Pais, amigos e professores: os donos das locadoras

por Ítalo Chianca em 18 de maio de 2018

Você, fiel leitor, por acaso foi criança durante a década de 1990? Cresceu admirando os avanços tecnológicos das últimas décadas? Curtia Cavaleiros do Zodíaco e Yu Yu Hakusho na extinta TV Manchete? Jogava videogame nos intervalos dessas atividades? Ou melhor, fazia essas atividades nos intervalos do videogame?

Se você respondeu sim para todas essas questões, ou para a maioria delas, as chances de você ter frequentado uma locadora de videogames é enorme. Consequentemente, deve lembrar com carinho e saudade daquele tempo e, também, dos antigos donos daqueles espaços de diversão juvenil. Aproveite todo o sentimento de nostalgia que deve ter lhe envolvido depois de viajar nas suas lembranças e acompanhe comigo um pouco dos figurões, donos de locadora, que marcaram minha juventude de jogador.

Os donos das locadoras

Durante cerca de 20 anos, as locadoras de videogames foram o principal espaço de sociabilidade juvenil no Brasil, principalmente no interior do país, devido à falta de outros lugares destinados ao uso pelas crianças. Toda uma geração cresceu nestas casas de jogos, aprendendo sobre as coisas da vida.

E como a locadora não funcionava como uma sociedade infantil/alternativa/coletiva/sustentável, era preciso existir a presença de um adulto, até para que o pleno funcionamento do lugar permanecesse inabalável e harmonioso. Um responsável por cuidar, ensinar e orientar toda a garotada de um bairro, muitas vezes até de uma cidade. Para isso, existiam os donos de locadoras, que muitas vezes faziam o papel de pai, amigo e professor.

Esses dias, enquanto andava despreocupado pela minha cidade, passava pelos lugares onde antes funcionavam as locadoras e coincidentemente encontrei alguns dos velhos donos pelo caminho. Com tantas lembranças felizes naqueles lugares e várias amizades duradouras daquele tempo, inclusive com os antigos donos, revive em meus pensamentos aquelas figuras que me ajudaram a entender o complexo mundo dos games e estão diretamente ligados ao fato de hoje eu estar aqui, escrevendo para vocês sobre uma das minhas maiores paixões.

Seu Jorge, o descolado

Eram os primeiros anos da década de 1990, numa cidade pequena de interior, quando a tecnologia mudaria para sempre as formas de interação entre as crianças e jovens daquele lugar. Não sabia eu que no momento em que entrava naquela barulhenta área improvisada, outras crianças em todo o Brasil faziam o mesmo, e jamais esqueceriam as histórias que aconteceriam ali. E foi na área/garagem da casa do senhor Jorge que conheci pela primeira vez uma locadora de videogame.

Eu era muito pequeno ainda e aprontava o dia inteiro. Como ninguém é de ferro, meus pais precisavam pelo menos de algumas horas de descanso longe da “fera”. Sendo assim, quando souberam que Jorge tinha montado um novo negócio feito principalmente paras as crianças brincarem e passarem o tempo, logo me levaram lá. Não lembro bem se meu pai e Jorge já eram amigos antes da locadora, mas sei que existia uma grande confiança entre eles, principalmente por até minha mãe ficar tranquila em me deixar lá jogando.

Os videogames tinham chegado recentemente na cidade e a locadora do Jorge foi uma das primeiras a ter uma estrutura mínima, por isso, quase ninguém havia jogado num console até aquele momento. Lembro que ele ensinava os garotos, um a um, a pegar no controle, escolher as opções certas nos menus e dava até dicas mais valiosas durante o jogo.

Como já era um cara mais viajado, conhecia grandes centros e estava antenado nas novidades tecnológicas, a turma adorava ele. De jeito simples, tranquilo, inteligente e descolado, era um exemplo de paciência e educação a ser seguido por todos os que jogavam na sua locadora.

Dona Raquel, a amável

O sucesso das locadoras foi praticamente imediato. Um espaço dedicado aos jovens, com direito a jogos e guloseimas, era um sonho rentável para qualquer um na década de 1990. Mesmo numa cidade tão pequena, as locadoras começaram a se multiplicar. Depois de anos ao lado do amigo do meu pai, onde o vi sair de uma locadora improvisada na casa do seu sogro até chegar num moderno espaço de entreterimento, fui seduzido pelo mais novo lugar de jogatina da cidade: a locadora da Raquel.

Localizada na rua central, a nova locadora era muito mais espaçosa e moderna. Além de ótimos jogos, o lugar era conhecido pela forma amorosa que sua dona tratava todos. Dona Raquel, uma senhorinha elegante, amável e que emanava paz era a responsável por cuidar de tantas crianças e jovens que ali depositavam suas moedas de mesada.

