Comix Zone (Mega Drive) – quadrinhos e pancadaria na medida certa

Fabio Zonatto / 6 de março de 2017 / Análises, Mega Drive

Comix Zone foi uma grande jogada na época certa, e já explicaremos o motivo: Nos idos da década de 90, manter-se uma coleção de quadrinhos era muito mais fácil que hoje em dia. Naquela época, comprar cinco ou seis revistas por mês não era tão caro: você podia, por exemplo, colecionar Spawn, X-Men, Batman e Pato Donald numa boa sem gastar tanto. Ainda sobrava até para o refrigerante companheiro de leitura.

Neste contexto – que era verdadeiro sobretudo para os norte-americanos – a Sega não comeu bola e resolveu misturar quadrinhos de ação com o estilo beat ‘em up tão em alta naquela época para criar Comix Zone, que chegou ao Mega Drive em 1995.

O jogo foi recebido com uma resposta majoritariamente positiva pela crítica e gamers: gráficos ultra-coloridos, som chocante e jogabilidade afinada criavam a embalagem perfeita para um gameplay de muita ação e pancadaria descompromissada.

Muitos jogaram, poucos conseguiram de fato finalizá-lo – mas o mais importante é que Comix Zone sobreviveu muito bem durante todos estes anos e ainda é muito divertido nos dias de hoje. Vamos dar uma repassada geral no jogo para tentarmos descobrir a fórmula de seu sucesso?

Abrindo a revista, primeira página!

Comix Zone: Vida de quadrinista não é moleza não…

A história que embala Comix Zone é das mais malucas, mas dá o tom perfeito à ambientação pretendida pela Sega: numa noite como outra qualquer, o quadrinista “falido” Sketch Turner está em seu estúdio rabiscando idéias para uma nova história. No momento em que está terminando de criar um novo vilão que batiza de Mortus, uma tempestade de raios despenca dos céus e um destes atinge a prancheta de desenho de Sketch.

Magicamente, o relâmpago traz o maligno Mortus ao mundo real, e este trata rapidinho de enviar seu criador para dentro dos quadrinhos em seu lugar. O vilão declara que ele precisa eliminar Sketch para que torne-se carne e osso de verdade, e embora não possa fazer isso pessoalmente em sua forma atual, será mais do que capaz de tal façanha trocando de papeis com o pobre quadrinista.

Agora preso em sua própria história, Sketch Turner contará somente com a ajuda da agente (e gatinha) Alissa Cyan – outra personagem criada por ele mesmo – e do amigão Roadkill, a ratazana sempre fiel. Para escapar dessa enrascada, nosso protagonista precisa tornar-se o herói de sua própria obra e abrir caminho por entre as hordas de inimigos na base da porrada. Não parece muito fácil, certo?

Porém, como já mencionado, Mortus está acompanhando toda a ação atentamente e não vai facilitar a vida de seu criador: com sua caneta, ele vai rabiscar algumas boas dúzias de perigos buscando freneticamente cumprir sua promessa de despachar Sketch dessa pra melhor e tomar seu lugar em nosso mundo.

Se você já assistiu ao filme “Monty Python – Em Busca do Cálice Sagrado”, pode até ver alguma hilária semelhança entre a premissa de Comix Zone com certa cena daquela genial comédia. Vale uma conferida!

Socos e chutes com muita sintonia

Talvez a parte mais empolgante de Comix Zone seja sua jogabilidade: sentar a porrada nos capangas do vilão Mortus é simplesmente revigorante. As sequências de golpes podem ser finalizadas com um poderoso chute que lança o inimigo para o outro lado do quadrinho – porém o jogo não se resume a “espancar” um único botão.

Sketch Turner tem um grande arsenal de movimentos que são úteis para diferentes ocasiões. É possível chutar abaixado, dar voadoras, chutar dependurado e ainda dar uma “ombrada” poderosa. Além disso, também dá para rolar e escapar de perigos ou passar por locais estreitos.

