Final Fight – Iá!!!

por Roberto Bier em 29 de junho de 2018

Depois do “sucesso” de Street Fighter (1), a equipe da CAPCOM quebrou a cabeça procurando uma continuação digna e melhorada de seu “hit”. Depois de um belo esboço de programação, faltava batizar a tão sonhada sequência: Street Fighter’ 89! – esse era o nome do Final Fight ainda protótipo.

Felizmente, o pessoal do departamento executivo da CAPCOM viu a pancadaria ao qual o jogador e os adversários (punks e marginais) estavam submetidos e concluiu que o jogo estava em uma linha muito diferente de Street Fighter, exigindo algo que o separasse o universo dos caratecas jogadores de hadoukens… nascia então Final Fight!

Final Fight, o início da Treta!

A cidade de Metrocity! Seu índice de violência é tão alto que seu mapa é em relevo, pintado de vermelho-sangue! A violência na cidade é tão grande que a população elegeu Mike Haggar como prefeito, já que ele era lutador de luta-livre profissional e por seu bigode, que deixaria Charles Bronson orgulhoso! No entanto, nem tudo são flores e pancadaria na vida de Haggar: a gangue local, Mad Gear, não ficou muito satisfeita com sua eleição, resolveu tentar assumir o controle da cidade.

Disposta a não pegar leve, a gangue sequestra a filha de Haggar e, provando não mostrar piedade, colocam a moça em roupas íntimas no canal de televisão local exigindo que o prefeito renuncie e dê fim a sua campanha anti-criminalidade.

Você ia querer briga com um cara capaz de fazer essa carranca?

Espero que você não esteja lendo este texto com sua mãe na sala…

No entanto, a imposição dos pelos faciais de Haggar é proporcional à sua inteligência. Ele contata então Cody Travers, moço boa-praça-legal-pra-caramba e brigão nas horas vagas e Guy (sem sobrenome), mestre do ninjutsu e imigrante japonês local. Cody havia sido namorado de Jéssica, topou na hora. Guy já tinha terminado de jogar Contra no seu Nintendo, topou já que não tinha mais nada pra fazer mesmo…

Os três heróis saem às ruas atrás dos meliantes vagabundos, para que sintam o sabor da justiça através de pilões, canos de ferro, facas,  katanas… ou no punho mesmo. Começa aí Final Fight!

A invenção de Final Fight

Novidade não era exatamente o mote do estilo Beat’n’up. Double Dragon, por exemplo, já havia colocado dois jogadores a bater em meliantes vagabundos. Mas esse clássico tinha seus motivos, já que Billy Lee e Jimmy Lee eram irmãos gêmeos, treinados pelo mesmo mestre. Em Final Fight se tem diferenças entre os protagonistas:

Haggar: Como uma jamanta, Haggar bate forte pra burro, mas é lento. Seu destaque está no Pilão e nas porradas que ele consegue desferir munido de um cano de ferro.

Guy: Rápido como todo o ninja deve ser, Guy é o mais rápido e luta muito bem com Katanas, além de saltos belíssimos e de ficar indiferente ao uso de kimono laranja e botas.

Cody: Um meio-termo entre os dois: É mais forte que Guy, e menos forte que Haggar, mais rápido que Haggar, mas menos que Guy. Cody é uma versão videogamística de Tom Cody, do filme Ruas de Fogo. Aliás o jogo todo foi baseado nesse filme.

Cada peculiaridade rendia certos “títulos” aos jogadores: quem joga de Cody quer um jogo mais fácil, além de ter vantagens com as facas encontradas pelo caminho. Quem joga com Guy gosta de dar longas sequências, voadoras e de usar espadas. E, finalmente, quem escolhe o Haggar, gosta de tirar belos bifes de energia adversária, mesmo que isso lhe custe muita velocidade.

Outras influências

Quem jogou Final Fight sabe da influência de “Ruas de Fogo” e também do Rock  oitentista, especialmente nos vilões:

Repare na roupa do vilão de Ruas de Fogo. Se você jogou Final Fight, você bateu em alguém vestindo algo assim.

1) Algumas influências musicais:

Simmons: Gene Simmons do Kiss
Axl e Slash: em homenagem ao vocalista e ao antigo guitarrista solo da banda Guns N’Roses: Axl Rose e Slash
Poison: a banda Poison.

2) Luta Livre:

Andoré é a homenagem ao lutador André, o Gigante

3) Outros jogos:

Two P é uma homenagem ao “Jogador 2” de “Forgotten Words”.

