Kenseiden (Master System) e a épica Lenda do Samurai Dragão

Fabio Zonatto / 21 de julho de 2017 / Análises, Master System

Quando pensamos em Master System, muitos primeiramente imaginam jogos mais simples, de temática mais direta e dinâmica. Exatamente por isso que Kenseiden não é uma das primeiras memórias para incontáveis retrogamers que lembram-se com carinho da biblioteca de títulos para o 8 bits da Sega – e isto é uma grande pena, pois estamos prestes a falar de um jogo estupendo.

Reunindo elementos variados como aventura, ação, livre exploração e até RPG, Kenseiden fez muito bonito: quem o experimentou sabe bem deste fato. Não era toda hora que o console ganhava títulos do calibre deste, que esforçou-se ao máximo para aproveitar toda a capacidade do hardware do Master… E isto já em 1988!

Desenvolvido e publicado pela própria Sega, o jogo foi um dos mais caprichados já lançados para o Master System. Ainda mais que isto: foi um exclusivo da plataforma, uma vez que jamais chegou a ganhar versão para qualquer outro console (nem mesmo para o Mega Drive). Infelizmente da mesma forma, ele nunca ganhou uma continuação – um grande desperdício, sem dúvidas.

Porém, mesmo apresentando uma tremenda qualidade, Kenseiden pegou uma treta braba com a concorrente Nintendo: mais ou menos nesta época, grandes franquias como Mega Man e Castlevania iniciavam seu legado no NES – e todos sabemos muito bem como tais nomes saíram-se bem ao longo da história. Mas e a estrela resgatada desta matéria? O que teria acontecido a esta épica aventura de samurais e demônios ancestrais? Bem, talvez isto em específico nunca saibamos…

O que o Véio pode fazer com gosto é destrinchar este cartuchinho maneiro ponto a ponto e explicar a quem jamais ouviu falar dele o porquê de nos referirmos a esta pérola esquecida como “épico”. Hayato, mostre-nos o caminho!

Dragão nas veias, Pergaminhos no foco

No distante século XVI, o Japão passa por um período atribulado de guerras e conflitos entre Senhores Feudais. Como se isto já não bastasse, demônios neste mundo são mais que reais e assolam a todos, não importando se são guerreiros ou simples aldeões inocentes.

A estes demônios sanguinários, é atribuído o nome de Warlocks. A única esperança de destruí-los são as habilidades secretas contidas em cinco pergaminhos sagrados e há muito tempo protegidos por uma tradicional família samurai. Juntamente com a lendária Espada do Rei Dragão – outro tesouro de grande poder sob a guarda desta mesma família – os pergaminhos podem trazer a salvação ao Japão… E por isso mesmo, os ardilosos Warlocks tratam logo de roubar tais artefatos tão ameaçadores a sua existência. Seria o fim da humanidade?

Não se tudo depender da coragem e habilidade de Hayato, um membro desta antiga família de samurais que pretende reaver os tesouros e utilizá-los para conseguir o conhecimento necessário, e assim exterminar os demônios. Somente ele seria capaz de fazer isso, uma vez que em suas veias corre nada menos do que sangue dos míticos dragões, há muito extintos.

A jornada de Hayato não será nada fácil, uma vez que ele deve recuperar tais relíquias dos líderes das hordas Warlocks, os quais foram incumbidos de protegê-las. Estes se espalharam por todo o Japão para dificultar ainda mais a vida do samurai, então será necessário cruzar-se todo o país enquanto nosso herói extermina os demônios menores que cruzam seu caminho. Mesmo após recuperar os tesouros místicos, ainda será necessário reunir todo este novo poder para finalmente encarar o último desafio: o infame Castelo Vermelho, onde aguarda o mestre supremo dos Warlocks, Yonensai.

Demônios e samurais no mesmo balaio… Será que Nioh bebeu destas fontes?

Opa… Samurai coreano? Que papo é este?

Antes de seguirmos aos aspectos técnicos, vale a pena explicar esta bagunça cultural promovida pela Sega: existem ao menos duas versões de Kenseiden um bocado diferentes entre si. Isto porque, quando chegou à Coréia do Sul, o jogo foi “localizado” para o público coreano fazendo-se algumas alterações gráficas aqui e ali – mais ou menos o que aconteceu, por exemplo, com Mônica no Castelo do Dragão aqui no Brasil.

A começar pelo nome “Kenseiden”, que lá foi substituído por Hwarang-ui Geom (algo como “A Espada do Cavaleiro-Flor”). Na Coréia, os Hwarang – ou Cavaleiros-Flor – eram um grupo altamente treinado de jovens guerreiros situados em Silla, um antigo reino coreano que perdurou até o século X. Desta forma, nosso samurai Hayato foi graficamente alterado para parecer-se com um guerreiro coreano. Adicionalmente, o mapa-múndi onde partimos para as missões e que originalmente mostra o Japão, foi substituído pelo mapa da Coréia. O mesmo aconteceu com todas as fases, que também foram renomeadas para localidades do país em questão.

