Full Throttle (PC) – A aventura sobre duas rodas

Vinicius Eleno / 26 de julho de 2017 / Análises, PC

Se você queria jogar algo no seu computador no período entre o final das décadas de 1980 e início de 1990, com certeza deve ter esbarrado pelo menos uma vez com algum jogo de aventura. E lá atrás o grande nome do gênero era a LucasArts, seguida de perto pela Sierra. Ambas criaram os anos dourados do gênero, lançando grandes títulos ano após ano. Maniac Mansion, Day of the Tentacle, Indiana Jones and the Fate of Atlantis, The Secret of the Monkey Island, Leisure Suit Larry, Space Quest, King’s Quest, The Dig… era muita coisa boa. E dentre tudo isso, se fosse pra pinçar um título, com certeza muita gente diria logo de cara Full Throttle. E não por menos, já que ele marcou época. Pronto pra relembrar de mais um clássico?

Ligando os motores

O jogo de 1995 contava a saga de Ben Throttle, líder da gangue The Polecats. Ele acaba sendo envolvido em uma trama de sucessão de poder, e tanto ele como sua gangue acusados injustamente de assassinato. Cabe então a Ben partir em uma jornada para limpar seu nome e sua gangue da acusação.  E consequentemente acaba salvando também a Corley Motors, última fábrica de motos customizadas.

Porém, dificilmente alguém vai lembrar-se do sobrenome de Ben mesmo ele estando no título do jogo. O sobrenome nunca é citado na história e nem mesmo no manual do jogo, com o personagem sendo chamado lá de “Ben Whatsisname”. O motivo disso tudo é que Throttle também era o nome do protagonista de Biker Mice from Mars, e a LucasArts temia receber um processo na época por usar um nome parecido com temática de motoqueiros. Só depois do fim do desenho que a LucasArts pode assumir os detalhes da história.

Clicando e apontando

Assim como em outros títulos do gênero, Full Throttle era um point and click. Ou seja, você apontava com o mouse para onde queria mover o protagonista ou onde queria interagir. Ao clicar com o botão esquerdo em um objeto ou pessoa, abria um menu no formato de um crânio, com uma luva e uma bota, baseado no logo da gangue de Ben. Ao selecionar a boca, você tentava conversar, os olhos observar e uma mão para interagir ou recolher.

A jogabilidade no geral variava entre interagir com objetos, alternar áreas ou conversar com personagens para prosseguir a história. Todo o material de diálogos de história é muito bem feito e conexo, criando espaço tanto para a história ficar interessante como momentos divertidos. São várias cenas memoráveis e divertidas, incluindo até mesmo participações ilustres. Nisso sobrou até para o George Lucas, a mente criativa por trás de Star Wars. E caso ainda não tenha ficado óbvio, ele fundou a LucasArts após o sucesso de seus filmes.

Mas Full Throttle não ficou preso ao point and click, arriscando também algumas sequências mais voltadas à ação. Indo desde a brincadeira com a faca no bar do início do jogo às lutas entre motos em alta velocidade. No melhor estilo Road Rash, Ben trocava socos contra outros motoqueiros na estrada, com a ideia derrubá-los e roubar peças para melhorar sua moto. E ficava ainda mais divertido conforme você conseguia uma arma, como um cano ou até mesmo uma serra-elétrica.

A primeira grande obra do mestre

A mente por trás de Full Throttle foi Tim Schafer. Esse coincidiu de ser seu primeiro grande projeto; a primeira vez em que Tim escreveu, foi designer e dirigiu um jogo por conta própria. E como ele mesmo gosta de dizer: “Eu fiz tudo sozinho, junto com mais 30 outras pessoas”. E a mente criativa do cara não parou por aqui. Outras coisas muito boas como Grim Fandango, Psychonauts e Brütal Legend vieram na sequência.

