Jogatina dividida: dois amigos e várias histórias

por Ítalo Chianca em 30 de Março de 2018

O destino, ou melhor, uma antiga locadora de videogames, cuidou de unir duas crianças apaixonadas por aquele novo universo que surgia diante dos seus olhos. Foi admirando os videogames e toda aquela modernidade das casas de jogos na década de 1990, que acabei esbarrando em um dos maiores parceiros que a vida já me deu. E assim, juntos, sempre dividindo o controle, aventuramos-nos por mansões assombradas, enfrentamos cientistas malucos e destronamos Deuses gregos em quase 15 anos de jogatina. Chame aquele seu amigo inseparável e vamos acompanhar juntos esta história.

De um dia qualquer

Era uma daquelas manhãs de domingo, lá por volta da metade da década de 1990, numa cidadezinha do interior, onde acordávamos bem cedo para sair e encontrar os amigos. Pode parecer estranho para alguns imaginar que encontrávamos nossos amigos em plena manhã de domingo, mas no tempo das locadoras de videogame a diversão começava cedo.

O papo tinha início antes mesmo do dono do lugar chegar. A galera ficava reunida conversando sobre tudo, inclusive, comentando as novidades das últimas edições da Nintendo World, Super Game Power e da revista Herói. Locadora aberta, hora da diversão.

A turma corria para escolher o que jogar, passando alguns bons minutos estudando as estantes de jogos e discutindo que novo game pediria para começar. Aqueles que já haviam iniciado suas aventuras, sentavam logo nas cadeiras e gritavam de longe, “coloque meia hora aqui, jogo 17” (número de Super Mario World na Locadora do Tadeu).

Fim da aventura solitária

Na época, eu estava jogando Mega Man X2, no Super Nintendo. Tinha pouco tempo que o console de 16-bits da Nintendo tinha se transformado no meu “brinquedo” favorito, mas depois do treinamento especial que passei com um grande amigo, tinha me tornando um ótimo jogador, principalmente de jogos no estilo plataforma.

E foi enquanto deslizava, corria e atirava com o Blue Bomber, que senti uma presença do lado. Quando menos esperei, a cadeira do Player 2 estava ocupada por um garotinho. Ele pediu licença e ficou ali, admirando todo aquele colorido e curtindo cada movimento do homenzinho de armadura azul. Não sabia eu que aquela cadeira seria ocupada por aquele mesmo garotinho pelos próximos 15 anos.

Inicialmente, reagi com certa estranheza ao garoto ao lado. Parecia mais o Chaves observando o Seu Madruga trabalhar. Queria saber cada detalhe, cada botão pressionado e todos os macetes do jogo. Ainda por cima, ele não era da cidade (quando se mora numa cidade de pouco mais de quatro mil habitantes, todo mundo conhece todo mundo). Mas, num momento raro de sensibilidade, resolvi conversar com ele.

Time crescendo

Perguntei o seu nome, de onde era, sua idade e se sabia jogar. Logo, o garotinho respondeu que seu nome era Kericlis Júnior, mas que todos lhe chamavam de Juininho e que queria muito aprender a jogar (como eu alguns anos atrás). Neste instante me vi naquele rostinho sorridente e ansioso para que alguém apenas o convidasse a experimentar um pouco aquele mundo mágico a sua frente.

Com uma nova missão em mente — ensinar a arte de jogar, assim como fizeram comigo —. acabei passando o controle para o meu novo amigo, Jr. Daquele dia em diante, minha equipe ganhava um novo membro.

Seus olhinhos brilhavam enquanto controlava Mega Man pelos incríveis e modernos cenários do jogo. Aos poucos, fui mostrando outros títulos para Juininho. Controlamos os Irmãos Mario pela Dinossaur Land, tiramos alguns rachas em Top Gear e nos enfrentamos algumas vezes em Street Fighter e Mortal Kombat.

Mostrando muita facilidade com os controles, aos poucos meu amigo equilibrava as partidas, independente do estilo de jogo. Aprenderíamos juntos de agora em diante. Foram meses de muita diversão e uma amizade fortalecida e amadurecida dentro das locadoras da cidade.

Novas estradas

Como não morava em São José do Seridó/RN, Juininho precisava voltar para a capital no fim das férias. Com isso, nossas jogatinas cessavam por um longo período. Contudo, bastava o recesso escolar se aproximar para que nos preparássemos para meses de pura diversão. Por vezes, acabava por segurar a vontade de jogar grandes lançamentos, apenas aguardando a chegada do meu companheiro. Era uma parceria verdadeira e que rendeu boas histórias.