Já quando chegou ao ocidente, Kenseiden passou por mais algumas mudanças mais amenas: a mais notável foi a feita no próprio Hayato, que teve os cabelos tingidos de preto. Tal ocorreu porque a Sega norte-americana acreditou que o público de lá não entenderia o fato do protagonista ser japonês e apresentar cabelos loiros.

Fatiando demônios no tamanho certo

A dinâmica de jogo apresentada em Kenseiden é bastante simples e direta: sempre em frente fatiando os inimigos com sua espada e saltando abismos, poços de lava e outros perigos. Porém nem por isso a aventura cansa rápido, já que há golpes diferentes possíveis com sua espada dependendo de que posição você está atacando. Como exemplo, atacar em pé produz um corte em linha reta, enquanto que fazendo-se isto abaixado tem-se um ataque em arco que serve também para se proteger de inimigos aéreos.

À medida em que avançamos em Kenseiden e recuperamos os pergaminhos roubados dos chefões, Hayato vai ganhando novos ataques e melhorias – como saltar mais alto, o que o ajudará a transpor obstáculos antes impossíveis. Isto é especialmente útil, uma vez que neste cartucho podemos revisitar estágios que já tenhamos completado quando quisermos através do mapa-múndi: é só direcionar o bonequinho que representa o herói para a área desejada e avançar para uma área inédita ou então retornar à outra já finalizada anteriormente.

Cada fase representa uma província do Japão medieval, como visto no século X. Após finalizar o segundo estágio, podemos escolher a rota que tomaremos para prosseguir rumo ao Castelo Vermelho. Embora tal funcionalidade também possa ser observada em Golden Axe (nas versões para os Arcades e Mega Drive), em Kenseiden – como já mencionado mais acima – só aqui podemos voltar a alguma área já finalizada anteriormente, ou então retroceder um pouco e pegar aquele outro caminho que inicialmente evitamos. É até possível chegar-se ao desafio final sem ter enfrentado todos os chefes, porém sem ter coletado 100% dos pergaminhos, é quase impossível alcançar ao chefão… Imagine então vencê-lo!

Além disso, este “vai e volta” pode ser muito útil de outra forma: incontáveis fases possuem salas e câmaras secretas que ocultam itens muito úteis, os quais vão ajudar bastante em etapas mais avançadas. Enquanto que hoje em dia tais segredos são facilmente desvendados com a ajuda da internet, lá no final dos anos 1980 e início dos 1990, a coisa não era tão “mamão com açúcar”: eram necessários espírito de explorador afiado e uma boa dose de paciência para encontrar cada segredinho perdido pelo jogo.

Demônios ancestrais – tremei perante minha espada!

O desafio encontrado em Kenseiden é dos barra-pesada, então para quem curte uma boa pedreira, pode já sentir-se em casa.

Mesmo nos primeiros estágios, não é raro que vejamos a tela apinhada de inimigos que atacam de todos os lados. Desta forma, atacar, pular e abaixar-se são ações que precisam vir aos seus dedos como reflexos de pensamento em etapas mais avançadas se você quiser sobreviver um dia mais neste Japão infestado de demônios!

Hayato conta com uma barra de vida para indicar quanta porrada ele aguenta antes de entregar os pontos e, embora de início esta até pareça ser o suficiente para suportar o castigo inimigo, não demora muito e você vai ver que ela é fichinha diante do dano que alguns cabruncos podem lhe causar mais adiante na jornada. Por sorte, em algumas ocasiões, nosso amigo Hayato poderá fazer uma missão de treinamento para melhorar alguns de seus atributos – então é melhor falarmos um pouco melhor sobre elas, não?

No decorrer do jogo, você poderá passar por 4 fases de treinamento opcionais, onde seu mestre lhe pedirá que complete um percurso cheio de obstáculos e armadilhas. A casca-grossa daqui é que, se você cometer um só erro, pode ter de voltar novamente ao início da fase… Então concentração e habilidade são elementos indispensáveis para estes desafios. Em dois estes estágios especiais, seu mestre recompensará seu sucesso com um aumento na barra de vida, enquanto que nos outros dois teremos prêmios ainda mais especiais: dois amuletos chamados Omamori, que aumentam a defesa de Hayato contra ataques inimigos. Juntando-se as quatro recompensas, nosso samurai-dragão estará muito mais preparado para o que encontrará pela frente!

