Eterna saudade: o fim das locadoras de videogame

por Ítalo Chianca em 3 de outubro de 2018

Presentes em quase todos os cantos do Brasil, as locadoras de videogame foram um fenômeno nas nossas cidades durante as décadas de 1990 e 2000. Foi na locadora que passei boa parte da minha infância e juventude, jogando videogame e encontrando com os amigos. Porém, nem tudo dura para sempre. Ao passo que eu crescia e levava os videogames mais a sério, vi o meu espaço favorito da cidade se transformar, perdendo a identidade até deixar de existir, pelo menos fisicamente.

O começo da paixão

Jogo videogame desde quando as minhas memórias me permitem retornar. São poucas as lembranças da minha infância que não remetem a uma época em que os jogos eletrônicos já faziam parte da minha vida, ao lado das risadas com os meus irmãos em casa, dos desenhos da TV, do futebol e das brincadeiras na rua com os amigos.

Lembrar da infância com os videogames também significa lembrar da minha cidade. Sempre que penso nas horas de diversão com os amigos em volta de um console, a imagem da antiga São José do Seridó, com as suas poucas ruas pavimentadas, casas simples, uma praça cercada de plantas e os pequenos bancos de cimento, logo me vem na memória. Afinal, os jogos eram parte da cidade, faziam parte da rua, pois era lá onde encontrávamos as locadoras de videogame.

Domínio nacional

Em uma velocidade surpreendente, as locadoras de videogame dominaram as ruas brasileiras no início da década de 1990. Aquele era o negócio do momento. Dimensão Games, Progames, Blockbuster. As grandes redes faturavam alto com o aluguel e a venda de games, além de inspirarem outros comerciantes a abrirem o seu próprio negócio. Logo, o Brasil se tornava um país de gamers.

As locadoras já faziam parte do cenário urbano do país. E, mesmo ouvindo dos amigos das cidades vizinhas que nem a Coca-Cola havia chegado em São José do Seridó de tão atrasada que a cidade era, as locadoras marcaram presença por aqui desde os primeiros anos da década de 1990, assim como no resto do país. A presença delas foi tão marcante, que não dava mais para imaginar a praça sem o barulho dos televisores e a aglomeração de garotos em volta do que para muitos era apenas um brinquedo.

Passar na locadora depois da aula para saber se havia chegado novos jogos, encontrar com os amigos à noite na locadora para conversar, juntar a mesada para passar a manhã de domingo inteira jogando, ou simplesmente comprar um sorvete na locadora depois de uma pelada com os amigos eram hábitos corriqueiros do meu cotidiano. Eu fazia isso desde 1994. Parecia algo imutável. Mas, infelizmente, não seria.

O auge

No começo, as locadoras da minha cidade eram dominadas pelo Super Nintendo. O console era hegemônico, dividindo um pouco da atenção com alguns raros Mega Drive da Sega. Na época, praticamente ninguém tinha um videogame em casa.

Para jogar, era necessário pagar uma certa quantia em dinheiro para poder usar os videogames e jogos da locadora. E, como todos queriam jogar, as locadoras faturavam sem parar.

Possuir um videogame só seu era praticamente inviável. Além do próprio aparelho custar caro, os jogos custavam pequenas fortunas. Sendo assim, era bem mais fácil juntar algumas moedas e pagar para jogar por minuto na locadora do que comprometer a renda inteira para comprar um console e, com sorte, pelo menos um jogo. E era justamente por isso que as locadoras estavam sempre lotadas. Foram anos inabaláveis de sucesso financeiro.

Os primeiros sustos

A situação, infelizmente, não se estenderia por tanto tempo assim. De modo geral, até onde consegui verificar na nossa literatura, as grandes redes de locadora começaram a decair com a chegada da geração 32-bit, quando a pirataria de CDs e o desbloqueio dos consoles, principalmente o PlayStation, tornaram os videogames mais acessíveis para o público brasileiro. Comprar o seu próprio console passou a ser um grande investimento, principalmente se levarmos em consideração o fato de que os jogos piratas custavam poucos reais.