Chegava o PlayStation nas locadoras e a febre pelos jogos com os famosos gráficos poligonais tomava conta da garotada. Como tinha uma enorme paixão pelo azulzinho da Capcom, sofri bastante me segurando para não jogar seus cultuados títulos para o primeiro console da Sony. Esperava as férias do meio do ano para poder jogar junto do meu parceiro de controle. Assim, com certeza seria muito mais emocionante.

E foi numa dessas eternas esperas pela sua chegada, que ele acabou me surpreendendo. Em vez de gastarmos toda a nossa mesada nas locadoras, o pai de Jr. deu de presente a ele um PlayStation. Agora sim, a loucura era completa.

Diversão caseira

Passávamos dias e noites jogando sem parar, tirando o atraso de meses. Não tenho lembranças de ter jogado tanto na minha vida quanto nesse tempo. Zerávamos um jogo atrás do outro. Mas o problema de gastar a mesada continuava, pois alugávamos os CDs para poder jogar. Meses de reservas torradas em poucos dias. Mas valeu a pena.

Foram várias aventuras no PlayStation. Lembro com carinho das infinitas vezes que concluíamos os jogos do Mega Man. Zeramos todos: X3, X4, X5, X6 e o 8. Não nos cansávamos de jogar. Até criávamos regras próprias para manter a jogatina constante com o herói azul. Uma vez, usamos Zero; depois X; sem pegar armaduras; sem morrer e por aí vai. Mas a melhor delas foi quando o PS já não funcionava como antes e estávamos tentando concluir Mega Man X4 com as armaduras negras que a Super Game Power tinha dado como dicas na sessão de códigos.

O problema era que o console não queria rodar o título. Colocamos um peso em cima, chacoalhamos, limpamos o leitor com cotonete e nada. Foi preciso virar o danado de cabeça para baixo e colocar um objeto pesado em cima para aquela tela com o logo da Sony enfim sair. Zerado, ficamos com medo de desligar o videogame e ele não voltar a funcionar.

Como queríamos terminar com Zero negro também, já que só tínhamos usado o Mega Man, deixamos o aparelho ligado durante toda a noite. No outro dia, lá estava o jogo nos esperando normalmente, com apenas um pequeno detalhe: o console parecia que ia explodir de tão quente!

Na capital

Passadas as férias, era preciso esperar o recesso escolar para retomar a jogatina. Era complicado esperar longos três meses para poder enfim dividir o controle com Juininho, principalmente na primeira metade dos anos 2000, justamente quando o mundo dos videogames era tomado pelos consoles de 128-bit, mais precisamente, no nosso caso, pelo PlayStation 2. Sendo assim, de mochila e controle na mão, vamos à capital.

Nesta época, eu estava curtindo todo o potencial do GameCube em casa, mas sempre ia à locadora colocar em dia os lançamentos do console da Sony. Entretanto, jogar sozinho não me satisfazia por completo, era preciso alguém para dividir as tarefas e resenhar entre uma conquista e outra.

Como Juninho vinha para São José a cada três meses, resolvi então fazer a rota em sua direção no intervalo desse hiato de encontros. Deixava uns finais de semana em branco na locadora e resistia aos lançamentos do Cube, para seguir destino até Natal/RN, com a desculpa em casa de que precisava conhecer as suas belezas naturais.

Quem já visitou a capital do Rio Grande do Norte sabe das maravilhas que a cidade reserva para os seus visitantes — como não se apaixonar por Pipa e suas encantadoras praias? Pois bem, vez ou outra eu partia de casa para passar uns dias na casa do meu amigo Jr., em Natal. Chegando lá, até que dedicávamos algum tempo para a diversão praiana da cidade e o entretenimento típico das capitais: bons tempos no cinema depois de uma tarde inteira no PlayCenter. Mas a viagem tinha outro intuito: jogar até dizer chega.

Última geração

Com um bom estoque de jogos, o PlayStation 2 era levado ao seu limite durante os poucos dias que passávamos dedicados aos games. Foi lá que encarnei Kratos e sua batalha em busca de vingança. Também, durante essas viagens gastei muitas horas enfrentando zumbis em Raccoon City e quebrando tudo em Devil May Cry. Praia, Cinema, videogames e um bom amigo. Não é a toa que guardo com tanto carinho as lembranças dessa época.

