Histórias do Asilo: O jogo que nunca desistiu de mim

Fabio Zonatto / 15 de agosto de 2017 / Colunas, Crônicas

Todos nós temos algum jogo que ganhou aquele lugar especial em nossos corações, seja por quanto o achávamos divertido, o quão difícil tenha sido terminá-lo ou mesmo a batalha travada para finalmente encontrá-lo depois de muita procura.

E o que teriam todos estes casos em comum? Ora, que em todos eles somos nós, jogadores, os interessados pelo jogo – e não “o contrário”. Se você compreensivelmente não entendeu, então agora vos convido a relembrarem comigo a história do “jogo que nunca desistiu de mim”. Vamos nessa?

Pois muito bem, vamos ver se ainda lembro-me bem dos detalhes…

Sem mais videogame, filho

Aí está uma frase que não queríamos ouvir jamais no auge de nossos 13 anos de idade. Porém havia sido necessário que meu pai pesarosamente me dissesse isto no ano de 1995, ocasião em que meu velho pai Marcos havia perdido o trabalho no qual já estava por mais de uma década. Enquanto empregado, ele ganhou muito bem e pôde até satisfazer um de meus mais ardentes desejos – comprou-me um Sega CD no ano anterior. Mas naquele difícil 95, as contas começaram a se acumular e ele, com dificuldades para arranjar um novo emprego após seus quarenta e tantos anos de idade, preocupava-se mais e mais com nossa situação.

Meu Mega Drive acoplado ao Sega CD permanecia ali mesmo, desligado e com uma toalhinha de centro de mesa a parcamente protegê-lo do pó. Raras eram as ocasiões em que eu podia jogá-lo, sendo que isto passou a ser um prêmio por bom comportamento: boas notas em provas ou ajudar minha mãe em casa eram ações recompensadas com uma ou duas horas de jogatina. Eu era muito grato por este tempinho.

Porém, como eu só tinha jogos do Mega e apenas um único título do Sega CD que acompanhara o console – o famigerado WWF: Rage in the Cage o qual já havia zerado até plantando bananeira – eu me limitava aos cartuchos que possuía: algumas partidas de Road Rash 3 e, quem sabe, terminar pela enésima vez meu querido TMNT: The Hyperstone Heist. Enquanto isso, eu pensava: “Mas não é possível, vejo tanto jogo tão incrível do Sega CD nas revistas, já se passou um ano e nunca vi nenhum nas locadoras…”

De fato, nas três locadoras próximas de minha residência, não havia ainda naquela época títulos para o Sega CD à disposição. Até que, em uma delas, surgiu um nas prateleiras. Um único jogo em meio aos diversos do Mega Drive.

Dark Wizard. O jogo que, como eu descobriria em minha vida, jamais desistiria de mim.

Se a vida lhe dá 5 reais…

Depois que descobri que na hoje há muito finada Acme Vídeo Locadora, estabelecimento que ficava à caminho de meu colégio – o inesquecível EMPG Brigadeiro Haroldo Veloso em Itaquera, São Paulo – havia um jogo para o Sega CD (que, após conversar com a dona, ela confidenciou-me que o comprara sem querer, acreditando ser somente mais um lançamento para o Mega), eu não parava de pensar em jogá-lo. Como mencionei anteriormente, já se passara mais de um ano que eu possuía o periférico do 16 bits sem jamais ter testado seu verdadeiro poderio.

Contudo, da mesma forma eu nunca tinha ouvido falar deste tal “Dark Wizard”. Não lembrava de já tê-lo visto em revistas, e toda vez que eu dava uma nova olhada em minha coleção, só encontrava Sewer Shark, Tomcat Alley, Lunar: The Silver Star e outros de praxe. Deuses, que curiosidade! Como eu queria alugar aquele jogo!