Na minha cidade, a situação foi a mesma, mas um pouco mais custosa. Quando o PlayStation chegou por aqui, ele foi uma verdadeira febre nas locadoras. Com os jogos em CD custando muito menos do que os cartuchos, os donos de locadora conseguiram aumentar a margem de lucro nesse período, comprando mais de 50 CDs pelo preço de um único cartucho. Além disso, por ser de uma nova geração, o preço da hora no PlayStation ainda custava mais caro do que no Super Nintendo. Aquele foi um período de muito lucro para as locadoras.

Esse período de sucesso, que teve início na segunda metade da década de 1990 e se estendeu até os primeiros anos da década de 2000, não durou muito. Da mesma forma que a pirataria facilitou o acesso aos consoles e jogos para os donos de locadora, ela também tornava real o sonho de se ter o console próprio para os jogadores mais assíduos, como eu, que gastavam uma boa grana para jogar por minuto nas locadoras.

Mudança de lógica

Foi justamente na transição entre as gerações 16-bit e 32-bit que eu consegui o meu primeiro videogame. Era um Super Nintendo adquirido pelo meu pai depois de uma aposta com o dono da locadora. Foi uma alegria. Alguns anos mais tarde, porém, eu já comprava o meu PlayStation, por cerca de R$ 100,00, e com mais de 30 jogos.

Naquela época, eu já tinha o costume de gastar mais de R$ 20,00 por mês na locadora, jogando os RPGs intermináveis do PlayStation e tantos outros jogos que marcaram a geração poligonal. Mas, quando vi que com esse mesmo valor eu poderia ter o meu próprio videogame, nem pensei muito. O mesmo aconteceu com muitos outros amigos que gastavam muito dinheiro na locadora durante o auge do PlayStation e resolveram comprar o próprio console.

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Aos poucos, a locadora ia se tornando um espaço para jogadores casuais, que passavam apenas alguns minutos jogando durante a semana, enquanto que os jogadores que costumavam passar horas e horas no videogame estavam com seus consoles na sala de suas casas.

Adaptação

Durante os primeiros anos da década de 2000, as locadoras perdiam um jogador atrás do outro. Cada vez mais pessoas compravam consoles e copiavam jogos a preço de pão. Eu, por exemplo, comprava jogos todo final de semana, pois eles custavam cerca de R$ 1,00. Sem muitos atrativos, a locadora precisava de algo novo. Ela precisava de algo que não fosse acessível para qualquer um e que pudesse render um lucro complementar aos jogos.

Perdendo clientes a cada dia, as locadoras da minha querida São José do Seridó se movimentaram para trazer algo novo, moderno e capaz de atrair o seu antigo público de volta. E elas conseguiram. Primeiro foi com o PlayStation 2. A chegada do novo console da Sony nas locadoras fez a cidade parar para conferir o futuro dos videogames. Lembro de ter chegado várias horas antes da locadora abrir só para conferir de perto a nova geração de videogames, ali na minha frente.

Os jogos eram maravilhosos e a experiência de controlar um game cujos gráficos em tempo real eram ainda mais bonitos do que as CGs do console anterior era indescritível. Pena que teve gente que dormiu na frente da casa do dono da locadora para jogar primeiro e passou simplesmente todo o expediente jogando. Foram vários meses de agitação, com filas e mais filas de jogadores querendo experimentar a novidade. A procura era tão grande que era preciso fazer uma reserva para o dia seguinte, isso se tivesse vaga.

O PlayStation 2 renovou o interesse dos jogadores pelas locadoras por um bom tempo. Mas, como era de se esperar, a pirataria também fez com que os mais aficionados (leia-se: os que mais gastavam dinheiro na locadora) comprassem o seu próprio console mais uma vez e saíssem gradativamente das locadoras. Mais uma vez, era preciso fazer algo novo e urgente.

Revolução

Foi com a urgente necessidade de novos jogadores que as locadoras abriram espaço para os computadores. Por volta da segunda metade da década de 2000, os computadores ainda eram coisa rara na minha cidade. O único contato que eu tinha com eles era na escola, durante as aulas de Informática. E o mesmo se aplicava a mais de 90% dos meus amigos que jogavam em locadoras. Pensando nisso, os donos de locadora resolveram investir nessa que já se tornava a nova mania nacional.

