Kid Chameleon: O Multi Side-scroller do Mega Drive

por Roberto Bier em 24 de Janeiro de 2018

Um dia de 1992, a equipe de criação da SEGA chegou à conclusão de que Alex Kid era orelhudo demais para representar os gamers da época. O Sonic também tinha seus problemas: apesar de simpático e gordinho, o porco-espinho era veloz demais e pouco antropomórfico. Talvez fosse hora em que os gamers tivessem um novo ídolo. E, de preferência, que esse ídolo fosse um gamer também. Mas talvez eu esteja me adiantando um bocado falando sobre a intenção da SEGA com esse clássico. Nos anos 90, a realidade virtual parecia ser a promessa dos videogames de última geração. Kid Chameleon explorava ao máximo essa possibilidade, pelo menos em sua história.

Quem diabos é Kid Chameleon?

Outra coisa que estava em alta eram os fliperamas. Na história do jogo, o fliperama da cidade teve uma máquina de realidade virtual instalada, mas seus gráficos eram reais demais… e o chefão do jogo estava aprisionando os jogadores dentro da máquina. Ninguém conseguia vencê-la, exceto um cara… e esse cara é Kid Chameleon!

Kid é um gamer como todos nós gostamos de ser: descolado, estiloso, tem um pouco de porte atlético também (diferente de mim e de mais da metade de vocês), e provavelmente fã do Exterminador do Futuro. Mascando chiclete e usando um óculos de sol que desafia as normas do bom senso, Kid adentra a máquina (como a gente fazia na hora de um bom desafio no Street Fighter II).

Dentro do jogo

Kid mergulha então em um mundo virtual, intencionado a vencer a máquina do mal. Mas, sozinho, ele não tem muito a oferecer, exceto alguns saltos e cambalhotas. Em outras palavras, ele é quase um dos Trapalhões em um jogo que tem características de Super Mario World, mas um tanto menos colorido e mais macabro.

Estão vendo aquelas duas “bolinhas” cinzas, no lado esquerdo da tela, abaixo do marcador de tempo? É o medidor de life. Sim, nosso maior representante (segundo a SEGA) tem a mesma resistência de uma casca de ovo. E é aí que entram as máscaras do poder!

Por que “Kid Chameleon”?

No papel de Kid, você não está tão desprotegido assim. Entre os blocos de “P” (power), você encontra cristais (que configuram um superpoder quando acumulados), vidas extras, continues (na forma de ficha de fliperama, veja você) e, principalmente, as máscaras que adaptam seu corpo ao ambiente que foi submerso, ou seja, fazem de Kid um “camaleão”!

É interessante pensar que as máscaras e o próprio Kid não tinham nomes característicos populares nas locadoras, esse era um luxo para os donos de Mega Drive e compradores do cartucho oficial. Atualmente, é de conhecimento público que o nome de Kid é Max, mas, procurando manter o  clássico, vou chama-lo de Kid até o fim do artigo. Já, as máscaras tiveram seus nomes “abrasileirados” nas locadoras (já que não tínhamos acesso ao manual de instruções da Tectoy): “Cavaleiro”, “Samurai”, “Jason”, “Tanque”, “Mosquinha”, etc… Mas o manual continha os nomes oficiais:

Kid Chameleon: (Obviamente, é sua face sem máscara) Kid, quando tirou a jaqueta de exterminador do futuro para enfrentar os perigos da Realidade Virtual. Sua maior vantagem é poder segurar-se com as mãos nas plataformas, virando uma cambalhota quando alcança o topo.

Iron Knight: Uma armadura pesada garante a Kid muita proteção (6 marcadores de life) e a habilidade de escalar paredes (não me pergunte como). Essa armadura também faz com que Kid quebre os blocos abaixo dela com um salto, ou seja, ela “cai quebrando”!

Red Stealth: Armado com uma katana, Kid com essa máscara é mais forte e salta consideravelmente mais alto. É provavelmente a máscara mais abundante ao longo do jogo.

Berzerker: Algumas paredes são removíveis, essa máscara dá a Kid a habilidade de movê-las. Tudo que ele precisa é de espaço para ganhar velocidade e força, abaixando a cabeça e dando uma poderosa “chifrada” no que estiver pela frente. Essa cabeçada também é útil contra a maioria dos inimigos terrestres.

Maniaxe: A máscara cujo o nome a precede: “Maníaco do machado”, a qual dá a aparência e habilidades a Kid que deixariam Jason Voorhees orgulhoso: atira machados mortais.

Juggernaut: Kid encarna nos joguinhos de guerra dos anos 90, tornando-se um tanque de exército, com projéteis pesados (caveiras que sofrem a ação da gravidade), mas que batem e voltam em paredes. Francamente, não oferece grandes vantagens, uma vez que Kid se torna um alvo muito fácil para quaisquer inimigos.

