Especial Nota Zero: Os Klones de Mortal Kombat (parte 1)

Fabio Zonatto / 3 de outubro de 2017 / Colunas, Nota Zero

Já falamos aqui sobre o grande sucesso da franquia Mortal Kombat lançada lá no comecinho dos anos 1990, que causou um barulho absurdo em um mercado que, na época, era quase que 100% focado no público infanto-juvenil. E a regra é clara: quando algo faz muito sucesso, logo vão surgir muitos outros querendo copiar a receita!

Claro que neste caso não poderia ser diferente. Antes de Mortal Kombat, a Midway tratava-se de um estúdio mediano que, como qualquer outra empresa, lutava para manter-se no mercado. Porém, após o estrondoso e estupendo êxito obtido pelo torneio sangrento com pixels digitalizados, a empresa tomou o elevador do sucesso e subiu às alturas como um proeminente e bem-sucedido estúdio. Quem é que não iria querer o mesmo para o seu pequeno estúdio?

Pouco tempo após o estouro de Mortal Kombat, começaram a pulular aqui e acolá vários outros títulos de luta muitas vezes provenientes de produtoras bem menores que tentavam copiar a fórmula de sua “musa inspiradora” da melhor forma que podiam conseguir. Alguns ainda tentaram trazer novidades, enquanto outros simplesmente eram mesmo aquelas cópias paraguaias de brinquedos encontrados em lojas de R$1,99.

Ali nascia a era dos chamados “klones”, que tornaram-se tremendamente infames e numerosos em determinado ponto da história dos videogames. A ordem era apenas uma: trazer sangue, “Fatalities” e muita violência – tudo para pegar carona no bonde do Liu Kang. Hoje, conhecemos os referidos títulos por este termo (escrito assim mesmo, com “K” no lugar da letra “C”), pois tal cunhou-se como uma brincadeira para seguir aquela tradição do universo de Mortal Kombat.

Neste especial da coluna Nota Zero que contará com três partes, vamos passear por alguns jogos que ousaram copiar MK na cara de pau e desapareceram completamente com o tempo, muitos sem deixar qualquer vestígio. Verdadeiras bombas das quais precisamos sempre nos lembrar, pois aprender com os erros para jamais os cometermos novamente é algo de uma importância imensurável…

Mas fique atento em nossa lista, pois existem algumas surpresas interessantes nela. Como exemplo, sabia que uma destas produtoras conseguiria praticamente apagar de sua história o seu fracassado “klone” e prosperar para estar aí até hoje, firme e forte a criar jogos para o PlayStation 4? E ainda que uma destas cópias trouxe de forma revolucionária o primeiro embrião (mal-sucedido) de jogos de luta para ser disputado online, do conforto sua casa? Vale à pena ficar de olho nesta leitura!

Antes de começarmos a jornada, porém, é muito bom avisar: neste artigo, o Véio foca-se exclusivamente em relembrar os clones de Mortal Kombat que realmente foram considerados muito abaixo da média. Péssimos jogos que são, de fato, sofríveis e um belo desafio (de paciência e estômago) para quem realmente quiser testar seus limites de tosqueira.

Assim sendo, outros jogos que reconhecidamente também pegaram carona no sucesso de MK como Bloodstorm e o grandioso Killer Instinct – ótimos jogos que merecem respeito e um artigo só para eles – nem vão passar perto desta bizarra lista. O mesmo vale para Eternal Champions e Weaponlord, pois bem sabemos que aquelas finalizações brutais tiveram de onde se inspirar…

Mesmo valendo a máxima “nada se cria, tudo se copia”, nem tudo que é cópia deixa de ter seu brilho especial. Já nestes próximos casos…

Menção Desonrosa – Double Dragon V: The Shadow Falls

A série que basicamente criou o gênero beat’em up finalmente saiu de seus tradicionais moldes em 1994, quando Double Dragon V: The Shadow Falls chegou ao SNES e Mega Drive através da desconhecida Leland Interactive Media (uma subsidiária da Tradewest).

Esta abominação não foi produzida pela criadora da franquia, a Technōs – na verdade, a empresa quase não teve envolvimento algum neste terrível projeto. Temos aqui então o nascimento do primeiro jogo de luta apresentando os irmãos Billy e Jimmy Lee, além de alguns outros calangos vistos ao longo da série, que até este momento somente acumulou sucessos em seu histórico entre os beat’em ups.