Além do mais, o único jogo para o Sega CD do qual eu dispunha era praticamente idêntico à um lançado para o Mega Drive – já comparou os títulos WWF: Rage in the Cage e WWF: Royal Rumble? Mal dá pra notar diferenças entre o CD e o cartucho… Aquele com certeza não era exemplo do tal “potencial” prometido pelo periférico.

Eu já não recebia mais dinheiro de condução ou lanche de meus pais, que passavam pelo momento difícil que relembrei, portanto não havia como juntar qualquer quantia para o fim que fosse. Ademais, justamente naquela locadora, meu pai não possuía cadastro, e eu era jovem demais para abrir um para mim. Mas para tudo a vida dá um jeito.

Certo dia pela manhã, lá estava eu seguindo para a escola quando, pela calçada próxima à uma padaria no caminho, avisto algo que chama-me muito a atenção pela coloração. Ao verificar mais de perto, eis que lá estava diante de mim uma nota de 5 reais perdida!

“Agora posso alugar aquele Dark Wizard! Mas espera aí… Não tenho cadastro naquela locadora… E mesmo que eu tivesse, como eu poderia explicar isto para os meus pais? No mais, meu pai também não iria me deixar jogar de qualquer jeito…” – veio-me a torrente de pensamentos. E sim, eu tinha ainda uma série de questões a resolver se quisesse colocar aquele disco em meu empoeirado Sega CD.

Já na escola, fui conversar com um de meus mais confiáveis colegas na época sobre o caso. Eu sabia que o pai dele era cliente daquela locadora, e que ele poderia alugar jogos na conta da família. Pedi à ele que me ajudasse a criar um cenário de mentira pura e que nascia do engenho de um garoto em completo desespero por fazer algo que, não importasse o quanto tentasse justificar, ainda soava muito errado.

– Cara, por favor, aluga o jogo pra mim e pode deixar que eu pago. Daí, vou dizer à minha mãe que o jogo é SEU, e que você me emprestou por um final de semana. Como o valor da locação é de R$3,00 (exatamente como nos tempos do véio Lucas), sobram ainda mais R$2,00 que eu lhe dou pelo favor que está me fazendo. Isso porque quero ter certeza de não ser pego no pulo fazendo isso!

E eu explico este temor: minha mãe, a implacável dona Sônia, sempre foi uma investigadora de primeira na hora de descobrir as besteiras que minha irmã e eu fazíamos. Se ela não acreditasse na história contada, logo corria para seu fiel telefone e discava para qualquer número que ela pensasse ter alguém para confirmar ou desmentir algo suspeito que seus filhos lhe contavam. E na agenda dela constava o telefone deste meu amigo, é claro.

Diante da proposta de propina, meu colega aceitou fazer sua parte no ardil e ficar de bico calado sobre tudo para todo mundo. Então, naquela tarde de sexta-feira, saímos da escola e rumamos direto para a bendita locadora, onde finalmente pude alugar aquele Dark Wizard – que, a bem da verdade, eu mal sabia ainda do que se tratava.

Mas ao sair do estabelecimento, percebo mais um problema: a capinha do jogo possuía um encarte da locadora. Se eu fosse com aquilo para casa, meu plano iria por água abaixo – meus pais jamais acreditariam que meu amigo teria alugado um jogo pra que eu levasse para casa assim, de bom grado, sem que ele se beneficiasse de alguma forma. Isto com certeza geraria um telefonema da dona Sônia, e eu não queria colocar os pormenores de meu frágil plano à prova.

Tratei logo de retirar o encarte da capinha, deixando-a preta e lisa mesmo. O inconveniente papel eu dobrei e enfiei entre as folhas do meu caderno, sabendo que teria que manter minha mochila sob vigilância 24 horas naquele fim de semana – até parecia que eu estava escondendo alguma revista adulta ali!

Descobrindo Dark Wizard (com um nó na garganta)

Ao chegar em casa, contei com empolgação para meus pais o que meu colega havia me “emprestado”. Sabia que meu pai compreenderia a ocasião e que me deixaria jogar ao menos um pouco daquele tal Dark Wizard por dois motivos: fazer jus a toda “consideração” de meu amigo, e também porque ele mesmo vivia curioso sobre os jogos do aparelho que ele comprara, mas que jamais havia conhecido direito.

