Castlevania II: Simon’s Quest (NES) e os novos rumos da série

por Ítalo Chianca em 1 de agosto de 2018

Após a excelente recepção do primeiro Castlevania por parte da mídia especializada, a Konami modificou um pouco a fórmula original, trazendo elementos de RPG que tornaram Castlevania II: Simon’s Quest um jogo único e controverso.

Segundo capítulo

Lançado no Japão em 1987 para o Famicom Disk System, e no ano seguinte para o Nintendo Entertainment System na América, Castlevania II: Simon’s Quest deu continuidade à nova série da Konami, unindo a progressão lateral e a ação do primeiro título no NES com a nova liberdade de exploração vista em Vampire Killer — título da série lançado para o MSX2 poucos meses depois da estréia no 8-bit da Nintendo.

Essa mistura, aliás, foi um dos primeiros grandes passos da Konami para o aperfeiçoamento dos conceitos da série que viriam a se tornar o estilo que a consagraria: o famoso Metroidvania, gênero que unia as características de ação e exploração tão bem executadas pelas séries Metroid e Castlevania.

O eterno retorno

A batalha no jogo anterior não significou o fim dos problemas para Simon Belmont. Antes de ser destruído, Drácula colocou uma maldição sobre ele que o levará a morte eminente em alguns dias. Lutando pela vida, a única forma do caçador de vampiros se livrar dessa maldição é reunindo o corpo de Drácula para ressuscitá-lo e, em seguida, queimá-lo nas ruínas do antigo castelo do vilão.

A missão, porém, não é das mais simples. Após o confronto passado, o corpo de Drácula foi divido em cinco partes, todas protegidas por fiéis servos do Senhor dos Vampiros. Sendo assim, Simon, mais uma vez em posse do chicote Vampire Killer, precisa se aventurar pelas terras amaldiçoadas da Transilvânia para selar de vez o eterno algoz da família Belmont.

Misturando gêneros

Em Simon´s Quest, a Konami apostou na mistura de dois gêneros distintos para desenvolver a segunda iteração da série Castlevania no Nintendinho. De um lado, a progressão lateral dos jogos de plataforma 2D, com toda a ação se desenvolvendo como no título anterior; do outro, a exploração não-linear e o gerenciamento de itens, comum no gênero RPG.

A união de alguns conceitos desses dois gêneros resultou numa experiência bastante interessante e profunda se comparada à maioria dos jogos lançados na primeira metade da década de 1980. Os combates com o chicote, os pulos sobre plataformas, o uso dos itens e as intermináveis subidas de escadas estavam lá, lembrando ao jogador de que se tratava de um jogo familiar.

No entanto, a liberdade de explorar todo o mapa sem uma sequência pré-determinada de fases, a compra de novos itens e melhorias para o herói, e a interação com outros personagens trouxeram novidades interessantes que serviram de atrativo para os jogadores.

Dois mundos

Diferente do jogo anterior, no qual Simon passava por uma fase de cada vez, em Simon’s Quest o jogador pode explorar cada canto do mapa, conversando com os camponeses em busca de pistas para avançar na trama, enfrentando criaturas malignas e procurando os castelos (isso mesmo, no plural!) onde as partes do corpo de Drácula são protegidas pelos seus servos.

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Outra novidade interessante dessa sequência é a variação de dia e noite durante a jornada. Essa, contudo, não é apenas uma mudança visual. Durante o dia, Simon pode visitar as cidades, comprar itens nas lojas, procurar dicas, recuperar a energia na igreja e vencer mais facilmente os inimigos. Durante a noite, porém, as cidades estão fechadas e infestadas de zumbis e os inimigos são mais difíceis de vencer, dando mais corações e experiência.

Enfrentar os inimigos noturnos é bastante útil para melhorar as habilidades de Simon. De acordo com a quantidade de inimigos mortos, o personagem ganha mais life. E quanto mais corações adquiridos, é possível comprar novos itens, como alhos, louros e os novos chicotes.

Familiar e mortal

As novidades, felizmente, não sobrepõem os conceitos tão bem explorados no primeiro game para NES. Os controles, por exemplo, permanecem idênticos, a ação 2D não muda e os monstros e itens ainda são bastante familiares.