“Ei, o senhor tem um minuto pra ouvir a palavra de nosso senhor Belger?”

Resumindo: Final Fight não inventou a feijoada, mas usou muito bem os ingredientes. Se analisarmos pela parte das referências, é um baú de easter eggs, não?

Que comece (e termine) a Final Fight!

As fases são muito interessantes, registram muito bem o funcionamento de uma cidade violenta, mesmo que se trate de fictícia:

Slum (Periferia):  A treta começa com Jessica (vestida) sendo levada por Damnd, que não hesitou em mostrar a cara para Haggar no início do game. Mas ele não perde por esperar no final da fase…

Subway / Park (Estação de Metrô): o metrô é incrivelmente mal cuidado, isso você percebe nas depredações que vão da estação até os vagões dos trens. Os túneis do Metrô, dá acesso secretamente a uma espécie de ringue, onde ocorrem lutas clandestinas, quem está esperando por você nele é Sodom. “Park”, é a área de saída da estação de Metrô, e mostra um posto de combustível com janelas e fachada desgastadas, pneus empilhados e uma área verde ao fundo.

Bônus game: a CAPCOM, mostrando seu amor ao automobilismo, deixa você estraçalhar um carro. Essa moda ainda ia pegar em Street Fighter.  Após a conclusão do bônus, um membro da Mad Gear aparece chorando e dizendo: “Oh! My God!” (ou “Oh, my car!” na versão do Super Nintendo).

West Side (Zona Oeste): é a região boêmia da cidade. Há muitas luzes, bares e restaurantes, como também muita gente sem ter o que fazer da vida. Logo no início da região, já aparece um restaurante conjugado com um bar e, mais uma vez, um ringue clandestino. Pode-se perceber como a Mad Gear tem bases por todo o canto da cidade, inclusive com a contribuição do policial corrupto Edie E.

 

Industrial Area (Área Industrial): quase toda  cidade tem uma área assim. No início desta área há uma indústria e termina em um elevador externo. Nesse lugar conhecemos Rolento e sua coleção de granadas. (Infelizmente, essa fase foi retalhada da versão do SuperNintendo.)

Bônus Game 2: Uma fábrica de vidros. Você deve destruir todos os vidros da sala, mas precisa cuidar pra não bater nas extremidades e acabar levando uma bela chapuletada das placas de vidro. Difícil, porque aqui o tempo urge!

Bay Area (Área da Baía): a área litorânea de Metrocity. O ideal pra se comprar um apartamento, com vista pro mar, praças e… bom, enquanto a Mad Gear estiver aí, não é bem assim. O curioso dessa fase é que ela mostra que Metrocity faz divisa com Nova York, já que conseguimos ver a Estátua da Liberdade. Abigail está esperando por você. mas não se engane, ele está bem invocadinho.

Up Town (Cidade Alta): o cenário final. Aqui conhecemos Belger, em sua torre do crime. Entre prédios executivos ele estará esperando, cercado e muito bem assessorado por seus capangas, sua cadeira de rodas, sua besta e Jessica. Depois de derrotá-lo, ele tentará lutar sem a cadeira de rodas. Sem dúvida, será uma das lutas mais estranhas das quais você verá em um beat’n’up!

O veredicto de Final Fight:

Se Final Fight vale a pena? É claro que sim! Além de ser um dos grandes precursores dos jogos de pancadaria em geral, serviu de modelo para muitos outros jogos do estilo. Final Fight teve seu universo fundido ao de Street Fighter (e a história ficou um pouco mais confusa, mas ainda vale muito a pena!).

A trilha sonora ainda ficou um pouco a desejar, mas estávamos saindo dos anos 80 e a capacidade dos arcades ainda estava em desenvolvimento. Por outro lado, Final Fight fazia tanto barulho na hora da porrada que ficava difícil uma máquina dessas não chamar a atenção. Da parte técnica, a resposta dos controles sempre foi boa, e jogadores mais ousados escolhiam Haggar por saberem muito bem onde se posicionar e quando descer o braço, ou melhor, o dedo nos botões.

Final Fight teve duas continuações no SNES, provavelmente para compensar a primeira versão que o console da Nintendo retalhou. Comparar SNES com Arcade é uma tarefa hercúlea, mas sabemos bem que o videogame ficou devendo para o fliperama. Rolento que nos diga, não é?

Ah, antes de irem embora, deem uma sacada no podcast da equipe sobre a franquia Final Fight. Ali tem muita história boa, vão por mim!

Até mais, bravos guerreiros!

Nós vamos ao encontro do mais forte!!!


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