Dead Dance – A luta após o apocalipse!

por Roberto Bier em 17 de setembro de 2018

Como vocês devem lembrar ao longo que visitam o dojo, Street Fighter II foi uma forte revolução no gênero jogos de luta, e todas as empresas de jogos copiaram e blablablá, batatinha frita e patitá. A Jaleco não quis ficar de fora dessa onda e tentou emplacar seu próprio jogo de luta: Dead Dance.

Tá, Bier. Mas a gente vei aqui pra ver sangue!!!

Estávamos em 1993 quando cartuchos de Dead Dance foram encaixados nos SNES de todas as locadoras do Brasil. Claro, sempre tem uma ou outra cidade que se atrasa um pouquinho, mas geralmente os clones de Street Fighter II ganhavam popularidade em relançar a velha fórmula. Aqui você vai reparar que não dá pra fazer um paralelo tão grande entre a origem e o clone, como fizemos em Power Athlete, considerando que Dead Dance foi feito com leves detalhes para se distanciar do clássico. E deu certo? Vamos analisar!

A história

Uma grande guerra destruiu a vida em 98% do mundo. Quanto à população: incerteza, porque o IBGE e o pessoal do Censo 2151 também foi tragado pela destruição. Provavelmente a equipe da Jaleco havia assistido Hokuto no Ken, e decidiu que poderia fazer um jogo com as regras de SF, mas com a história do anime…

Aí, quando o restante da população estava tentando prosperar, seguir a vida, adquirir uma casa com financiamento da Caixa Federal e etc., Jado, que era um sujeito com cara de poucos amigos, encontrou uma armadura (alienígena, mágica?) que lhe concedeu poderes. Então, ele auto-proclamou-se Rei, saiu no braço com quem discordou e não foi vencido por ninguém.

Mas em um mundo pós-apocalíptico, esse esquema de luta atrás de luta cansaria até o Ryu, e também por não querer Testemunhas de Jeová em sua porta,  Jado mandou seus seguidores construírem uma torre e colocou cada um de seus devotos guerreiros vigiando um andar dela.

Essa ostentação de poder chamou atenção dos mais destemidos lutadores, mas muitos morreram tentando subir a torre. E é aí que nossos quatro heróis entram em cena.

Heróis – quem dança a Dead Dance

-Tome isso! Hadouken genérico 2!!!

Syoh: O obrigatório japonês brigão necessário em todo o jogo de luta. Syoh decidiu ir até a torre na esperança de encontrar seu rival e terminar sua luta, interrompida pela Grande Guerra. O nome de sua técnica é Tenga Haouryuu ( a Garra Celestial);

Zazi: Todo o Ryu precisa de um Ken. No caso de Zazi, ele é afro-americano e procura a torre para testar suas forças. Sua técnica se chama Chisou Haouryuu (a Garra da Terra), mas é exatamente igual a de Syoh. (Será que ele é o rival de Syoh? Não me diga!)

Kotono: Não que ter uma mulher fosse obrigatório, mas como a Chun Li escreveu a história, a Jaleco tentou fazer o mesmo através de uma jovem japonesa que luta Ninjutsu com kunais. Ela entrou no torneio pela oportunidade de vingar a morte do pai, pelas mãos de Jado*.

Anotou a placa?

Vortz: O Zangief do jogo, lutador de wrestler holandês, que procura um amigo desaparecido desde a criação da torre de Jado.

Ao invés de unirem forças para vencer o mal que assola o planeta, nossos heróis, que só sabem resolver as coisas na base da porrada,  organizam um torneio entre eles, para decidir quem baterá às portas da torre de Jado e duelará com ele até a morte. Ou, pelo menos, lhe vender um plano de internet banda larga.

*Chun Li mandou lembranças!

Vilões – quem toca a música da Dead Dance

Jado pode ser o vilão, mas não é tão mal-caráter assim… ele colocou um guarda-costas em cada andar da torre, ao invés de juntar toda a galera pra destroçar quem ousar desafiar sua autoridade. Vou te contar, meu amigo, nos tempos de hoje, uma pessoa que zela pelas regras justas de uma luta é um achado, viu? São eles:

Beans: feio que dói!

Beans: provavelmente o mais estereotipado lutador, é um jovem punk que conquistou sua vaga na guarda de Jado na base da briga de rua. É novaiorquino e usa um Soco-inglês às escondidas em suas lutas. Certamente é seu adversário mais esquisito.

Dolf: nunca tirou nota boa em segurança do trabalho!

Dolf: é um ex-comandante militar, oriundo da Líbia. Desempregado (porque a guerra acabou com todo e qualquer conflito), Dolf provou ser impiedoso com uma faca militar e um lança-foguetes (sim, a ideia é mais idiota do que parece), para fazer parte da guarda de Jado. Se não fosse Beans… é, você deve imaginar o resto!

– Achei uma moeda! – É minha!!!

Rei: é uma mestra em Kenpo cujo poder é emanado de outros mestres já mortos. Provavelmente ela tenha talento Shamânico (deixa outros mestre incorporarem suas técnicas nela) e, por isso, veste-se de maneira andrógena.

Já não nos vimos antes em algum lugar?

Gajet: lutador de wrestler australiano. Antes da grande guerra, havia sido expulso do circuito de luta-livre por matar um adversário na competição. A partir daí, adquiriu gosto pela competição até a morte, ao invés da competição esportiva.

Sirou, sádico, se divertindo enquanto torna sua vida um inferno!

Sirou: um ninja munido de uma katana. Impiedoso e lazarento, é tudo que Jado precisava em seu exército para encher o saco dos heróis.