Para encontrar as cinco partes do “corpo” de Drácula (unha, olho, costela, anel e o coração), Simon deve explorar Mansões, Igrejas, Lagos, Florestas, Pontes e Cemitérios, enquanto enfrenta morcegos, corvos, aranhas, plantas carnívoras, zumbis, criaturas aquáticas, fantasmas, lobos, medusas, caveiras e todo tipo de monstro — além dos poderosos chefes que, dessa vez, incluem Gárgula e a velha Morte.

A jornada, aliás, é das mais complexas. É preciso filtrar as dicas dos camponeses (alguns mentem bastante) e contar até com a sorte para descobrir passagens e, principalmente, “rituais” que envolvem o uso de itens específicos em determinados lugares, como ter de se ajoelhar à beira de um lago para revelar a passagem para uma nova mansão.

Com o aumento na quantidade de desafios e inimigos, o arsenal de Simon também precisava passar por melhorias. E assim foi. Alho, Louro, Coração, Água benta, Diamantes, Cristais e a Cruz formam os itens mágicos à disposição. Cada um deles tem uma importância única para o desenrolar da trama, como quebrar paredes, invencibilidade temporária, paralisar inimigos e até tornar visíveis plataformas e alguns segredos.

Quanto às armas, estacas e diferentes tipos de faca e chicote estão à disposição, como o poderoso chicote de chamas, perfeito para destruir os chefes finais. A maioria dessas armas podem ser obtidas nas lojas das cidades, basta procurar pelas passagens secretas em algumas salas aparentemente vazias para encontrar algum mercador especial.

Em alto nível

Além das mecânicas, Castlevania II – Simon´s Quest melhorou diversos aspectos técnicos em relação ao jogo anterior. Graficamente, é possível identificar mais cores e novos detalhes nas fases, como efeitos de sombra, texturas nas paredes e uma modelagem melhor dos personagens, incluindo Simon. Até a movimentação do herói melhorou, respondendo muito mais rápido aos comandos do jogador.

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A trilha sonora, como se tornaria tradição ao longo da série, é uma das maiores qualidades do título. Os efeitos permanecem quase os mesmos, mas as canções tornam a experiência de jogo completamente imersiva e divertida. Cada período do dia possui a sua própria melodia, variando entre as agitadas e empolgantes, com as mais calmas e sombrias. O destaque maior é a música “Bloody Tears”, tema do jogo que seria recorrente em quase toda a série.

Um nível a menos

Castlevania II: Simon´s Quest é um game que exige paciência, exploração, sorte e, na maioria dos casos, diversas consultas a detonados. Não por causas dos chefes — que se tornaram um pouco mais fáceis nesse jogo —, mas porque Konami pegou pesado em algumas sequências que exigem combinações muito específicas de itens e ações. Algo provavelmente proposital para ganhar cobertura e marketing das revistas sobre videogame da época.

Por falar nelas, Simon’s Quest protagonizou um capítulo interessante na história da revista americana Nintendo Power, quando a capa que trazia Belmont com a cabeça de Drácula na mão tornou-se motivo de controvérsias por parte de pais enfurecidos com a brutalidade mostrada na ilustração.

Versões

Além do Famicon Disk System e do NES, Castlevania II foi relançado para PC em 2002, na coletânea Castlevania and Contra: Konami Collector’s Series, e é um dos títulos exclusivos do NES Classic Edition (O NES Mini da Nintendo) na Europa e na América do Norte.

O Virtual Console, serviço de distribuição online de jogos da Nintendo, também disponibilizou um port do jogo para O Nintendo Wii, em 2007; Nintendo 3DS, em 2013; e Nintendo Wii U, em 2014.

Clássico Controverso

Misturando elementos de ação, plataforma e RPG, Castlevania II: Simon´s Quest dividiu os corações dos fãs da série com uma jornada divertida, profunda, complexa e de muita qualidade. O resultado dessa junção de novos elementos, contudo, não foi unânime. Alguns amaram, outros crucificam; mas, a experimentação que a Konami fez nesse título resultaram em um jogo sólido, divertido e desafiador, trazendo conceitos que seriam exploradas nos futuros jogos da série.

Um grande jogo que merece ser jogado por quem curte um jogo véio de qualidade.

Castlevania II: Simon´s Quest
Desenvolvedora: Konami
Publicadora: Konami
Plataforma: NES/Famicon
Lançamento: 1987

Longplay

Revisão: Rafael Belmonte


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