O pano de fundo para o jogo veio após Tim ouvir de um amigo várias histórias que ele teve em um bar de motoqueiros no Alasca. Ele viu ali um mundo com ótimo material para ser explorado num jogo. Seriam pessoas com regras próprias, vivendo com uma liberdade diferente do que estamos acostumados. E nisso ele ainda ia poder explorar a paixão dele por rock, já que é algo que anda lado a lado com os motoqueiros.

Ele também deu sorte da LucasArts aceitar investir agressivamente em novas tecnologias para seu projeto. Aqui foram gastos cerca de $1,5 milhão de dólares em valores atualizados. Isso se traduziu em diálogos gravados, trilha sonora licenciada, trechos animados e redesenho da plataforma SCUMM, em que se baseavam seus jogos de aventura. Com isso tivemos dubladores famosos, como o ator Mark Hamill no papel do vilão Adrian Ripburger; Full Throttle foi o primeiro jogo a utilizar dubladores em sua maioria registrados no sindicato de atores estadunidenses (SAG) em vez dos próprios criadores assumirem a dublagem. Já a trilha sonora são de músicas escolhidas a dedo do álbum Bone to Pick, da banda The Gone Jackals.

Versão tupiniquim

Graças a mudança da mídia para CDs, Full Throttle pode apresentar ótimos gráficos e qualidade sonora para uma época limitada pela capacidade de armazenamento de disquetes. E por ser lançado justamente no período de transição, acabou virando exemplo e motivo para atualizar seu PC. Na época você comprava um “kit multimídia” para adaptar seu computador mais antigo para a era do CD. E com isso, muitos kits incluíam jogos no seu pacote para demonstrar o potencial do novo periférico. Full Throttle acompanhava vários dos pacotes da Creative, facilitando muito sua distribuição.

E para realmente marcar época aqui no Brasil tivemos o ótimo trabalho da Brasoft legendando todo o texto do jogo para português. Diferente de hoje em dia, era muito raro ter um jogo traduzido para o português. No máximo tínhamos uma caixa e manuais traduzidos, quando muito. Com a quebra desse paradigma pela Brasoft muito mais gente pode aproveitar o jogo em sua totalidade. E isso foi ótimo já que praticamente todo o enredo e jogabilidade dependem do texto para que você entenda o que está acontecendo.

Tamanho não é documento

Full Throttle marcou época mesmo sendo um jogo curto para padrões de jogos de aventura. Enquanto alguns jogos chegaram a 40 horas, Full Throttle se limitava a aproximadamente 8 horas de duração. Isso acabou sendo motivo para mídias da época criticarem o jogo e sua simplicidade. Mas o público-final não ligou muito para elas, já que suas vendas superaram muito as expectativas da LucasArts. Enquanto as previsões de venda iniciais eram de cerca 100 mil cópias, Full Throttle superou a marca de um milhão. O que era muita coisa num período que os jogos dependiam exclusivamente de distribuição em mídia física.

Tamanha recepção mostrou que esse era um jogo que merecia continuações, que infelizmente nunca saíram do papel. Full Throttle: Payback, uma continuação direta da história, e Full Throttle: Hell on Wheels, que seria um spin-off, tiveram um desenvolvimento inicial e eventualmente cancelados. Em parte pela perda de interesse da LucasArts em novos jogos de aventura e também pelo fato de Tim Schafer ter saído da empresa em 2000, perdendo assim a mente criativa por trás dos jogos. O próprio Tim também já disse nunca ter visto com bons olhos uma continuação, por entender que a história de Full Throttle já foi inteiramente contada.

Porém, isso não o impediu de tomar a frente de uma remasterizarão do jogo original. Em abril de 2017 fomos agraciados com Full Throttle Remastered, com gráficos e efeitos sonoros melhorados, assim como melhor resposta das interações e combates. E tudo isso sem perder nada da magia do original. As vozes continuam as mesmas como homenagem aos participantes do projeto original, assim como a história segue intocada. O que é ótimo para apresentar um grande clássico para novas gerações, assim como saciar nossa sensação de saudosismo.

 

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