Retirando parte do acervo mais antigo, como Super Nintendo e PlayStation, a locadora cedeu espaço para os PCs, ou computadores pessoais, como queira chamar. Era uma época em que os jogos em rede, como Counter-Strike, movimentavam jogadores por horas a fio. Aquilo foi uma verdadeira mania, com corujões que rolavam durante as madrugadas.

Como eu era péssimo em jogos de tiro em primeira pessoa, e possuía pouca habilidade com teclado e mouse, praticamente não me arrisquei nessa nova onda. Por outro lado, quase todos os meus amigos passaram a gastar muito dinheiro nas Lan-Houses, como ficaram conhecidas as locadoras a partir daquele momento.

Com o sucesso dos jogos em rede, os videogames perderam o protagonismo nas locadoras. Raramente se via pessoas jogando. Mas, a situação ficou ainda mais feia para os gamers quando as pessoas descobriram o Orkut e o MSN. A rede social era a nova paixão da cidade. Praticamente todos os poucos mais de 3 mil habitantes de São José do Seridó tinham contas no Orkut e passavam horas entrando em comunidades, enviando scraps e depoimentos para outras pessoas. E isso sem falar das dezenas de horas de conversa virtual com pessoas em tempo real. Era a nova febre do momento.

Nova mania

Pessoas de todas as idades iam até a locadora para experimentar os jogos em rede, as redes sociais e os bate-papos em tempo real. Nunca antes a locadora foi um espaço tão democrático, com pessoas de todas as idades se divertindo. Porém, foi nesse período também que a locadora nunca foi tão menos locadora, como poucos interessados nos games.

Jogar? Apenas alguns poucos ainda preferiam gastar as moedinhas com um jogo do que com a internet. Mais uma vez, as locadoras encontraram uma forma de superar as adversidades, contudo, a descaracterização causada por essa mudança não teria mais volta.

Era perceptível a falta de interesse do pessoal pelos videogames. A cada dia, um antigo videogame tinha que ser retirado para abrir espaço para um novo computador. Foi nesse período, inclusive, que eu trabalhava na locadora e eu perdi as contas de quantos videogames substituímos por novos PCs, tamanha era a procura por grande parte da comunidade. E era com uma grande dor no coração que eu fazia isso. Infelizmente, era algo necessário para a sobrevivência do lugar.

O declínio das Lan-Houses

Com a mesma intensidade e velocidade com que as Lan-Houses invadiram as locadoras e se disseminaram por toda a parte, elas perderam relevância. E a causa, mais uma vez, foi a facilidade de acesso do grande público à tecnologia, nesse caso, os computadores. Tornava-se cada vez mais barato, fácil e necessário comprar um PC, fosse para jogar, acessar as redes sociais ou fazer os trabalhos da faculdade. Todos queriam ter o seu próprio computador

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Comigo não foi diferente. Pensando no uso do PC como ferramenta de aprendizado, a minha mãe, assim que teve a oportunidade, comprou um computador para a casa. Embora o tenhamos usado sem o acesso à internet por muitos anos, foi nele em que me diverti fazendo montagens, gravando CDs, jogando em emuladores, brincando com os programas que baixava na escola e digitando os trabalhos da faculdade quando sobrava tempo. Foi uma época de novos interesses e prioridades.

No meu caso, eu já estava na faculdade, conhecia pessoas novas, estava envolvido com projetos e passava o dia inteiro fazendo fichamentos e resumos. O pouco tempo que sobrava durante a semana eu gastava para jogar futebol com os amigos e conversar por MSN com uma linda mulher que conheci online na época de Lan-House, e que hoje é a minha esposa.

Eu ainda jogava, é claro. Eu tinha um Dreamcast, um PlayStation 2 e um lindo Nintendo 64. Mas eles já não eram as prioridades da minha vida. E isso se estendia a grande parte dos meus amigos.

