Histórias do Asilo: A conta da locadora

Lucas Rodrigues / 9 de agosto de 2017 / Colunas, Crônicas

Sair da escola e ir para casa era uma atividade cotidiana desanimadora para uma criança que precisava caminhar ao sol do meio-dia. Sempre valia a pena fazer um pit-stop na padaria para tomar um refrigerante ou na banca de jornais para olhar gibis da Turma da Mônica ou da Disney. Entretanto, era sexta-feira – o famoso dia de alugar fita. Nesse dia da semana, chegar correndo em casa, engolir o almoço e correr para a locadora era prioridade, pois rendia algumas horas extras de jogatina.

Já não era uma criança que necessitava ser escoltada pelos pais cidade afora, além de ter total autorização na locadora para acessar a conta da família. Logo, após cumprir o velho costume social de início de tarde com minha mãe e irmãs, apenas anunciei que iria à locadora. Peguei meus cinco reais, minha bicicleta e corri para o centro da cidade.

A tentação

O estabelecimento estava como de costume: cheio de crianças jogando Street Fighter, futebol e Streets of Rage nos videogames. Sendo um nerd mirim, participar daquela homogênea massa de garotos barulhentos não me chamava a atenção. Ao invés disso, sempre ia correndo para a seção de cartuchos de Mega Drive, escolhia os jogos que me fariam companhia durante o fim de semana e voltava para casa. Especialmente dessa vez, não demoraria nem um minuto lá dentro, pois já havia chegado com os nomes dos títulos que alugaria: Road Rash e Acme All Stars.

Felizmente, os dois jogos alvejados estavam na prateleira. Peguei-os e me dirigi ao caixa. O dinheiro estava trocado, mas por via das dúvidas, eu sempre perguntava o preço à atendente.

– Quanto é, moça? – perguntei.

– Seis reais. O valor aumentou um pouquinho.

Fiquei paralisado por alguns segundos. Havia sido pego de surpresa. A locação passara de R$2,50 para R$3,00 naquela semana, inviabilizando meus planos para os dois próximos dias. A única coisa a ser feita era abrir mão do divertido jogo de esportes com os personagens do Tiny Toon, ou da porradaria sobre duas rodas.

Ainda sem saber o que fazer, disse à moça:

– Eu só trouxe cinco reais. Não sabia que o valor tinha mudado. Vou ter que escolher só uma fita então. 

– Se você quiser, posso marcar na sua conta -, disse a bela jovem que trabalhava na locadora. – Você pode pagar no fim do mês.

Aquilo soou como música para meus ouvidos. O meu limitado orçamento de um real por dia letivo (o famoso dinheirinho do lanche da escola naquela época) não mais seria uma restrição para o fim de semana. O poder da “conta da locadora” me deixou totalmente entusiasmado e disposto a experimentar todo um mundo que eu nunca havia conhecido.

Para não ter nenhuma nova surpresa, fiz questão de verificar com a moça:

– A promoção de leve 4 e pague 3 ainda vale?

– Com certeza – respondeu-me com um belo sorriso. – Aproveite e leve mais uma fita. A quarta sai de graça.

Não pensei duas vezes antes de aceitar aquela oferta.  Além de ter mais opções para me divertir, a devolução ficaria agendada para quarta-feira ao invés de segunda, pois o cliente que levava quatro fitas para casa tinha direito a ficar com elas por cinco dias. Era um sonho tornando-se real. Voltei para a prateleira e agarrei Rock N’ Roll Racing e Streets of Rage (a criançada deve ter ficado muito brava comigo por estar levando para casa o cartucho que estavam jogando no momento, mas a prioridade era sempre para as locações).

– Vou ficar com mais essas duas então – disse à moça entregando-lhes as capas dos jogos.

– OK. Qual o número da conta mesmo?

– 753.

Enquanto ela cadastrava o serviço naquela tela preta do sistema em interface texto (provavelmente desenvolvido em Cobol ou Clipper), eu namorava um Cheetos naquelas gôndolas de salgadinhos da Elma Chips. Não custava tentar:

– Dá pra marcar salgadinho também? – perguntei.

– Claro. Qual você quer?

Eu estava no paraíso!

Da ostentação à miséria

Nunca havia me divertido com tantos jogos novos durante minha curta vida. As locações que antes limitavam-se a dois cartuchos por restrições financeiras agora me permitiam levar quatro de uma só vez para casa. A TV e o Mega Drive ficavam na sala, mas como meus pais não entendiam muito de videogame, bastava esconder os cartuchos que eles nem notariam a diferença nos jogos. Por via das dúvidas, era sempre bom alugar pelo menos um par de jogos do mesmo gênero para que a diferença não fosse gritante. Não dá pra falar que Sega Soccer e Contra Hard Corps são o mesmo jogo, mas dá para dizer isso sobre Super Hang-On e Road Rash.