Os comandos respondem muito bem, e não serão parte do problema quando as coisas apertarem. Sketch é ágil na troca de comandos, de modo que você pode mudar de estratégia ofensiva e interromper uma sequência de socos a qualquer momento, apelando para uma rasteira ou voadora.

Algo interessante de se mencionar é que, embora Comix Zone seja um beat’em up, ele diferencia-se dos mais tradicionais já que é impossível mover-se livremente na tela para cima ou para baixo. A ação rola em um plano único, e você só pode ir para direita ou para a esquerda (como em Altered Beast ou Moonwalker, por exemplo).

Sobrevivendo em quadrinhos perigosos

Para quem é fã de histórias em quadrinhos, cada estágio de Comix Zone é um show: o protagonista Sketch conversa com sua auxiliar Alissa e com os vilões que encontra pelo caminho através de balões, e cada cena ocorre dentro de um quadrinho diferente. Assim que todos os inimigos são derrotados – ou quando algum enigma presente na cena é resolvido – Sketch pode avançar para o próximo quadrinho e continuar a ação.

Por vezes, o jogador poderá optar por qual quadrinho quer prosseguir: é só seguir as setas amarelas indicativas. Mudar de caminho não altera o final de cada estágio, mas pode aumentar ou diminuir o desafio de se chegar até lá. O mais legal é que, em alguns momentos, será necessário atravessar para o próximo quadrinho literalmente “rasgando” seu caminho pela página!

O jogador tem à sua disposição um inventário de três espaços, nos quais pode carregar itens de cura, power-ups detonantes (como facas e explosivos) e também seu fiel companheiro Roadkill – um rato camarada que pode ajudar bastante na jornada .

O gerenciamento de recursos é vital em Comix Zone: muitas vezes será necessário decidir se vale ou não a pena trocar um item pelo outro, e com diferentes tipos de power-ups, pode ser vital saber o que cada um faz antes de tomar qualquer decisão:

  • Tônico: um frasco de tônico revigorante que recupera grande parte da barra de vida. Não são tão raros, mas você não os encontra o suficiente para abusar deles;
  • Dinamite: assim que ativada, cria uma grande explosão que causa danos críticos. Mais indicado para destruir armadilhas ou portas muito resistentes;
  • Bomba de Arremesso: um explosivo menor que pode ser arremessado à média distância. Ótimo para eliminar inimigos em lugares difíceis e que estejam dificultando seu avanço;
  • Faca: quando arremessada, cruza a tela causando danos a qualquer inimigo ou armadilha que atinja;
  • Super-Punho: o mais poderoso item, uma vez que transforma Sketch em um super-herói e permite que ele execute um golpe especial que detona tudo na tela. Ideal contra chefes!
  • Roadkill: como já mencionado, o rato de estimação de Sketch pode ajudar bastante ativando alavancas, encontrando itens escondidos, passando por armadilhas e até mesmo dando uns “choques” para causar danos aos inimigos.

Saber quando pegar, usar ou descartar um item é muito importante, pois Comix Zone não é dos jogos mais fáceis de se finalizar que você verá no Mega Drive. Cada vantagem e recurso precisa ser muito bem aproveitado!

E já que falamos em “desafio”, vamos aproveitar a deixa para analisá-lo em seguida.

Carne mole, pedra dura – tanto soca até que machuca!

Sabe quando estamos jogando um Final Fight ou Streets of Rage e realizamos algo absurdo como entortar um tonel de óleo enorme ou arrebentar uma cabine telefônica com um simples soquinho? Pois é, em Comix Zone esse tipo de façanha não vem de graça.

Em muitos momentos, o jogo obrigará Sketch a quebrar caixotes de madeira, derrubar portas de aço ou destruir grandes rochas na base da porrada. O problema é que aqui isso machuca um bocado: a barra de vida do herói vai sofrendo consideráveis prejuízos a cada golpe desferido contra estes obstáculos.

Se por um lado isso adiciona realismo, por outro prisma tal elemento pode frustrar bastante – não é absurdo que muitas vezes Sketch sofra mais tentando abrir caminho para o próximo quadrinho que enfrentando os capangas e criaturas de Mortus.