E frisamos muito bem: até ESTE momento apenas. Poucas são as grandes franquias que passam sua existência sem nenhum tropeço… Double Dragon aqui caiu de cara no chão, sem exagero algum.

A principal intenção na verdade era aproximar-se do mercado como um concorrente a Street Fighter II, e por este exato motivo que Double Dragon V surge neste hall vergonhoso somente como “menção deshonrosa”. Mas é claro que uma ou outra coisinha de Mortal Kombat também veríamos por aqui, por quê não?

De forma geral, esta bomba não passou de um incompetente “clone” daqueles que aspirava ser. Com gráficos em 2D verdadeiramente feiosos e trilha sonora monótona e irritante (além de especialmente abafada no SNES), recai sobre a jogabilidade a principal mácula de Double Dragon V: controles imprecisos embalados por mecânicas já vistas em outros grandes títulos do gênero, só que aqui bem mal executadas.

O toque MK desta praga são os chamados Overkills, uma espécie de movimento fatal para finalizar os derrotados. Cada lutador tem a sua própria forma de morrer, portanto as animações de morte estão atreladas às próprias vítimas. Isto só ajuda a deixar tudo ainda mais entediante.

Survival Arts (Arcade, 1993)

Desenvolvido pela obscura produtora Sammy e lançado para os Arcades em 1993, Survival Arts foi um dos primeiros “klones” de Mortal Kombat uma vez que sua estréia deu-se pouco tempo após o estrondoso sucesso do petardo da Midway. O que temos aqui é o que já esperamos: um torneio de artes marciais com gráficos digitalizados e onde o sangue rola solto após cada porrada.

De cara, o jogo chama a atenção pelo tamanho dos personagens na tela, muito maiores que os vistos em MK. Mas isso pouco (ou nada) ajuda a salvar Survival Arts, já que estes mesmos personagens são bem genéricos e desinteressantes, com alguns chegando ao ponto do ridículo. Quer prova? O “alienígena” cinza Kane ta lá pra não me deixar mentir!

Os comandos são terríveis e pouco responsivos, sendo eles muitas vezes seu pior inimigo. Alguns dos golpes parecem simplesmente saírem na base da sorte. Além disso, há um desequilíbrio obvio entre alguns personagens – enquanto uns contam com diversos movimentos especiais, outros possuem dois ou três no máximo.

Os “Fatalities” por aqui ocorrem sem a necessidade de nenhum comando especial – basta finalizar a luta com um ataque específico. Para citarmos alguns exemplos, um lança-chamas torra a vítima até os ossos, um golpe de espada a corta ao meio e um tiro lhe estoura a cabeça. Se em um primeiro momento tais mortes podem parecer até chocantes, não demora muito e você consegue vê-las pelo que são na verdade: genéricas, repetitivas e mal digitalizadas.

Vale destacar que, mesmo em meio a tanta mediocridade, Survival Arts inovou ao trazer uma mecânica então inédita em jogos de luta: durante o combate, surgem armas pelo chão como bastões, espadas e até pistolas, que podem ser coletadas e usadas livremente. Mecânica parecida veríamos na franquia copiada somente em Mortal Kombat 4, muitos anos depois.

Como ponto pessoal, também aponto a trilha sonora tenebrosa (e não de todo o mau) e as vozes digitalizadas que até são esforçadas… O que não significa que eram ótimas. Digamos apenas “esforçadas”!

Pray for Death (PC-DOS, 1996)

O que dizer sobre Pray for Death? Talvez esta seja a maior dificuldade ao abordarmos o jogo, pois falando claramente e sem muito rodeio, não se pode dizer que ele tenha verdadeiramente alguma qualidade ou mesmo uma característica positiva. É sério mesmo.

Desenvolvido pelo estúdio italiano LightShock Software, Pray for Death chegou a contar com publicação pela gigante Virgin Interactive – o que não foi nem de longe o suficiente para garantir algum sucesso ao título. Porém, justiça seja feita: em certos aspectos, bem que os caras quiseram caprichar em alguma coisa… O problema é que o tiro saiu pela culatra.

Precisamente, estamos falando dos gráficos de Pray for Death que, fazendo uso moderado da capacidade do PC (ainda que DOS), apostou em personagens com gráficos 100% modelados – um conceito que, tempos depois, foi muito melhor desenvolvido em Killer Instinct. Em termos mais claros, significa que os lutadores não são como fotografias de atores digitalizadas como em Mortal Kombat ou Survival Arts, e sim criaturas completamente construídas digitalmente.