No começo do mês seguinte, dirigi-me à locadora novamente em dúvida do que iria alugar dessa vez. Não jogava Gunstar Heroes há muito tempo, talvez fosse hora de me divertir um pouco com esse clássico. Dessa vez demorei algum tempo para escolher os quatro cartuchos. Levei-os à atendente todo animado:

– Oi. Vou levar esses aqui hoje. Pode marcar na minha conta?

– Receio que não será possível -, disse-me com um ar de culpa por ter de entregar notícias ruins. – Você precisará pagar a conta do mês passado para poder fazer sua próxima locação.

– Tudo bem. Quanto deu a minha conta?

– Vinte e oito reais.

Aquele valor me surpreendeu. Não sabia como pagar aquilo e tampouco poderia falar para meus pais que estava devendo na locadora. Pensei por alguns instantes: eu tinha dez reais comigo e ganhava cinco por semana; caso eu não gastasse nada naquele mês, poderia pagar a conta tranquilamente e tudo ficaria bem.

– Vou pagar dez reais agora e trago o resto depois -, disse. – Pode ser?

– Claro!

Não pude alugar mais nada naquele mês, pois estava juntando dinheiro para quitar minha primeira dívida financeira. Os dias ficaram mais sem graça, pois já não podia comprar doces e nem histórias em quadrinhos (naquela época havia dezenas de gibis disponíveis a um real, o que me permitiu ter uma grande coleção em casa). Tampouco comia na escola. Talvez esse tenha sido meu primeiro contato com a sofrida vida financeira de um adulto. Eu poderia tentar convencer minha irmã a alugar alguma fita para a gente, mas ela ficaria sabendo da minha dívida. Por mais que eu confiasse nela, isso poderia me causar problemas, então passei o mês inteiro jogando Sonic the Hedgehog e Sonic 2, que eram os dois únicos cartuchos que eu tinha na época.

Errar é humano, mas…

O mês seguinte havia chegado. Eu já tinha os dezoito reais necessários para quitar minha dívida e voltar a jogar. Depois de um longo e cansativo mês sem o entretenimento que estava acostumado, resolvi que não utilizaria mais a conta da locadora. Aquilo me dava um mês de prazer intenso e outro de dores de cabeça. Escolhi manter o ritmo constante de apenas uma locação por semana e nada de problemas no mês seguinte.

– Boa tarde – disse à moça da locadora. – Aqui está o dinheiro para pagar o resto da minha conta.

– Olá. Que bom que voltou. Estava meio sumido!

Não sabia o que falar. Não podia dizer a verdade. Enquanto eu pensava em uma desculpa plausível, ela continuou:

– Esse mês temos uma nova promoção: você pode alugar cinco fitas pelo preço de quatro. Só as devolverá depois de sete dias.

Meus olhos brilharam. Perguntei:

– Posso usar a conta e pagar de novo no fim do mês?

– Claro.

É uma cilada, Bino!

Havia caído na mesma cilada novamente. Outro mês se passou e eu fui me endividando cada vez mais. Na minha cabeça, tudo estava sob controle, pois já passara por essa situação anteriormente e tudo havia terminado bem. Era fácil repetir a dose.

Na última semana do mês, enquanto eu me divertia com Sonic the Hedgehog 3, ouvi o telefone tocar. Após alguns minutos de conversa entre minha mãe e a pessoa do outro lado da linha, a ligação é finalizada e minha jogatina é interrompida:

– Era da locadora – ouço minha mãe dizer. Já fiquei congelado no mesmo momento. – Disseram que você está devendo. Pegue esses vinte reais e vá pagar isso agora!

Como de costume, os filhos na década de 90 sempre tinham o alerta de bofetadas ligado (funciona mais ou menos como o sensor aranha), então era melhor obedecer sem questionar. Peguei o dinheiro que minha mãe havia fornecido e corri para saldar (ou melhor, amenizar o saldo) da minha dívida.

Ao chegar em casa, fui recebido com uma pergunta simples, porém, assustadora:

– Cadê o troco?

Silêncio.

– Cadê o troco, garoto?

– Não teve troco – respondi em choque.

– Você estava devendo vinte reais?

Para quem não lembra, vinte reais dava pra comprar muita coisa no mercado nos anos 90. Hoje em dia esse valor mal paga um almoço em um restaurante barato.

– Ainda falta pagar alguma coisa ou você quitou a dívida? – minha mãe já estava mais brava do que de costume.

– Ainda falta…

– Quanto?

– Vinte e sete reais.

O “sensor aranha” disparou…

Sim, veiarada. Eu estava devendo quarenta e sete reais apenas em fitas de videogame e algumas guloseimas.

Acho que o fim da história é meio auto-explicativo. Vocês não vão querer ver uma criança de castigo, né?

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