De fato, meu pai era um jogador casual e sempre adorou títulos de corrida. Mesmo sabendo que aquele não era um destes, ele ainda queria saber do que se tratava. Estourando de felicidade, fomos para o videogame e, com muita expectativa, coloquei o CD para rodar.

Logo começou a apresentação do jogo – uma sequência de anime explicando a aventura proposta em Dark Wizard. Mas assim que minha empolgação ia decolar, como uma faca afiada na carne veio-me um pensamento terrível que, só naquele momento, me ocorreu: “Eu encontrei 5 reais e, ao invés de dá-los aos meus pais para ajudar nas compras… Eu havia gasto em uma locação de jogo?!?”

Pois é, a situação era difícil. As refeições minguavam em variedade e até quantidade na minha casa, e minha dedicada mãe fazia o que podia na cozinha com o pouco que meu pai ainda podia comprar. Deuses, como é que eu podia ter sido tão egoísta?

O jogo começou, mostrando-se um titulo no estilo estratégia, com unidades que moviam-se pelo mapa e digladiavam com unidades do exército inimigo. A temática era medieval, com cavaleiros, magos, dragões e harpias… Parecia ser realmente interessante. Até meu pai achou um jogo bonito (mesmo sem entender muita coisa). Mas a culpa estava lá, e me corroía. Iríamos jantar arroz com ovo e uma salada composta por dois tomates naquela noite. Poderíamos ter comido ao menos um pouco melhor, tivesse eu feito a coisa certa.

Assim passou-se o fim de semana sem maiores surpresas. Joguei por no máximo umas 4 horas durante os dois dias, mesmo tendo meu pai dado-me passe livre pela ocasião. “Não quero aumentar a conta, pai. Não quero te prejudicar” – expliquei assim minha falta de interesse no jogo que eu havia adorado de verdade.

Só conseguia pensar que aquele não era o momento para diversão. Simplesmente não era.

Na segunda-feira, levei o jogo para a escola, onde recoloquei o encarte (passei algumas boas horas tentando desfazer os vincos das dobras). Voltei à locadora para devolver o CD com meu amigo, que não parou de me fazer perguntas quanto ao jogo durante o trajeto. Mas eu simplesmente tentava afastar o pensamento de que eu havia gostado tanto daquele Dark Wizard. Na verdade, o que eu tentava afastar era mesmo o pesar da minha culpa.

A situação financeira daquela locadora já não era das melhores, e esta fecharia as portas apenas 2 anos mais tarde. Por quase mais outros 4 desde o episódio, lembrei-me daquele jogo que eu não deveria ter alugado, mas que tanto havia me cativado. Talvez nunca mais o visse.

Mas o jogo não desistiria de mim.

“Fabio, você conhece esse jogo aqui?”

Estamos agora em 1998, época em que eu já cursava a oitava série em outra escola. Nestes anos que se passaram, meu pai conseguiu um novo emprego e as coisas em casa finalmente começavam a melhorar. Meu videogame eu já podia voltar a usar normalmente, e na locadora favorita do meu velho – a Big Shock Vídeo – já haviam muitos jogos de Sega CD para serem alugados.

Mas Dark Wizard não estava lá.

Certo dia, durante o intervalo entre as aulas, conversava com um bom amigo que eu havia feito fazia pouco tempo. Com videogames como interesse em comum, falávamos sobre as tendências daquele futuro próximo: o Sega Saturn, Nintendo 64 e PlayStation. E vale lembrar que este conceito de “futuro” era mais para nós, brasileiros, uma vez que tais consoles ainda custavam uma fábula em nosso país.

O assunto logo nos levou aos videogames que tínhamos em casa. E meu amigo Marcel, para minha surpresa, também tinha um Sega CD.