Dizemos que a ideia “saiu pela culatra” pelo simples fato que o jogo apresenta modelos bem feiosos de personagens. Os lutadores humanóides são ainda piores, já que as proporções estão completamente erradas (tórax largo demais, braços e pernas em tamanhos estranhos), o que mostra-se obvio logo ao primeiro golpe de vista. A galera fugiu mesmo das aulas de anatomia na escola…

Quanto aos “Fatalities”, eles funcionam como em MK: após vencer dois rounds, surge a frase “Slay him/her!” na tela e o jogador terá alguns segundos para entrar com o comando do movimento fatal desejado. Cada personagem tem dois deles, e normalmente envolvem alguma animação bem tosca, um pouco de humor cartunístico (que não combina em NADA com a atmosfera do jogo) ou um simples soco/chute monótono que faz o sangue espirrar por todos os lados. Fraquinho, fraquinho.

No final, talvez o ponto mais notável e fácil de lembrar em Pray for Death seja o mesmo seu locutor – é só vencer uma luta dando um “Perfect” pra saber que, seja lá quem gravou as falas deste figura, tentou de verdade imprimir personalidade na entonação completamente exagerada…

Ultra Vortek (Atari Jaguar, 1995)

Ah, o Jaguar! Console da Atari que tanto prometia em sua época de lançamento e que tão pouco pôde alcançar graças às limitações de tecnologia observadas lá no começo dos anos 1990… É exatamente desta plataforma que vem nosso próximo “klone” fracassado: o bizarro Ultra Vortek, criado pela já defunta Beyond Games.

Primeiramente, vale ressaltar seus pontos fortes (sim, eles existem por aqui): graficamente, o game foi bastante elogiado pela crítica. Os modelos dos personagens novamente são menores e com pixels digitalizados, porém estes são mais bem trabalhados. Os cenários também merecem destaque pela variedade e efeitos, sendo que, de nossa lista até este ponto, Ultra Vortek é o primeiro a trazer os “Stage Fatalities” no estilo do “The Pit” de Mortal Kombat.

Os controles também merecem destaque, já que são fluídos e tornam a jogatina até que divertida. E há ainda mais a ser mencionado: em um dado momento de 1995, a Atari preparava um acessório para o Jaguar que o permitiria conectar-se com a internet por meio de um modem discado – e Ultra Vortek estrearia o periférico.

Periférico este que jamais chegou a ser lançado.

Mesmo com o projeto abortado, o título chegou ao mercado com todas as funcionalidades para fazer uso do aparelho, e foi o único do Atari Jaguar a trazer tal recurso. Desta forma podemos tomar este jogo como no mínimo “bem-intencionado”, já que Ultra Vortek tinha comandos sólidos, bons gráficos e ao menos tentou iniciar uma revolução ao trazer este embrião nunca desenvolvido de jogatina online.

Sobre a violência que faz deste título uma cópia de Mortal Kombat (além do estilo gráfico), ela é bem latente por aqui. Sangue jorra após cada porrada, e os movimentos fatais – que novamente devem ser inseridos após a vitória no segundo round e a mensagem “Annihilation Time!” (“Hora de Aniquilar!”) – incluem esmagamentos, desmembramentos, decapitações e outras coisinhas mais.

Ainda que traga boas qualidades, o jogo envelheceu de forma péssima e hoje é geralmente lembrando (isto quando alguém lembra-se de sua existência) pela infame capacidade de transformar seu inimigo em uma repugnante pilha de fezes em um dos “Fatalities” possíveis.

Sim, eu disse transformar a vítima em um montão de bosta mesmo. Lamentável.

…Mas de jeito nenhum! Tem muito mais absurdo de onde saíram estes. Pode ir se preparando!

Porém, por hora, fechamos a primeira parte deste especial. Não tenha dúvidas: nós ainda vamos desenterrar muito jogo ruim só para nos lembrar que nem só de acertos viveram os anos 1990 nos videogames. Ainda tem cada um pra mostrar… Ai ai…

Vídeos

Double Dragon V: The Shadow Falls (SNES): Longplay – Fonte: World of Longplays

Survival Arts (Arcade): Longplay – Fonte: BoggyTheWorm

Pray for Death (PC): Longplay – Fonte: World of Longplays

Ultra Vortek (Atari Jaguar): Fatalities – Fonte: szydlak

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