Donkey Kong Country 2 (SNES), uma obra-prima dos games de plataforma

Daniel Nunes / 14 de fevereiro de 2017 / Análises, SNES

Alguns jogos simplesmente não envelhecem. É possível jogá-los ao longo dos anos, repetindo a experiência de seguir até o fim do jogo, e mesmo assim sentir que cada partida é única. Um jogo se torna clássico quando tem algo sempre novo a oferecer. Donkey Kong Country 2 é um game assim. Mesmo quem nunca tenha jogado ou se interessado tem de reconhecer que se trata de um jogo único. DKC2 pode ser considerado um símbolo da maestria técnica e artística de uma época de ouro para os games.

Donkey Kong repaginado

Lançado em novembro de 1995 nos EUA e Japão, o game foi desenvolvido pela Rare para o SNES. O console de 16 bits da Nintendo foi reconhecidamente a casa de alguns dos melhores games de plataforma de todos os tempos. No início da década de 90, a Sega e a Nintendo concorriam pela primazia no mercado ocidental de games, e um dos reflexos dessa concorrência era a disputa entre mascotes. O Donkey Kong Country original foi publicado em fins de 1994, reintroduzindo um dos mais ilustres personagens da Nintendo, e tornando-o protagonista de uma aventura própria. Shigeru Miyamoto, criador do ilustre macaco vilão dos arcades, foi chamado para redesenhar seu personagem, dando uma roupagem mais simpática e amigável para ele. A equipe de desenvolvimento da Rare ficou com a tarefa de criar os outros personagens e dar vida ao mundo fantástico das aventuras de Donkey Kong. O ano de 1994 já se aproximava do fim da geração de consoles 16 bits. Mesmo assim, o Donkey Kong Country original se destacou pelo visual exuberante, desenvolvido por meio da ferramenta Silicon Graphics, que produzia gráficos 3D um tanto avançados para a época. Além disso, o game tinha uma jogabilidade fluida e uma trilha sonora marcante, qualidades que no conjunto o transformaram num dos maiores sucessos do Super Nintendo.

Donkey Kong Country 2: Diddy’s Kong Quest melhora alguns dos aspectos que consagraram seu antecessor, e por muitos é justamente considerado o melhor game da franquia. A continuação de Donkey Kong Country se tornou o ápice dos games de plataforma da geração 16 bits, obrigatório para os fãs do gênero. Apesar de ter sido lançado numa época em que o nicho dos games de plataforma já estava saturado, e uma nova geração de consoles despontava, DKC2 não deixou de trazer novidades e aprimorar o que já era bom. A amplitude de seus detalhes técnicos e artísticos e a soma perfeita de seus elementos na jogabilidade fizeram de Donkey Kong Country 2 um game que se destaca dos outros e resiste ao teste do tempo.

Macacos aventureiros

O chamado à aventura é bastante simples. Donkey Kong é raptado por Kaptain K. Rool, e desta vez Diddy Kong é que assume o protagonismo da jornada para resgatar Donkey Kong. Diddy é acompanhado na aventura por sua namorada Dixie. A princípio, parece estranho que o personagem que dá nome à franquia apareça no game apenas como figurante. Mas a dupla de personagens principais é talvez a melhor da série, e suas habilidades se complementam do modo bem sintonizado.

Diddy é mais ágil do que Dixie, possui capacidade de pular mais longe, e manejar e atirar barris com mais velocidade. Por sua vez, Dixie tem sua menor agilidade contrabalançada pela capacidade de girar o longo cabelo e planar lentamente após um salto. Como novidade, os personagens podem segurar um ao outro nos ombros, e arremessar para alguma direção. Essa nova habilidade é útil para alcançar lugares distantes, além de poder ser usada como forma de ataque. A dupla de macacos é equilibrada, de modo que é útil trocar frequentemente o comando de um para outro, para aproveitar suas habilidades em trechos específicos das fases.

Outros macacos estão presentes como auxiliares. Cranky e Funk Kong retornam do game original. Wrinkly oferece dicas e permite salvar o progresso do game. No programa de auditório de Swanky pode-se responder a perguntas em busca de vidas extras. Algumas dessas interações com os outros macacos devem ser pagas com Banana Coins, que são encontradas ao longo das fases do game.

Os bônus agora apresentam desafios específicos, e premiam o jogador com moedas Kremkoins, que podem ser usadas para subornar Klubba, guardião das fases secretas do Lost World. Além disso, em cada fase, existem moedas DK escondidas, que servem para ranquear o jogador no pódio do Cranky’s Video Game Hero, além de somar pontos para completar o final até 102%.

Os animais ajudantes retornam com algumas novidades. Entre os já conhecidos em DKC estão o rinoceronte Rambi e o peixe-espada Enguarde. Entre os novos, merece destaque a aranha Squitter, que é provavelmente o melhor animal ajudante da série, devido a sua habilidade de usar teias para atacar inimigos e criar plataformas no ar.

