Phantasy Star II – O fim da era perdida

por Roberto Bier em 6 de agosto de 2018

Um dia, um dos membros da equipe executiva da SEGA teve uma ideia: dar continuidade a um RPG há algum tempo abandonado no Master System. O restante da equipe poderia passar a tarde assistindo anime e maltratando os ouvidos alheios em um karaokê, mas, por serem membros produtivos da sociedade, resolveram ajudá-lo. Nascia ali a ousada ideia de continuar uma saga que havia sido deixada na era 8 bits: Phantasy Star II.

Phantasy Star… entre I e II

Passaram-se 1.000 anos desde que Alis Landale, Odin, Noah (ou Lutz) e a mascote Myau uniram-se e venceram as forças do mal que assolavam o Sistema Solar de Algol, localizado na galáxia de Andrômeda. Mas aquela batalha, meus amigos, não havia sido fácil. A chamada Dark Force havia se apossado do corpo do governador de Motávia, não sem antes ter tocado o terror por todo o sistema! Em eras mais pacíficas, alguém teve um pesadelo envolvendo uma garota “deveras parecida” com Alis e uma das criaturas que lembra a personificação da Dark Force.

Como Phantasy Star II começa

Rolf acorda em meio a sua noite, sonhando com o que provavelmente seria o final de Phantasy Star. Ele é um agente do governo motaviano e, na manhã seguinte a esse pesadelo, é designado a uma missão de investigação: embora Motávia estivesse florecido (anteriormente era um planeta desértico e quase inóspito), os biomonstros que foram criados para que houvesse equilíbrio da fauna agora estão atacando pessoas. Sem contar que o aparelho que controlava as situações climáticas (o Climatrol) cessou o abastecimento pluvial do planeta, secou rios e parece estar causando escassez de água para as cidades. O governador teme que o grande computador, a mãe-cérebro, esteja com defeito… ou muito pior: planejando algo terrível.

Escalando um time

Antes, nós tínhamos 4 tipos de guerreiros Alis, que era um meio termo entre maga e amazona; Odin, que abraçava tanto a causa do Cavaleiro, que não sabia usar a magia; Myau, que por ser uma criatura mítica tinha magia e ataques eficientes; e Noah, que era um respeitado mago, a ponto de ser convocado por ordem do governador a integrar a caravana de Alis. Em Phantasy Star II abriu-se uma porta para um universo maior: personagens diferentes e únicos, mas que se revezavam entre si de acordo com a missão em andamento. Claro, tudo depende do membro mais importante do grupo: você.

Rolf: o protagonista da história. Perdeu os pais em um acidente misterioso, mas não se abalou. Formou-se como agente do governo. É o sucessor espiritual de Alis e, segundo as lendas, teria sido salvo por Noah (ainda vivo).

Nei:  Rolf a tem como uma irmã. Nei possui células de biomonstros fundidas à sua natureza humana, por isso é vítima de discriminação por parte dos motavianos. Seis meses antes, ele a salvou de um caçador, dali moraram juntos e criaram um laço afetivo… tão forte que quando ele a conta sobre a missão, Nei não permite que Rolf saia sozinho e praticamente o obriga a levá-la consigo.

Rudo: Rudolf Steiner era um militar graduado, mas graças à Mãe-cérebro (ou Cérebro-mãe… sei lá, não me encham o saco) os biomonstros chacinaram sua esposa e sua filha. Agora ele dedica todo seu conhecimento em armas de grosso calibre para caçá-los.

Amy: Anne Sage é uma jovem médica recentemente formada. Não tem muito talento para ferir ou caçar, mas seus poderes de cura e proteção são invejáveis. Ela ingressa ao grupo de Rolf por interesse nos eventos climáticos que vem acontecendo. É jovem e muito simpática. E dizem que é apaixonada por um legendário guerreiro chamado Bier, mas outro dia eu conto mais sobre essa linda história de amor…

Hugh: Hugh Thompson é um entusiasmado estudante de biodiversidade, fã de várias dessas espécies e seus papéis no ecossistema. Ao saber da missão de Rolf, oferece seus serviços, já que seus conhecimentos incluem pontos fracos e fortes dos biomonstros (incluindo monstros vegetais).

Anna: Anna Zirski é uma guerreira, e filia-se ao grupo de Rolf para matar biomonstros, beneficiando a todos os envolvidos. Ela parece ser mal-humorada, e com muito ódio no coraçãozinho, igual a uma dominatrix que eu contr… conheci. Pela internet. Eu estava procurando por um filme do Triplo X, mas é uma longa história. Continuando… ela parece ter uma relação maternal com Rolf, mas seus motivos são misteriosos.

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Kain: Josh Kain sempre foi interessado em eletrônica, eletrônicos, robótica e em computadores. Mas em alguns casos, a natureza é irônica: Kain tem um talento nato para quebrar coisas desse ramo, como um dom extraordinário. Isso quer dizer que ele é ótimo para enfrentar robôs e máquinas programadas para eliminação de quem se aproximar da Cérebro-mãe e outras áreas tecnológicas.