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K’s: androide com braços exoesqueléticos maiores que o normal, que lhe concedem bom alcance em seus ataques, além de poderes como o de partir para cima do inimigo com propulsão a jato e causar um arco elétrico indesviável. Se você vencê-lo sem se irritar, automaticamente é indicado ao Prêmio Nobel da Paz.

E, na cobertura, você encontrará o chefe final:

Jado: P. da vida como um cosplayer que tirou 3º lugar!

Jado: contra ele você apanha, apanha, apanha, apanha, suplica por misericórdia,  apanha, tenta vender seu SNES no Mercado Livre, apanha, sacrifica 5 virgens em um pentagrama e entrega suas almas a nosso senhor Belzebu, e finalmente o vence. E apaga o anúncio no Mercado Livre. E limpa a sala para que seus pais não saibam do ritual.

Power Geiser!!!

Na verdade, Jado é preso a padrões de ataque, então cedo ou tarde você entenderá como seus ataques e variantes funcionam. (Além do mais, onde você encontraria 5 virgens?)

Let’s (Dead) Dance? – Curiosidades sobre o jogo:

Jogando o modo história, os golpes do personagem que você escolheu vão sendo aprimorados à medida que se avança pela torre. É interessante chegar no nível overpower para se desafiar Jado. Há quem diga que com esses golpes, o jogo fica mais fácil, com poderes maiores e mais ornamentados. E há quem pense que a única coisa que mudou foi a estética dos golpes.

Hadouken genérico maior!!!

No modo história do cartucho japonês, todas as lutas começam com diálogo, e aquele exceto Vortz, que fica em silêncio independentemente do caso. No cartucho americano, os diálogos foram removidos.

Quanta sabedoria, Vortz!

O modo versus possui duas categorias: VS P2 e VS CPU. Em ambos os modos, é possível fazer um cheat code para se jogar com os chefes, incluindo Jado.

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O nome de Dead Dance nos Estados Unidos ficou “Hey Punk! Are you Tuff e Nuff”. Aliás, os representantes americanos da Jaleco só estragaram o game!

O quão inovador é Dead Dance?

Visualmente, os personagens têm menos sprites, são menores que os de Street Fighter, por isso há mais espaço em tela.

Power wave!

Outra diferença está nas barras de energia: a posição das barras é vertical, iniciando em verde (100%), passando por amarelo (60 a 40%), vermelho (menos de 40%) até esvaziar-se.

Jogando a versão japonesa, assim que o marcador de vida chegar ao vermelho, o lutador correspondente estará ensanguentado. Isso não muda em nada o rendimento dos golpes, mas visualmente é interessante. Claro, essa técnica de design não seria nova, considerando que em 1992 a SNK a usou em Art of Fighting*, na qual os lutadores vão ganhando hemorroidas… opa,  hematomas no decorrer da luta. (Isso foi cortado das versões americana e européia.)

– Ah, você queria ver sangue?

Ainda na parte técnica, analisemos os quadros de animação: alguns golpes possuem até 4 quadros, enquanto alguns possuem apenas 2, o que desnivela o jogo em padrões de qualidade. Talvez isso se deva à velocidade que foi atribuída a cada lutador, mas isso incomoda as pessoas que têm suas estratégias vinculadas ao visual.

Os cenários, em maioria, são interessantes. As arenas do torneio são dotadas de efeitos de eternas nuvens de poeira, outros possuem efeitos de transparência, nada que atrapalhe o desenrolar do jogo, até combinam muito com a atmosfera sem esperança de um mundo pós-apocalíptico.

Repare nos efeitos de luz e de transparência, enquanto Syoh emenda a bicuda em Zazi…

Os golpes especiais são difíceis de se usar com maior eficiência do que a CPU, especialmente no Hard. Se você enfrentar Syoh e Zazi, saiba que no menor deslise seu é suficiente para receber um golpe especial antiaéreo. Golpes desses dois possuem efeitos de transparência, algo já testado e aprovado pela CAPCOM no design do Hadouken.

Uma outra “inovação” que só viraria item convencional aos jogos de luta (3D) é o replay. Hoje pode não parecer grande coisa, mas poder ver os momentos finais de um round em câmera lenta era uma coisa notável. Veja bem, nenhum jogo 2D arriscava essa tecnologia, com exceção os jogos de futebol. E às vezes a gente apanha em um jogo, como Street Fighter Alpha com aquela sensação de “Que diabos aconteceu aqui?”. Dead Dance era inovador à sua maneira: tinha um replayzinho maroto e não arriscava roubar a partida na maior cara-de-pau. Provavelmente, por isso.

Apesar do capricho nas camadas de tela, o replay só paralisa a ação dos personagens em tela, o restante do cenário (nuvens de poeira, trovões, etc.) continua em movimento, mesmo na pausa.

Quanto às musicas, tudo indica que Dead Dance ganhou esse nome por causa da técnica de som. As opiniões se dividem em dois lados: aqueles que acreditam que foi um experimento explorando a capacidade de som do SNES, levando em conta a quantidade de notas trocadas por segundo em suas trilhas; aqueles que acreditam que o som foi feito por uma orquestra de índios peruanos que não ensaiaram mas gravaram porque não haveria uma segunda oportunidade.

*Prometo que a SNK vai ganhar suas análises aqui do dojo. Paciência, pequeno gafanhoto!

Ah, eu já ia me esquecendo! Dead Dance foi lançado em março de 1993. Em dezembro daquele mesmo ano, a Jaleco lançava também Rush Beat Syura, que era a continuação da série de Beat’n’ups Rush Beat. Teria a Jaleco aprendido a usar de melhor modo a tecnologia do SuperNintendo? Veremos em um próximo episódio!

Você que é chegado em jogo de luta e velharia, pode experimentar. E você que já jogou esse embate, conta aí pra a gente a sua experiência!

E, como sempre: Nós vamos ao encontro do mais forte!


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