Exuberância visual

A temática pirata atravessa o game de ponta a ponta. Uma boa parte dos cenários se passa em navios. Cais de navios servem de fases de progressão lateral, mastros são fases de progressão vertical, cascos alagados são fases de água. Há uma boa variedade de outros cenários. A progressão das fases representa uma escalada na Crocodile Isle.  Vulcões, pântanos, minas, florestas, vegetações com espinhos, colmeias, parque de diversões, bibliotecas, geleiras, castelos. A sequência de cenários se encaixa de modo coerente ao longo da ilha, servindo de justificativa para o jogador experimentar uma diversidade de desafios. Cada um dos cenários é apresentado com riqueza de detalhes, com planos de fundo dinâmicos, que dão uma sensação autêntica de profundidade.

O visual deslumbrante do game é capaz de evocar no jogador impressões direcionadas. As cores escuras e carregadas imprimem um clima de perigo, opressão, hostilidade. Alguns cenários possuem uma beleza plástica digna de contemplação. A explosão de cores vermelhas, verdes, azuis ou amarelas dão o tom de alguns ambientes.  Névoa, chuva e sombras interferem na visibilidade. Ventos às vezes aparecem como elementos de interação. Há plataformas de madeira e metal enferrujado por todos, expressando uma sensação de sujeira e abandono. Através do mapa de trânsito e através dos cenários das fases a Crocodile Isle ganha uma forma viva e pulsante, como se fosse um lugar que existisse de verdade, à espera de curiosidade e exploração.

Sons de outro mundo

É impossível falar da ambientação sem mencionar o papel magistral dos efeitos sonoros. A fidelidade dos efeitos ajuda a criar a sensação de que se trata de um mundo real, vívido, orgânico. Cada animal, amigo ou inimigo, interage com sons diferentes para cada ação. Rangido de navios, barulho de passos, explosão de barris, bolhas borbulhando, ruído da chuva e do vento, enfim, há um amplo espectro de efeitos sonoros que representam realisticamente o que acontece na tela. A própria trilha sonora incorpora alguns desses efeitos, mimetizando perfeitamente os ambientes que ela representa.

Aliás, falando em trilha sonora, é quase unânime a opinião de que Donkey Kong Country 2 alcançou o status de obra-prima nesse quesito. A trilha sonora do game ficou a cargo de David Wise, que também assinou boa parte da trilha do DKC original. Pode-se dizer, sem hesitar, que David Wise alcançou o ápice de sua qualidade artística ao compor a trilha de DKC2. Há pelo menos duas dezenas de músicas memoráveis, que utilizam o som estéreo de maneira intrincada na composição, com melodias grudentas e nostálgicas, às vezes melancólicas, às vezes oníricas.

É impossível citar algumas dessas músicas sem cometer injustiças. Mesmo assim, vale a pena mencionar algumas. “Hot-Head Bop”, música das fases de lava, com sons de bolhas explodindo e ritmo ditado pelo baixo e bateria, transições que colocam em primeiro plano o teclado, encerrando com uma bela e inesquecível melodia. “Mining Melancholy” se destaca pela percussão metálica, com transições que variam entre um clima de aventura e conquista, e culminam numa espécie de coral mais calmo e intimista. “Forest Interlude” imita em seu ritmo alguns sons da floresta, enquanto guia o ouvinte por melodias etéreas e relaxantes, representando ao mesmo tempo o mistério e a exuberância dos ambientes selvagens. E aquela que é considerada por muitos a música mais incrível da trilha, “Stickerbrush Symphony”, música das difíceis fases de vegetais espinhosos, com sua mistura singular de sons sintetizados, e melodias que se alternam e imitam instrumentos de sopro, criando um clima sublime e sonhador, que se harmoniza perfeitamente com o fundo celeste em que se passam essas fases.

De tão impactantes que são algumas das músicas, é comum que alguns jogadores se distraiam enquanto jogam, ou então pausem o game só para apreciar melhor as músicas. A trilha sonora de DKC2 pode ser ouvida separadamente com grande prazer, e cada ouvinte terá suas músicas favoritas.

Legado atemporal

Donkey Kong Contry 2 é um game que pode ser jogado ainda hoje com grande satisfação. Cada um de seus elementos é merecedor de admiração e contemplação, mas é na soma desses elementos que acontece a mágica da jogabilidade afinada e da fruição estética do belíssimo conteúdo audiovisual. DKC2 é um exemplar de uma época heroica para os videogames, sobretudo para a Nintendo. É um game altamente nostálgico para quem o jogou durante a década de 90, capaz de evocar boas memórias e uma vontade meio amarga de ter um pouco daquilo de volta no presente.

Donkey Kong Country 2 se tornou o 6º jogo mais vendido do SNES (4,37 milhões de cópias), e foi seguido por Donkey Kong Contry 3: Dixie Kong’s Double Trouble!, lançado nos EUA e no Japão em novembro de 1996. O game não foi um sucesso tão estrondoso quanto os dois anteriores, e talvez tenha sido um tanto subestimado e injustiçado pelo público. De todo modo, é o encerramento respeitável para uma trilogia que figura merecidamente entre os melhores jogos da era 16 bits, e talvez entre os melhores games de plataforma de todos os tempos.

Vídeo

Donkey Kong Country 2 – Longplay – Fonte: World of Longplays

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