Dona Raquel aconselhava todos os seus jovens clientes. Lições de ética, moral, educação e comportamento em grupo eram as pautas diárias dos garotos que esperavam a vez para jogar. Sempre prestativa e com uma palavra amiga, aquela senhora foi uma avó que muitos não tiveram.

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Aprontando com a vovó

O tempo foi passando e a idade da nossa amada amiga foi chegando. Junte uma senhorinha cansada de passar o dia inteiro cuidando de um monte de crianças, uma idade avançada, uma cadeira de balanço e muito crochê (sua grande paixão enquanto administrava a locadora). O resultado desta mistura era hilário.

Quando chegava a tarde, Raquel sentava em sua inseparável cadeira de balanço do lado de fora da locadora. Crochetando para passar o tempo, muitas vezes pegava no sono lá mesmo. Quando isso acontecia, a locadora virava de ponta a cabeça. A garotada se apressava em baixar o volume de todas as TVs, voltava umas duas horas o relógio da locadora e mudava todos os horários de entrada e saída na caderneta de controle.

Em meio a risos contidos e adrenalina a mil, com medo de Raquel acordar, a diversão estava garantida. Até quando chegava alguém para jogar e todas as cadeiras estavam ocupadas, dávamos um jeito. Comprávamos o silêncio do novo jogador com um picolé. Mas, quando o sono passava, ou alguém na rua falava com nossa avó de coração, nenhum esperava pra ver se ela descobria, todos nós corríamos, já entregando a armação. Mas seu coração de ouro era tão puro que nunca reclamou conosco, apenas ria e dizia que nunca mais dormiria. Que pena que hoje ela está em seu sono eterno. Saudades.

Toinho, o implacável

O tempo foi passando e Dona Raquel já não tinha mais condições de se manter dedicada exclusivamente a locadora. O desgaste de passar o dia inteiro trabalhando era muito grande para uma mulher da sua idade. Pensando nisso, nossa amada amiga trouxe um sobrinho para ajudar nas atividades. Toinho, como sempre o conhecemos, era um rapaz astuto, cheio de vida e muito empreendedor.

Começou auxiliando na locadora. Ajudava no controle dos horários, no manuseio dos consoles e na venda das guloseimas. Como mandava bem em tudo que fazia e ainda tinha como principal característica o absoluto controle do dinheiro da locadora, ou seja, era um “mão de vaca” assumido, foi ganhando espaço e confiança. Não gastava R$ 1,00 sem necessidade. Ninguém passava nem um minuto do tempo marcado na caderneta.

E por falar em caderneta, Toinho, na intenção de poupar folhas, escrevia com um lápis grafite bem claro, quase não aplicava força na escrita. Tudo isso, para no fim do dia, apagar os escritos e reaproveitar a folha para o dia seguinte. Tenho quase certeza que ele deve usar essa caderneta até hoje. Não pense que ele deixaria passar alguma coisa. Até o troco era recontado várias vezes na calculadora. E foi com esse seu controle total de tudo da locadora que o negócio cresceu como nunca.

O empreendedor

Toinho tinha uma visão empreendedora. Investia em novidades para seu negócio. Aos poucos, foi assumindo por completo a locadora. E rapidamente investia em novos meios de lucrar naquele espaço. Trouxe novos consoles, comprava novos jogos toda semana, vendia picolé, sorvete e até bolacha recheada. Mais tarde, instalou uma sinuca para o pessoal mais velho, criou uma sala para assistir DVDs, alugava jogos e filmes e foi um dos primeiros a colocar computadores junto aos videogames.

Lembro com enorme clareza das suas loucas promoções e prêmios. Ele premiava com algumas horas todo jogador que finalizasse um jogo. Sabendo disso, separei todos os jogos de luta que tinha na locadora, coloquei no modo mais fácil, defini as lutas para apenas um round e zerei pelo menos uns 30 jogos numa única tarde. Com isso, recebi 30 horas grátis. Com esse horário extra, zerei mais outros jogos e passei quase um mês jogando de graça, para o desespero do Toinho.

Mais nada se compara ao desafio que ele propôs aos jogadores. Ganharia 25 horas quem zerasse Super Mario World (SNES) em menos de 20 minutos. Não precisa ser nenhum gênio para saber que pegando os atalhos do primeiro mundo é possível terminar o título bem rápido. Não deu outra. Zerei e quase não acabo de gastar minhas horas bônus.

Na sua locadora, ele não aceitava nenhum tipo de bagunça. Ele nos ensinou a duras penas o valor do bom comportamento em grupo e da educação em locais públicos e privados. Sempre atento ao que acontecia no mundo dos jogos, principalmente em relação ao que a garotada gostaria de jogar, Toinho foi um dos principais responsáveis pelo sucesso das locadoras na minha cidade.