– E quais jogos você tem, Marcel? Eu só tenho um da WWF de luta-livre…

– Tenho dois, o Sonic CD e outro muito bom que pouca gente conhece. Já ouviu falar do Dark Wiz

Ele nem chegou a proferir o título inteiro, pelo menos não que eu tivesse ouvido. Meu coração já havia parado no “Dark”. Eu simplesmente não podia acreditar naquilo. Não parecia ser possível, sendo que nem se isto fosse uma fábula e uma raposa surgisse na cena cantando a música do He-Man, tal acontecimento seria capaz de tirar o brilho daquela descoberta: Dark Wizard – eu voltaria a jogá-lo!

– Marcel… Você pode me emprestar esse jogo? Por favor? Você não tem ideia de quanto eu acho ele incrível! Só joguei uma única vez, nem mesmo sei jogar direito… Só preciso jogar ele novamente!

– Claro que empresto – respondeu ele com tom de tranquilidade – e também posso te ajudar com algumas dicas se precisar.

No mesmo dia após as aulas, fui com ele para sua casa e finalmente pude ver novamente aquele jogo que tanto havia me marcado – por bons e também péssimos motivos. Eu precisava exorcizá-lo, tirar dele toda a aura de culpa e mágoa por ter sido o motivo pelo qual eu tão cegamente gastei um dinheiro que traria muito mais benefícios para minha família em dificuldades que para o meu próprio entretenimento. Eu simplesmente precisava disso.

Por meses a fio, joguei Dark Wizard e aprendi sobre o jogo tudo que pude: até a gerenciar a bateria interna do Sega CD para a gravação das partidas, recurso que eu jamais havia usado antes. Me diverti pra valer com aquele jogo, que foi minha porta de entrada para outros como Command & Conquer, Warcraft II e StarCraft. Posteriormente, acabei também me tornando um fã incondicional de títulos de RPG, pois tratava-se de mais um estilo que desafiava minha criatividade e estratégia.

E tudo isto começou com Dark Wizard.

Adeus, uma vez mais

Durante dois anos, eu vivia emprestando o jogo de meu amigo Marcel e o devolvendo periodicamente. Ajudava muito o fato de que, tanto ele quanto de seu irmão, Marcos Vinícius, outro grande amigo meu, não se interessavam mais tanto pelo jogo após o terem terminado infindáveis vezes com todos os quatro heróis disponíveis.

Até que um dia, Dark Wizard resolveu novamente desaparecer da minha vida.

Uma vez mais, fui à casa dos irmãos e perguntei pelo jogo. Porém naquela triste ocasião, eles me disseram que, uma vez que já haviam comprado o Sega Saturn, deram à um familiar deles o Mega Drive com o Sega CD e TODOS os seus jogos junto, obviamente. Lembro-me da sensação com clareza, doeu como um soco no estômago…

Fiquei arrasado. Eu até já planejava pedir à eles que me vendessem aquele CD, mas parece que meus planos se estenderam por tempo demais. Lamentei o fato aos meus dois caros amigos, e voltei para casa caminhando e pensando em tudo o que um único jogo havia feito por mim.

Assombrou-me a constatação de que aquela era uma relação que incluía muito mais que somente horas de jogatina, além de duas ou três vezes que havia mentido para meus pais de que estava muito doente para ir a escola, só para terminar mais uma das desafiadoras fases de Dark Wizard. A iniciação em um novo idioma e descobertas importantes sobre mim mesmo faziam parte daquela equação.

Eu agora arranhava bem o inglês, já que tive de o consultar em dicionários ao visitar vilarejos, cidades e castelos do jogo em busca de equipamentos, itens e informações sobre as missões. Além disso, percebi que não mais me contentava jogar por uns poucos minutos – agora para mim os jogos precisavam dar-me a imersão necessária para que eu mergulhasse fundo neles. Que me interessassem ao ponto de não largá-los até ter descoberto cada segredinho oculto.

