Histórias do Asilo: Uma locadora e um Arcade, em 1994

Nando Bastos / 30 de novembro de 2016 / Crônicas

Parece que foi ontem. Eu, ainda moleque aos nove anos de idade, chegando até a locadora perto de casa para me reunir com a turma. Por ser muito novo, ainda não tinha permissão para andar sozinho, e também não me lembro bem do modo como cheguei até lá ou com quem estava (meu tio, talvez).
Ainda assim, 22 anos depois, me lembro exatamente do momento em que avistei o novo arcade que havia acabado de chegar. Tinha uma galera em volta, uns caras bem maiores do que eu. Por isso, na ponta dos pés, eu tentava acompanhar aquele duelo entre dois personagens que eu nunca tinha visto antes. Na verdade, o cenário foi o que mais me chamou atenção inicialmente: uma selva com um helicóptero abatido, nativos acompanhando a luta ao fundo, e mais dois personagens de cada lado que pareciam torcer pelos lutadores que se enfrentavam.

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Eu sabia que era um jogo novo, e aos meus olhos infantis, era incrivelmente mais bonito que Street Fighter 2 – o melhor jogo de luta que eu havia visto até então. Surgia ali um novo fenômeno dos jogos de luta e uma nova mania entre a molecada daquela geração.
De cara, não reconheci nenhum personagem. Realmente não se tratava de um novo Street. Me lembro da vibração da galera em volta da máquina e do sorriso do Seu Marquinhos, o dono do estabelecimento, vendo seu caixa faturar como há tempos não acontecia.

Definitivamente, The King of Fighters’94 havia chegado para ser o Rei dos fliperamas e, naturalmente, mudar a minha vida. Sim, talvez eu até pudesse ser um milionário hoje em dia se tivesse poupado algum dinheiro em vez de torrar em fichas.

3 vs 3?

Essa pergunta resume uma das maiores inovações trazidas por KOF. Àquela altura eu já estava assistindo à décima luta entre os malucos mais velhos, mesmo que o lugar não fosse assim, nenhum camarote da Brahma. No lugar dos holofotes, sobravam alguns suvacos fedidos que maltratavam o meu pobre olfato. Mas numa boa, até que valia a pena, só pra poder ver mais um pouco daquela pixel art incrível! Além disso, eu já sabia que se tratava de algo relacionado a Fatal Fury, um jogo que eu adorava alugar o piratinha para detonar no meu NES, e que eu sempre via nas revistas, mesmo que nunca tivesse jogado a versão original.

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De verdade, eu poderia reconhecer o Terry Bogard de longe, talvez o personagem mais legal da SNK. Eu só não estava acreditando que naquele arcade as lutas aconteciam entre trios — Que legal cara! — Eu provavelmente estava pensando algo nessa linha.

Então, diferentemente de qualquer outro jogo, era necessário derrotar os três lutadores do adversário. O vencedor, era recompensado com uma belíssima tela de vitória, que mostrava o trio vencedor em sprites gigantes, explodindo na tela, com um texto em português na comemoração. A vibração do jogador vitorioso era digna de um boleiro ao marcar um gol (sem sair correndo, é claro). E ao derrotado, restava comprar outra ficha — para alegria do Seu Marquinhos – Sério, ele deve ter um iate hoje!

E a Copa do Mundo? O que tem a ver?

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Em 1994, o país vivia um clima mágico de Copa do Mundo. O país parava para assistir aos jogos da seleção brasileira. Todos eles. Ciente disso, a SNK se aproveitou do hype da Copa e pôs cada trio para representar um país, mesmo que nem todos da lista estivessem classificados para o mundial, a exemplo da Inglaterra, Japão e China.

Dessa forma, o trio do Fatal Fury defendia a bandeira da Itália, o de Art of Fighting, o México, e por aí vai. Tinha ainda um trio estadunidense, país-sede daquela copa, representando três dos esportes mais populares dos EUA. Excelente ideia da SNK. Que sacada!
Por isso, por muitos anos, muita gente acreditava que os lutadores tinham as nacionalidades referentes aos países que representavam naquele game, algo que hoje já sabemos que não era bem uma regra.

E aqui voltamos ao ponto inicial: quem eram aqueles caras lutando na primeira vez que vi o jogo? Alguém muito patriota resolveu escolher o trio do Brasil, provavelmente o Player 2, pois a luta aconteceu no cenário brasileiro (mais uma vez representado por uma selva, tal como em Street Fighter 2). Um dos personagens era o Capitão Heidern, e o outro, se não me falha a memória, era Kyo Kusanagi. Quem diria que esse último personagem iria tão longe, não é?   

A noite toda sonhando com pixels

E afinal de contas, eu consegui jogar? Na verdade, não. Os caras ficaram jogando até tarde. Eu fui arrastado pra casa bem antes de conseguir encostar na máquina. E realmente passei a noite tentando desenhar tudo o que tinha registrado na minha mente. Na manhã seguinte, lá estava eu, igual a um cachorro na porta da locadora esperando ela abrir, para colocar a minha única ficha e testar aquela maravilha.

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Dessa parte já não me recordo com tanta riqueza de detalhes, mas sei que escolhi o trio do Brasil — eu sou brasileiro ué, e provavelmente perdi no segundo trio, no máximo no terceiro. Mesmo assim, ali começou um hábito que permanece até hoje: jogar nos fliperamas, tirar uns contras com pessoas que você nunca viu na vida, sem saber os riscos, sem conhecer a procedência. Isso foi, de fato, corriqueiro na minha vida por vários anos. E cá estou, com várias histórias e amizades que duram até hoje. Eu confesso que demorei a aprender, perdi muito, e só comecei a fazer frente com os caras em 2001, jogando ainda o KOF 98. O nome disso? Perseverança (e falta do que fazer da vida).

Seu Marquinhos, a conta, por favor!

A SNK não estava para brincadeiras. Se o objetivo era eclipsar o sucesso da rival Capcom, pelo menos no meu bairro ela foi soberana. Sinceramente, juntar as maiores franquias de luta da casa em um embate entre trios foi algo sem igual. Outros jogos tentaram fazer lutas entre equipes, tag team, etc. Nenhum com o mesmo efeito.

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A trilha sonora dispensa comentários e os gráficos, bom, acho que devemos destacar o trabalho incrível de pixel art e animação (pra época, sem igual) orquestrado pelo Designer Mitsuo Kodama, que praticamente criou a identidade visual mantida nos cenários, efeitos e personagens da franquia The King of Fighters até as últimas versões da era Neo Geo. Aliás, vale uma pesquisada sobre esse artista. Ele posteriormente trabalhou na série Tenchu, do Playstation, game pelo qual ele incrivelmente é mais reconhecido, levando em conta que ele também atuou pela Squaresoft, Konami, e outras.

Bom, foi assim que conheci essa franquia incrível. Uma das maiores de todos os tempos. Cresci jogando e nunca mais parei. Resta saber, e torço por isso, se The King of Fighters voltará a ser grande de novo. O passado indica que podemos esperar coisas boas. Vamos aguardar, e que a luta violenta comece outra vez! 

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