Últimos suspiros

Nesse meio tempo, vi as locadoras tentarem fazer quase de tudo para sobreviver: venda e aluguel de filmes em DVDs; criação de salas de vídeo para o pessoal assistir na própria locadora; manutenção de computadores; xerox e impressão; venda externa de picolés; recarga de cartuchos de tinta; e até a venda de cópias dos próprios jogos da locadora. Valia qualquer coisa que desse um retorno financeiro suficiente para manter o espaço funcionando. Mas, como bem sabemos, aos poucos as locadoras foram fechando as suas portas, uma a uma.

Jogando Nintendo Wii em casa, envolvido com a faculdade e curtindo intensamente o início de um relacionamento que resultaria em um casamento maravilhoso, eu me mantive afastado das locadoras durante a segunda metade da década de 2000. Pouco aproveitei o período mais moderno do meu espaço favorito da cidade, quando a Videogame Locadora climatizou o seu ambiente e disponibilizou PlayStation 3 e Xbox 360 com TVs de LED em Full HD.

Jogando em casa, não vivenciei de perto os vários dias em que a locadora passava sem receber um único cliente. Passando as manhãs na faculdade, não pude levar os amigos para conversar e comprar uns doces na locadora depois da escola. Tentando ser um bom namorado, não tive tempo para voltar a trabalhar na locadora e tentar salvar as contas do mês, como fiz tantas vezes durante os vários anos em que passei entre consoles, games e amigos. Quando menos esperei, as locadoras já não estavam mais onde sempre estiveram.

Silêncio que dói

As ruas de São José do Seridó ficaram mais silenciosas. O centro não atraia mais a garotada que, por sua vez, não brincava mais na rua. A cidade estava mais séria, mais triste. As locadoras não existiam mais. Quando percebi que não poderia mais contar com aquele espaço, sofri bastante. Era um sentimento parecido com o de perder um amigo de infância que, mesmo sem o ver há anos, ainda significava muito para mim. Doeu. E doeu muito.

Eu me lembro de ter mandado mensagens para os meus amigos falando que as locadoras tinham acabado e todos demonstrarem tristeza. Quando eu encontrava algum dos ex-companheiros de jogatina, o assunto era um só: as resenhas de locadora. Praticamente, nenhum desses amigos jogava mais videogame, mas, mesmo assim, lembravam com muito carinho dos tempos de diversão nelas.

Foi um período triste, um período de aceitação. Contudo, também foi uma época em que resgatamos as memórias do que nos fizeram ser quem somos hoje. Perder as locadoras despertou o meu lado gamer que estava adormecido.

Despertando uma velha paixão

Na época em que as locadoras deixaram de existir na minha cidade, eu estava concluindo o curso de História. Eu havia passado anos estudando o passado e as ações do homem nos períodos definidos pelos historiadores para contar quem somos. E foi devido à obrigatoriedade de escrever um trabalho de conclusão de curso que resolvi aproveitar para resgatar a história daqueles espaços que tanto têm para nos contar.

Conversei com amigos, ex-donos de locadora e todos os parceiros de jogatina que consegui encontrar, até escrever uma monografia que encerrou o meu ciclo universitário. O resultado foi um trabalho feito com muito amor e que logo em seguida virou um livro. Esse livro (Videogame Locadora: espaços de sociabilidade em São José do Seridó/RN), que conta um pouco da minha própria história, foi o primeiro passo para o despertar de uma nova paixão: a redação sobre games, que hoje me faz tão feliz.

 

Posso não ter mais o espaço físico da locadora para frequentar, mas possuo um espaço gigantesco nas páginas da internet e nas folhas dos livros e revistas para contar as histórias que vivi nas saudosas locadoras de videogame. Assim, posso compartilhar um pouco dessa minha paixão pelo principal espaço da cidade que frequentei com meus amigos e com tantos outros apaixonados por games que, assim como eu, passaram por momentos inesquecíveis nesses templos da diversão.

As locadoras podem até nunca mais existir, mas elas estarão para sempre na minha memória, no meu coração e nos meus escritos. Assim como estará no coração de cada uma de vocês.


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