Resumindo: eu não era mais um jogador casual, que via os jogos como um passatempo divertido e nada mais. Eu era um gamer de fato, que sabia naquele momento, durante aquela triste caminhada de início de uma quente noite de verão, que os videogames fariam parte da minha vida para sempre.

Como naqueles tempos eu ainda continuava limitado aos jogos mais simples e casuais que encontrava à disposição para locação nos estabelecimentos locais, permaneci entretendo-me com os shoot’em ups, beat’em ups, jogos de luta e até um futebol aqui e acolá (hoje, jamais!). Demorou um bocado até que eu mergulhasse novamente em outro jogo com a mesma intensidade que o fiz em Dark Wizard – título este que, inclusive, tive de me convencer que, agora sim, jamais veria novamente.

Quando meu pai finalmente pode nos comprar um humilde computador, usei a internet discada que ainda engatinhava no Brasil para procurar mais sobre Dark Wizard – aquele jogo que eu tanto gostava e que jamais havia visto em nenhuma revista da época. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que nem mesmo a imensidão da grande rede tinha informações sobre ele… Eu realmente tinha como preferido um título completamente obscuro para quase todo o mundo.

Um reencontro inesperado

Pulamos agora para 2004, a última parada temporal de nossa já longa história. Formado no segundo grau, eu trabalhava naquele momento em meu primeiro emprego. Ele não me pagava muito, mas já me dava certa autonomia para comprar as coisas que realmente me interessavam.

Certo dia após chegar do serviço mais cedo, resolvi não rumar direto para casa ao sair da estação de trem (que fica a pouco mais de duas quadras da casa de meus pais). Ao invés disso, tomei o rumo contrário e fui caminhar pelas calmas ruas do bairro de Itaquera.

Sem nem perceber, meus pés acabaram por me levar à rua onde situava-se a velha Big Shock Vídeo, que agora amargurava a decadência das locadoras que já caíam como moscas àquela altura. Foi com muita tristeza que vi um pequeno anúncio na fachada da loja, que dizia “Filmes e Jogos à Venda”. Isto claramente inferia que até mesmo a imponente Big Shock – a maior de Itaquera em seu tempo – agora desfazia-se de seu acervo enquanto preparava-se para dizer “adeus”.

Entrei no estabelecimento e lá estava a dona – uma mulher que cheguei a conhecer muito bem por ser grande amiga do meu pai e reservar para nós sempre os filmes e jogos em lançamento para a sexta-feira – ao telefone enquanto acertava o que parecia ser a entrega do espaço alugado ao proprietário. Enquanto pensava “Estaria eu visitando este lugar verdadeiramente em seus últimos dias de funcionamento? Que coincidência absurda seria esta?”, passei por ela em silêncio e rumei para o segundo andar onde costumeiramente ficavam os jogos.

Com a loja completamente vazia e em silêncio (somente interrompido pela voz da proprietária ao telefone no primeiro andar), por um breve instante pensei em tudo aquilo e não pude conter a emoção… Chorei. As lágrimas rolaram, como seu tivesse 8 anos de idade novamente. Coloquei a mão direita sobre os olhos para que a câmera de segurança não pudesse captar minha fragilidade naquele momento enquanto a sentia ficar cada mais morna e molhada. Como podia um lugar daqueles, sempre tão alegre e cheio de gente, com música pop oitentista rolando solta, agora estar assim, tão moribundo e em seus momentos finais de vida?

A questão é que nem todos nós vemos exatamente quando este momento acontece, quando o “lindo e querido passado” torna-se de fato… O passado. Hoje, penso que aqueles que não percebem tal passagem são sortudos. Eu experimentei com grande amargor aquele momento. Agora eu trabalhava, não era mais um estudante. E jamais novamente eu sairia da escola para retornar ali e admirar os jogos, pensando no que alugaria na próxima sexta.

