Locadoras de videogame: o antigo templo da diversão gamer

Ítalo Chianca / 17 de outubro de 2016 / Crônicas

Vai jogar quanto tempo? Faltam cinco minutos, vai continuar? Espere aí, deixe só eu salvar aqui? Vamos jogar de dois? Alugue na sexta e entregue só na segunda. Quem derrubar o controle perde dez minutos. É proibido falar palavrão aqui, moleque. Zerei, zerei…

Bate uma saudade depois de ler as frases do parágrafo anterior, não é? Lembro de ouvi-las praticamente todos os dias durante a minha infância. E aposto que você também, pois se você chegou até aqui, as chances de ter crescido frequentando uma locadora de videogames são enormes.

Invadindo as ruas

Era quase inevitável encontrar uma locadora de videogame no Brasil durante as décadas de 1990 e 2000. O formato de negócio estabelecido pelas precursoras Dimensão Games e, principalmente, Progames, fizeram o modelo lucrativo de exploração comercial dos jogos eletrônicos se espalhar rapidamente por cada canto do país, dando origem a grandes redes, pequenos negócios e, claro, uma geração de jovens apaixonados por videogames.

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O sucesso comercial das locadoras fez com que elas se tornassem parte da paisagem das cidades brasileiras a partir década de 1990. Nos centros, nos bairros, improvisadas em garagens, elas embelezavam as ruas com as suas cores, sons e formatos diferentes, atraindo um público que ainda não tinha um espaço só seu na cidade.

Enquanto os pais podiam sair com os amigos para assistir ao futebol no bar e as mães costumavam encontrar as amigas no salão de beleza ou em lojas de roupas, as crianças e jovens não possuíam um lugar comum para frequentar. Até dava para aproveitar um pouco a escola, a igreja e principalmente a rua. Mas nada disso tinha a identidade que a garotada buscava.

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Com televisores, videogames, guloseimas e revistas, a locadora se transformava em um segundo lar para os jovens da cidade, que não encontraram dificuldade para tomar o lugar como o principal espaço de encontro de uma nova geração que se iniciava ali. A geração dos gamers.

Nosso mundo

Tecnologia, informação, diversão, a locadora tinha tudo que precisávamos e queríamos. A identificação era quase instantânea. Bastava entrar a primeira vez para se encantar com aquele mundo mágico dos jogos eletrônicos e com aquele espaço aconchegante e único. Um espaço para sermos crianças e jovens, do nosso jeito, com a nossa linguagem e com os nossos amigos.

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Na locadora, podíamos conversar sobre as coisas que realmente nos interessava, como os desenhos da TV Manchete, a rodada do Campeonato Brasileiro, os novos álbuns de figurinha, a linda colega da escola e os últimos lançamentos do Super Nintendo e do Mega Drive. Não existia um lugar melhor para se divertir. Era o nosso próprio mundo, sem as conversas chatas dos adultos, sem os puxões de orelha dos nossos pais e sem as obrigações da escola.

A vida pulsava entre TVs e consoles na locadora. Vimos gerações de videogames surgirem, presenciamos umas das melhores fases dos jogos eletrônicos, fizemos parte de uma verdadeira guerra de consoles, gastamos nossa mesada com picolés e pipocas, e vivenciamos as mais divertidas histórias com os nossos amigos.

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Nas locadoras, fizemos parte de histórias inesquecíveis, tanto na vida real, quanto na virtual. Salvamos princesas, enfrentamos cientistas malucos, participamos de corridas alucinantes, trocamos tiros com bandidos de faroeste, derrotamos cavaleiros medievais, viajamos no tempo, vencemos campeonatos de luta, ganhamos Copas do Mundo, fizemos jornadas épicas por mundos fantásticos. É justamente por tudo isso que podemos considerar as locadoras como um verdadeiro templo. Um templo da diversão que fez feliz uma sortuda geração de jogadores.

Nosso lar

As locadoras se foram, isso é verdade, por mais que algumas lutem com todas as forças para resistir aos problemas que as assolaram no começo dos anos 2000. Mas uma coisa é certa: elas formaram uma geração de gamers que soube aproveitar cada centavo usado para alugar um jogo, cada amizade, cada risada, cada revista, cada pixel e cada uma das centenas de histórias que esse fantástico mundo dos videogames clássicos foi capaz de proporcionar. E se você sente saudade dessa época, desses jogos e dessas histórias, você está no lugar certo, pois é disso que o Jogo Véio é feito e por isso que eu estou aqui. Bem-vindo ao Asilo Retrogamer.

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