Os chefes são sempre uma surpresa – enquanto alguns são ridiculamente fáceis, outros vão fazer você querer arremessar o joystick na parede. É sempre vital lembrar que todos possuem padrões de ataque que devem ser respeitados, e uma vez que forem dominados o confronto torna-se muito mais fácil.

Ao longo do jogo, Hayato poderá recuperar cinco pergaminhos sagrados. Estes lhe conferem as seguintes habilidades especiais:

  • High Jump: faz com que o salto de Hayato fique muito mais alto e amplo;
  • Slash with Sword: ensina um novo ataque em forma de arco com a katana;
  • Smash the Helmet of Foe: um poderoso ataque em forma de arco durante o salto;
  • Kill by Stealth: confere um ataque de alcance maior enquanto se está abaixado;
  • Berserker: permite que Hayato ataque enquanto corre.

Ainda que tais movimentos possam não parecerem muito, tenha certeza de que cada um deles será de grande utilidade no Castelo Vermelho, principalmente no confronto final contra o maligno Yonensai. Portanto nada de preguiça – o negócio é virar o Japão de cabeça para baixo em busca deste valioso conhecimento!

Departamento técnico: Kenseiden em cores, temores e capetas

A parte gráfica de Kenseiden é algo que salta aos olhos logo à primeira vista. Nem bem começamos a jogar e nos deparamos com um personagem de pixels bem construídos em um cenário que, embora estático, nos deixa tentando lembrar em quais outros títulos para o 8 bits da Sega vimos tamanha qualidade.

Os movimentos são agradáveis, e a isto devemos agradecer às boas animações de Hayato. Os inimigos nem sempre contam lá com muito gingado, mas compensam o “engessamento” com uma boa variedade e gama de ataques. Ao serem derrotados, os efeitos de explosão não são apenas corretos, mas também recompensadores – ainda mais se os unirmos aos efeitos sonoros. E por falar nestes…

Todos os sons característicos de um bom jogo de ação/plataforma para o clássico Master estão por aqui, e soam com agradável nitidez. Não há ruídos ou abafamentos nestes, o que também transpõe-se às canções que embalam cada estágio. Embora nesta parte o loop (repetição após alguns segundos) seja inevitável por questões técnicas, este não ocorre tão depressa e não torna-se irritante com facilidade. Claro que a repetição de algumas trilhas em mais de um estágio não ajuda de forma muito positiva o departamento sonoro de Kenseiden… Mas também, nada é perfeito, certo?

Outra falha grave que o jogo apresenta são os horrendos erros de digitação em algumas palavras de diálogo que você verá durante a aventura – pelo menos na versão norte-americana (que foi a que chegou no Brasil através da Tec Toy). Embora possa até mesmo ser divertido encontra-los aqui e ali já que rendem boas risadas, não dá pra negar que estes quebram o clima em alguns momentos.

A lenda do samurai-dragão que ninguém mais contou

Como já dito, é um verdadeiro mistério o porquê da Sega jamais ter investido em qualquer continuação para Kenseiden, bem como seu desinteresse em portar o jogo para o Mega Drive. Ficamos aqui imaginando ao observarmos a qualidade do cartucho no Master System e somente imaginando: “O que será que poderia ter sido feito com um bocado mais de memória e processamento?”

Seja lá como for, Kenseiden vendeu muito bem na época de seu lançamento, e mesmo que poucos ainda lembrem-se dele, muitos o mencionam nada menos como um dos maiores jogos que o Master já recebeu em sua história. Não somente por sua parte técnica, mas também pela grande diversão que o cart oferece, nós aqui concordamos plenamente que tal fama é merecida. E você, o que acha?

Caso ainda não possa dar esta resposta por simplesmente jamais tê-lo experimentado, o Jogo Véio recomenda com confiança: dê uma chance à Kenseiden. Se você for um fã de retrogames de qualidade e está sempre a procura de pérolas do passado esquecidas sob o pó, está aí mesmo uma épica jornada que não dá pra deixar passar em branco.

Vídeo

Kenseiden (Master System): Longplay – Fonte: World of Longplays

Dicas

Continue de onde parou

Tá complicado salvar o Japão das garras dos Warlocks? Também não é para menos, já que nem passwords Kenseiden lhe fornece, não é mesmo?

Mas tem uma manha muito boa pra você não perder todo o seu progresso de um momento para o outro: assim que surgir a amarga tela do “Game Over”, entre rapidamente com os comandos para cima duas vezes, para baixo duas vezes e botão 2. Pronto! Agora você poderá recomeçar do exato estágio em que estava anteriormente.

Compartilhe com a galera:

FacebookTwitterGoogle+

Leia mais sobre: , , , ,


Leia a Revista Jogo Véio

Revista Jogo Véio - Gratuita, pra ler no PC, no Tablet e no Smartphone

Junte-se ao Asilo