Foi só quando enxuguei os olhos e me recompus que finalmente pude olhar para a prateleira dos títulos à venda. De cara, meus olhos encontraram o CD com a trilha sonora do filme Mortal Kombat (em seus últimos tempos, o estabelecimento também oferecia CDs de música para locação), o qual tratei de pegar depressa, já que adoro aquele filme até hoje. E então simplesmente aconteceu.

Dark Wizard. Lá estava ele.

Mas como era possível? Eu jamais o vi antes para alugar ali! Não parecia provável que eu nem mesmo soubesse que a locadora tinha este jogo!

Algo não se encaixava, já que eu realmente tinha praticamente memorizado por completo o acervo da Big Shock em meus tempos dourados. Verdade era também que faziam alguns longos anos que nunca mais retornei à ela, já que a vida ficou bem corrida assim que o colegial terminou.

Apanhei-o de pronto e o levei ao balcão (até mesmo esquecendo que meus olhos e nariz deveriam estar meio irritados e inchados após o momento de emoção), onde a proprietária já havia terminado sua ligação. Indiferente ao meu rosto, que ainda mostrava aqueles traços salgados por onde lágrimas passaram, fui logo perguntando:

– Oi! Por favor, vocês tem esse jogo aqui há muito tempo? – perguntei à mulher apresentando o CD todo afobado, acreditando que talvez ela até pudesse me reconhecer.

– Não, não! Faz só uns poucos meses. Comprei um lote de jogos usados para trazer para cá, mas o pessoal não joga mais Mega Drive, Super Nintendo ou Sega CD. Eles só querem saber de PlayStation, PlayStation e PlayStation… – riu-se ela, claramente sendo incapaz de reconhecer o agora rapaz que, anos antes, visitara seu estabelecimento tantas vezes por semana.

Foi então que tirei o CD do estojo e vi o quanto ele estava judiado, com riscos enormes em sua superfície gravada. Mas tudo era original, até a capinha de papelão que embalava os títulos de Sega CD na época. Guardei tudo e perguntei o valor dos dois CDs. Após pagar, perguntei o obvio:

– Vocês estão fechando?

– Infelizmente sim. O pessoal não aluga mais, eles preferem comprar os DVDs. E os jogos de PlayStation são facilmente pirateados, não valeria à pena comprar os originais e colocá-los ali nas prateleiras. Estou bem triste, mas vou entregar o espaço já no final desta semana.

Senti a tristeza dela, que apertou ainda mais o meu peito. Eu bem que podia ter dito para a visivelmente abatida proprietária quem eu era, quem era meu pai, ela teria se lembrado. Talvez isto gerasse alguns bons minutos de conversa para alegrar um pouco aquele tão soturno ambiente de perda… Mas não sei por quê, não disse nada. Não pude dizer nada, emudeci. Jamais me perdoei por isto.

Seguindo em frente

Após uma tímida despedida, desejei com toda a sinceridade do meu coração boa sorte à ela e fui embora. Ao cruzar a porta pela última vez, fechei os olhos por não mais que dois, talvez três segundos – somente tempo o suficiente para dizer baixinho para mim mesmo “muito obrigado por tudo”. Nunca mais tornei a vê-la, e a inesquecível Big Shock Vídeo deu lugar à uma Lan House genérica semanas depois.

Até hoje tenho meu Dark Wizard. Contudo, jamais pude nem ao menos testá-lo, uma vez que eu simplesmente perdi o cabo de vídeo do Sega CD pouco tempo antes. Sei que posso encontrar um novo pela internet, que poderia voltar a jogar o título que tanto mudou a minha vida… Mas por algum motivo, ele permanece na prateleira da casa dos meus pais até hoje. Intocado, como se fosse algo sagrado.

Tão intocado quanto as memórias daqueles gostosos tempos de locadora. Tempos que escreveram de forma definitiva minha história, que ritmaram minha vida até os dias de hoje.

Tempos que, embora jamais voltem, serão eternos em meu coração.

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