Fui seu cliente fiel por muitos anos, até um dia em que ele dividiu meu memory card do PlayStation com um garoto sem noção que apagou todas as minhas gravações de Chrono Cross, Final Fantasy IX, Gran Turismo e Resident Evil 2, substituindo preciosas horas de dedicação com vários gols em Winning Eleven. Foi aí que resolvi trocar de locadora e acabei descobrindo um grande amigo.

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Tadeu, o pai dos videogames

Foram muitos os donos de locadora que tive o prazer de conhecer, mas como a maioria dos jogadores, sempre tem um que marca para sempre os tempos de jogatina. No meu caso, foi o senhor Tadeu. Um cara irreverente, alegre, sempre com um largo sorriso no rosto, daqueles que nunca perdia uma piada. Na verdade, ele me lembrava muito o Mario. Baixinho, animado e muito aventureiro. Ele conquistava todos os clientes. Posso garantir, com toda certeza, que fui mais vezes na locadora conversar com Tadeu do que jogar, e olhe que eu jogava quase todos os dias.

Tadeu parece que nasceu para ser dono de locadora. Desde muito cedo alugava seus próprios consoles na garagem de casa. Isso, antes mesmo de existirem grandes locadoras. Aos poucos, foi ganhando dinheiro alugando seus “brinquedos” para os amigos. Vendo uma oportunidade de negócio, passou a investir pesado na área.

Foi de arcades (fliperamas) até os primeiros consoles domésticos de sucesso, como o Atari e o NES, até o Super Nintendo. Lá por volta de 1994, quando chegou na minha cidade, a primeira coisa que fez foi montar uma locadora. Com os equipamentos que trouxe de Cajazeiras/PB, inovou e turbinou o acervo de jogos da cidade e até das cidades vizinhas.

Sua locadora era um lugar de encontro entre a garotada. Seu jeito simpático, prestativo e atencioso cativou toda uma geração de crianças e jovens. Contador de histórias nato, passava horas entretendo os clientes que aguardavam uma fila enorme para jogar na sua locadora. Piadas, contos, causos e lembranças do tempo de jogador de futebol animavam as tardes de muitos meninos. Lembro cada detalhe de quase tudo que ele contou repetidas vezes em mais de 15 anos.

Sempre atento

Tadeu viajou durante alguns anos para o Paraguai, trazendo jogos, consoles e produtos. Sua locadora sempre tinha os lançamentos do momento. Atento ao que acontecia no mundo dos jovens, tinha o dom de comprar os jogos certos na hora certa. Bastava um filme ou desenho estourar no gosto popular que logo em seguida chegava o jogo baseado nele. Foram tempos marcantes.

Além dos jogos e das histórias, suas locadoras costumavam ter revistas de games da época. Tínhamos acesso às notícias, prévias, análises e detonados através da Super Game Power e Nintendo World que ele trazia e deixava na locadora. Prestativo ao ponto de formar crianças do bem, ele incentivava os meninos a lerem as revistas como forma de aprendizado e desenvolvimento do gosto pela leitura. Sabendo que éramos apaixonados por jogos, nada poderia ser mais atrativo do que saber mais sobre esse universo. Com isso, líamos as revistas o dia inteiro.

Como um pai, ensinava questões de comportamento, educação e até higiene. Bastava chegar da rua com as mãos sujas para levar uma bronca enorme. Nas suas locadoras era proibido o palavrão. Ele não aceitava mesmo. Até naquele momento mais entusiasmado do jogo, que você só quer gritar e dizer os maiores desaforos do mundo, ele já olhava de cara fechada, dando o sinal de que não queria aquele tipo de palavreado ali. Seus ensinamentos ultrapassavam a esfera do comum. Até as dúvidas típicas da adolescência ele fazia questão de responder, com sabedoria e uma linguagem simples.

Conheci meus melhores amigos e joguei os melhores jogos da minha vida lá, nas suas locadoras. Mas, melhor que isso, ganhei um amigo/professor/irmão mais velho lá, nas várias locadoras que ele cuidou em quase 20 anos. Hoje, tenho Tadeu como um grande amigo. Sempre que posso, passo lá na casa dele para dar um abraço ou botar o papo gamer em dia.

Eternos amigos

Sou grato aos donos de locadora, pois eles, assim como minha família, me moldaram como sujeito. Em especial, preciso agradecer ao senhor Tadeu, por ter me proporcionado tantos momentos felizes em suas locadoras, pela amizade de tantos anos, e por ter me apresentado, desde muito cedo, o universo dos videogames.

Por fim, vendo as últimas locadoras de videogame deixando de existir por onde passo, fico com aquele boa e velha saudade dos tempos que passava jogando, conversando e aprendendo sobre a vida, o universo e tudo mais, com os meus heróis, os donos das locadoras que joguei.


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