Micromax: Outra máscara que seu nome a precede: um micro Kid (Max, lembra?). Sua face e asas de mosca denotam suas habilidades: “grudar” em paredes e entrar em cavernas muito pequenas.

Eye Clops: Essa máscara dá a Kid uma arma que revela blocos ocultos pela área onde seu disparo for disperso. A arma não é útil no combate, a menos que o inimigo esteja no mesmo ponto de um desses blocos, então o bloco se sobressai, destruindo o inimigo.

Sky Cutter: A máscara mais radical! Essa transforma Kid em um skatista a jato, muito veloz e capaz de reverter o próprio fluxo gravitacional, ou seja, ele anda de skate de cabeça para baixo. Essa máscara, porém, exige um tanto de treino, já que a velocidade é mais perigosa para Kid do que para seus inimigos.

Cyclone: Possivelmente é a máscara mais útil, ela dá a capacidade de girar feito um ciclone podendo voar e atacar os inimigos nessa forma. Com esse poder, Kid acessa plataformas antes inalcançáveis, encontrando passagens secretas e itens. Sem dúvidas, é uma das mais divertidas faces de Kid.

O jogo das infinitas fases?

É curioso que em um cartucho de 8 megas caibam 103 fases e ainda 32 atalhos que podem ou não pertencer a essas 103 fases – os atalhos que Kid tem como opção, caso a bandeira branca esteja muito longe de ser alcançada ou você caia de uma plataforma quase inatingível. Parece que a Sega fez isso de propósito, para desbancar o recorde de Super Mario World, do seu rival SNES, que tinha suas (já surpreendentes) 96 fases.

Para fins de comparação, tenhamos em mente que o encanador gordo e bigodudo da Nintendo tinha um chip de memória em seu cartucho, enquanto Kid Chameleon não contava com passwords ou state saves, o que significava que, ou você terminava “no braço”, ou você não terminava. Claro, hoje com as edições remake e com os emuladores, tudo está ao alcance de um comando, mas nos anos 90, muito marmanjo quase quebrou a mão jogando o jogo do Kid. A SAMU era chamada, os hospitais lotavam e só as verdadeiras lendas conseguiam termina-lo… em três ou quatro horas.

Alguns segredinhos de Kid

Diferente do porco-espinho de sua empregadora, e também do gordinho da Nintendo, Kid não ganha uma vida extra a cada 100 diamantes coletados – quando chegava em 99, ele descartava os seguintes. Os diamantes emitiam um som a cada número-chave para seu uso em um ou outro poder extra. Às vezes esse poder era mais uma vida, mas variava de acordo com a máscara usada, o cenário e o número de diamantes, que causavam poderes variados: da destruição de todos os inimigos na tela, até a invencibilidade temporária. Esse poder é liberado quando você pressiona Start + A do seu joystick de Mega Drive.

A grande criatura do mal, do mundo virtual, não se sabe ao certo porque, aparece na forma de três cabeças (indianas? pigmeus? filhos bastardos do Dhalsim?) que cospem raios/bumerangues/irmãos caçulas (yoga fire verde?), mas o jogo é de uma feliz  era em que não se reclamava desenfreadamente de xenofobia ou gêneros semelhantes.

Por que um jogo tão longo desses não enjoa a veiarada? Apesar do número massacrante de fases, os estilos de fase e as máscaras que alteram as habilidades de Kid são tantas, que é como se estivéssemos alternando entre jogos diferentes o tempo todo. Os caminhos alternativos também fortalecem o “fator replay” do jogo.

Esse número de fases, a dificuldade que aumenta gradualmente e a pouca esperança que se dá ao jogador de terminá-lo, torna Kid Chameleon difícil, mas não impossível, garantiu-lhe o título entre os jogos mais difíceis do mundo (atualmente, em 5º lugar nesse ranking).

E então, Kid Chameleon vale a pena?

Ambientação muito variada, músicas diversas, desafio extremo; acredito que com essas poucas palavras se descreve Kid Chameleon. Claro, seria um grande sacrilégio compará-lo diretamente a Mario ou a Sonic, já que parece muito lógico que não se tratava de uma tentativa de superação, mas a SEGA estufou o peito e trabalhou bonito em um jogo de plataforma que, assim que você acerta sua base, precisa se salvar de uma avalanche de possibilidades que incluem cenários e transformações. É mais do que um adventure, é ação, é um game que exige fôlego e criatividade.

Kid Chameleon vale a pena, sim. Não só pelo fator nostálgico, mas por ser um item indispensável às coleções de jogos dos fãs do Mega Drive, certamente não ficou tão famoso quanto seus antecessores (Sonic e Mario) provavelmente por não ter, como eles, uma continuação. Kid Chameleon permanece obscuro para os gamers da geração atual, mas é um dos títulos mais bem vistos por todas as listas de “Melhores Drive” que encontramos por aí… e com toda a razão, não?

(Obrigado, DanielGFM  pela colaboração!)

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