Na parte de desafio proveniente dos inimigos, o jogo não é assim tão cruel. Há diferentes tipos de oponentes com suas próprias características e golpes, sendo que praticamente todos tem algum projétil à longa distância e podem ainda bloquear os ataques de Sketch.

Já os chefes compõem o departamento que mais divide opiniões entre os fãs de Comix Zone: há quem os ache imprevisíveis e desafiadores, bem como quem acredite representarem tanto desafio quanto um passeio no parque em uma calma tarde primaveril.

Valem sempre as mesmas dicas: economize energia e guarde seus power-ups mais poderosos para as batalhas contra eles – sendo cauteloso e contando com “aquele ás na manga” no momento de aperto, é sucesso na certa.

Cores chocantes, música radical

A escolha de palavras do subtítulo acima não é por acaso: Comix Zone transpira os anos 90 em seus gráficos coloridos e trilha sonora da pesada!

O que mais salta aos olhos são os personagens, que apresentam modelos bem trabalhados e de pixels pequenos que lhes permitem maior resolução. Embora os cenários não mostrem muito movimento e vida, o contexto de que tudo deveria mesmo ser uma ilustração em uma história em quadrinhos funciona perfeitamente.

Os quadros de animações também não deixam nada a desejar, já que são numerosos e passam muito bem a impressão de movimentos fluídos.

Na parte sonora, o jogo dá outro show com músicas energéticas e de boa nitidez. Aquela pegada ríspida de “radiador de Fusca” característica de Mega Drive fica mesmo perfeita quando as trilhas partem para o Heavy Metal – funcionou perfeitamente em Rock’n Roll Racing e cai como uma luva neste cart também.

Além de ótimas canções, as vozes e efeitos sonoros do jogo também trazem o brilho de um trabalho bem feito. Embora os diálogos sejam em sua maioria descritos em balões, as frases de efeito de Sketch – como “See ya!” e “Oh Yeah!” – soam muito bem, assim como os gritos e gemidos de inimigos espancados e derrotados.  Já o som das porradas dá aquele gostinho de filme de ação noventista, o que traz aquela vibração com a pancadaria tão bem vinda nos beat’em ups!

Um jogo que não está escrito no gibi! (opa, calma lá…)

No final das contas o mais importante é respondermos à pergunta: “Comix Zone é divertido?

E em nossa opinião, a resposta está na ponta dos dedos – com certeza!

Vale lembrar que nada é perfeito, e neste caso a máxima é verdadeira. Apesar de seus bons atributos técnicos (jogabilidade, desafio, gráficos e som muito positivos), Comix pode ser considerado curto em comparação com muitos outros títulos de seu estilo. Os estágios também não trazem elementos tão diferentes de um para o outro, o que pode significar para alguns um gameplay repetitivo e monótono após certo tempo jogando.

A impossibilidade de dois jogadores também é algo frustrante. Não seria ótimo se, por exemplo, a moçoila Alissa também pudesse ser controlada para uma jogatina em dupla? Pois é…

Porém mesmo não sendo o jogo mais épico já criado pela Sega, não há a menor dúvida de que Comix Zone é sim um jogão, algo que você deveria experimentar. No mínimo porque o que é necessário para que tenhamos um jogo de qualidade está lá, tudo direitinho e esperando ser conferido.

Então não perca tempo e vá logo conhecer ou relembrar este petardo com um bom gameplay. Eu mesmo vou correndo, pois quero mesmo é ouvir novamente aquela tela-título tão marcante:

“Test, one, two… Seeeeeeega!”

Vídeo

Comix Zone: Longplay (Mega Drive) – Fonte: World of Longplays

Dicas

Seleção de Fases

Se está difícil colocar um ponto final nas ambições de Mortus, tente pelar algumas etapas do desafio! Vá até o modo “Jukebox” e ouça as seguintes músicas na sequência: 14, 15, 18, 5, 13, 1, 3, 18, 15 e 6.

Feito isso, agora basta selecionar uma música de 1 a 6 e pressionar o botão C para ir direto à qualquer uma das seis fases que desejar. Moleza!

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