrasam qualquer alvo.
  • Munição: caso esteja com uma arma em mãos ao coletar este item, ela será completamente recarregada. Se não estiver portando nenhuma, a próxima arma de fogo adquirida já terá carga completa para você se divertir à vontade.

Departamento técnico: Cadillacs and Dinosaurs escama por escama

Diferente de outros Arcades que já mencionamos por aqui (a exemplo de Altered Beast e Out Run, máquinas dos anos 80), Cadillacs and Dinosaurs foi lançado já em 1993, o que lhe permitiu níveis incríveis de gráficos e som.

Inerente ao primeiro elemento citado, os modelos de personagens – tanto os heróis quanto os inimigos humanos, dinos e chefes – são muito bem trabalhados e também diferenciados. Até quando o capanga é reaproveitado (recolor), ele tem algum detalhe físico alterado (com ou sem barba, usando ou não algum acessório de vestimenta). A única bronca vai para o número de quadros de animação, que são até limitados levando-se em conta o potencial do hardware da máquina.

Os cenários dão show de cores e são bastante variados – em um destes, o jogador poderá até mesmo guiar um Cadillac, atropelando todo mundo pelo caminho e enfrentado um chefão motociclista no final. São muitos ambientes para serem explorados pelo jogo.

A trilha sonora é muito bem sacada e energética, dando o tom necessário para manter o jogador animado durante as muitas fases de pancadaria. Várias destas canções ainda hoje figuram entre os clássicos dos videogames e povoam as mentes de inúmeros jogadores casuais e hardcore.

Vozes e efeitos são bastante nítidos e empolgantes, o que dá aquele gostinho de “quero bater em mais capangas só pra ouvir o som da porrada comendo solta”. Ao final de cada estágio, cada herói tinha uma espécie de grito de guerra, com o “All right!” de Jack Tenrec sendo um dos mais marcantes – quem não queria berrar junto com ele após enfrentar uma barra pesada e vencer outra treta cabulosa?

Mesmo sendo bem difícil, a qualidade técnica de Cadillacs and Dinosaurs faz dele um título tremendamente viciante. Particularmente, este redator aqui aproveitava ao máximo cada ficha jogando até perder, mas não pegando o Continue. Eu preferia mesmo era recomeçar tudo outra vez na nova ficha, só pra tentar avançar com outro personagem.

“Cadilac Dinossauro” – imortal dos fliperamas e botecos

Quem jamais chamou o jogo desta forma escrita no subtítulo que atire a primeira pedra – estamos falando de um tempo onde “Raís Fornogrei!” e “Taiguer Robocop” estavam na boca da galera, e não havia a menor preocupação em dizer-se o nome certo dos jogos. Ô tempinho bom…

Novamente, o Jogo Véio aponta no certo e aposta no review de um jogo que nem precisa de credencial alguma, dada a quantidade de gamers (e também não-gamers) que conhecem esta verdadeira pérola dos fliperamas e botecos noventistas. Se sabemos que Cadillacs and Dinosaurs é um jogáço, então por que falarmos tanto dele?

Simples: porque aqui é a casa dos retrogames, e nós devemos uma bela homenagem ao legado que muitos dentre estes nos deixaram. Este beat ‘em up da Capcom é um dos melhores exemplos dos títulos inesquecíveis e que merecem replay a qualquer hora, ainda mais se der para organizar uma jogatina de final de semana com a galera.

Seja na base da ficha (tão mais barata naquela época) ou do emulador e suas mamatas de savestate e créditos infinitos, o que importa mesmo é escolher o personagem e abrir caminho através desta nova era jurássica da forma que os jogos faziam melhor antigamente: na base da porrada!

Vídeo

Cadillacs and Dinosaurs (Arcade): Longplay – Fonte: World of Longplays

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