Não costumava jogar meus títulos favoritos com outras pessoas que não fossem os meus dois irmãos, e mesmo assim, só jogava com eles desde que fossem jogos que exigissem multiplayer cooperativo ou competitivo, mas passar o “protagonismo” para alguém durante minhas jornadas foi algo que só aconteceu com Juininho. E olha, era sensacional.

Regras próprias

À primeira vista pode até parecer estranho como nos divertíamos juntos em jogos em que apenas um jogador podia atuar, ou seja, em jogos singleplayer. Mas era justamente no fato de precisar dividir o controle que estava a grande diversão desses momentos. Revezávamos o player 1 durante toda a jogatina. Existiam até regras (nada de xingar, não dormir durante o jogo, cooperar nas partes difíceis e coisas do tipo) para manter a harmonia e o pleno funcionamento dessa bagunça.

Cada um podia jogar por 10, ou 15 minutos, no máximo, com direito a cronômetro para não deixar passar um segundo sequer. Enquanto um controlava o personagem, o outro estudava as situações, ou, em casos em que nossas capacidades não eram suficientes para seguir adiante, o companheiro ficava de olho nos detonados da Nintendo Wold, Ação Gamers, Pró-Dicas e Revista PlayStation.

A troca de controle seguia durante madrugadas a dentro, sempre alternando entre os poucos minutos estabelecidos. Era uma zona. Nos RPGs é que a coisa desandava. Batalhas infinitas e cutscenes longas, às vezes não deixavam o jogador da vez nem mesmo andar mais do que dois passos. Mas o que valia mesmo era a diversão e as histórias para contar.

Sem limite

Muitas vezes esquecíamos da hora e exagerávamos no jogo, varando a noite e tendo a madrugada como companheira. A imersão era completa, dava até mesmo para esquecer que existia um mundo lá fora. Por sorte, Dona Carmem, mãe de Juininho, fazia questão de lembrar constantemente que já passava da hora de parar de jogar e tomar um ar pelo menos.

E por falar nela, deve ter sofrido bastante com a nossa empolgação. Em Guitar Hero, o console era ligado num par de caixas de som daquelas de fazer tremer as paredes de qualquer apartamento. Bastava a dona da casa sair para Slash e Cia botarem suas guitarras para ferver. Mas, como alegria de rockeiro dura pouco, na chegada da Dona Carmem nem John Lennon dava jeito na situação.

Entre histórias e acontecimentos marcantes, a situação só esquentava mesmo quando tínhamos que jogar um contra o outro. Da mesma forma que curtíamos um bom jogo de aventura/ação, nossa paixão por títulos de luta não ficava atrás. Crescemos jogando Mortal Kombat, Street Figther, Marvel vs Capcom e The King of Fighters.

O problema é que cada um conhecia muito bem o estilo do outro, tornando as lutas acirradas e o resultado quase sempre empatado em número de vitórias. Só de pensar na igualdade dessas batalhas já me corre uma gota de suor pelo canto do rosto. Alguns controles destruídos depois, sempre voltávamos para a jogatina normal.

Eterno companheiro

Durante o caminhar dessas aventuras, acabamos nos tornando grandes amigos, ou porque não dizer, verdadeiros irmãos. Juininho, enquanto estava na minha cidade visitando seus avós, passava até mais tempo na minha casa do que com seus familiares. Ficávamos muito tempo conversando, jogando e assistindo nossos animes favoritos. Crescemos todos juntos, eu, meus irmãos e ele. Virou membro da família — meu padrinho de casamento, inclusive.

Também posso dizer que ele esteve presente nos melhores momentos de nossas vidas, partilhando sua inconfundível alegria durante esses tantos anos de amizade e companheirismo. E saber que nossos pais tinham sido melhores amigos quando crianças (fato que só fomos descobrir muito tempo depois daquele primeiro esbarrão na locadora) apenas contribuiu para o fortalecimento da nossa amizade.

A vida é cheia de surpresas e histórias marcantes, que eternizam fatos, sujeitos e tornam a nossa passagem por aqui muito mais bonita e memorável. Sendo assim, nossas histórias e aventuras com os games acabam por se tornar momentos memoráveis que sempre voltam à tona e com bastante alegria, não é mesmo?

Por fim, posso dizer que os videogames me trouxeram mais um irmão, e é na companhia dele que dividi e ainda divido meu controle, algumas viagens e muitas histórias.

Valeu, Kericlis Júnior, ou melhor, Juininho. O próximo jogo nos espera.


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