Shir: Shir Gold, ou “Shir dos ventos”, como prefere ser chamada, sempre teve tudo o que desejou, por ser a herdeira de uma rica família de Motávia. Ela sai em busca de aventuras, e seu desejo em busca de altos níveis de adrenalina. Por isso, tornou-se ladra e voluntariou-se ao grupo de Rolf… às vezes abandonando o grupo em meio às lojas. Se tiver ela em sua escalação, verifique regularmente sua mochila, especialmente quando ela voltar de um rápido desaparecimento…

Mais expansões — Equipando o personagem

Equipar o personagem em Phantasy Star I era fácil, tratava-se apenas de espadas (ou armas para ataque), armaduras e escudos. Obviamente, o Mega Drive tinha poderes a mais que seu antecessor e, com isso, se permitiu melhorias e, porque não considerar, pequenas complicações nesse quesito:

Armas cortantes: Facas, Punhais e Adagas – essas poderiam ser equipadas nas duas mãos dos personagens, melhorando seu desempenho ofensivo. O jogador também tinha a opção de usar um escudo em uma das mãos, aumentando seu nível de defesa. Essa categoria de arma se aplicava a personagens com pouca ou média força.

Espadas: diferente de PhSt1, neste jogo as espadas exigiam força média e duas mãos para equipar-se. Jogadores que curtem o estilo “forte e certeiro” preferem esse tipo de arma.

Garras: armas exclusivas para Nei. Pode ser equipada nas duas mãos, dobrando seus ataques, ou em parceria com um escudo.

Pistolas: algumas ocupavam as duas mãos, outras permitiam dualidade. São equipadas por personagens de porte fraco ou médio.

Bestas e Espingardas: Armas de grosso calibre, em especial para personagens de alto porte físico.

Bumerangues: Armas de arremesso leves e rápidas, com a vantagem de acertar mais de um inimigo.

Escudos: tiravam a utilidade das espadas, mas fornecem grande proteção.

Chapéus, Capacetes e Fitas: proteções para a cabeça. Chapéus de determinados tipos permitiam falar línguas estrangeiras, como Dezoriano ou a língua dos gatos. Capacetes fornecem grande proteção para o elenco masculino. As Fitas servem para o elenco feminino.

Calçados: Sandálias, sapatos e botas (já em ordem de nível defensivo).

Roupas, Vestes e Armaduras: Isso é um tanto redundante explicar então… deixa pra lá.

Universo novo, expansão do RPG

Outro detalhe trazido por Phantasy Star II é a mudança no modo de luta. Você pode simplesmente atacar e deixar os personagens em modo de ataque até a morte de um dos dois lados ou combinar técnicas de magia, e ataques a monstros de grupos diferentes. Convém notar que certos personagens são mais rápidos na hora da luta; essa é uma chave estratégica importante.

Outra pequena inovação é que cada personagem tem sua própria mochila. Além disso, a torre do Governo, onde Rolf descola seu famigerado salário, dispõe de um guarda-volumes.

Há maiores indícios de que o povo Algolano desenvolveu tecnologias, já que as igrejas e templos entraram em extinção, enquanto estão disponíveis Centros de Armazenamento de Dados, Centrais de Clonagem, Estações de Teletransporte. Jogadores que viveram essas duas versões percebem essa gritante diferença.

Em PhSt2 estamos vivendo uma nova era espacial, e isso é fantástico. (Mas também acarretará em problemas para Rolf e seus amigos, como, por exemplo, a prisão espacial.) Além dos personagens que se alistarão ao grupo, você também receberá ajuda de ilustres membros da população, como um professor de piano, que cobra caríssimo por suas aulas, mas dá belíssimas demonstrações das músicas do jogo.

Ah, você se lembra dos ratos humanoides do Phantasy Star I? Eles ainda estão na ativa, alguns com receios contra os colonizadores provindos do planeta Palma, outros são pregadores de peças, às vezes em nome de rancores antigos.

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Faltou algo?

Nem tudo são flores nessa nova visita a Algol. O número de personagens deveria ter aumentado o teor do enredo, com interações maiores entre os personagens. Os retalhos feitos na adaptação americana contribuíram muito para a falta de enredo. O jogo seria mais divertido com mais personalidade dos personagens uns com os outros. Suas histórias e motivações estão bem claras, teria sido as limitações do espaço no cartucho o principal problema para que essas interações não ocorressem?

1.000 anos se passaram e a história de Alis é pouco lembrada. Um ou outro cidadão de Motávia deverá lembrar que Alis decidiu ser a Rainha de Algol quando expulsou a Dark Force, mas pouco é mencionado a respeito do Phantasy Star I.

Ou seja, não, não estamos falando de um RPG perfeito. Por outro lado…

Vale a pena esse segundo Phantasy Star?

O que emociona os jogadores véios é perceber o avanço da civilização Algolana, passados 1.000 anos. A magia evoluiu. A tecnologia praticamente consertou Motávia. A tecnologia bélica está transformada com N melhorias.

O elenco teve um gigantesco aumento e, com isso, significativos momentos.

O enredo mostra um povo maravilhado com o grau de civilização alcançado e a completa negação de que Cérebro-mãe e seus sistemas não possam ter defeitos. Em certa ocasião, Rolf e seus amigos chegam a ser prisioneiros e, ao escaparem, estampam cartazes de procurados.

Rolf não viveu as aventuras de Alis, mas é digno de carregar consigo a tarefa de colocar seu universo nos eixos novamente. No papel dele, você representará a perseverança mediante a crise: um povo cego pelas tecnologias e confortos que o protegem, civilizações que guardam mágoa de seus colonizadores e os Dezorianos… mentirosos e tiradores de vantagens simplesmente porque não aceitam palmanos em seu gélido planeta, entre outros.

Phantasy Star é um RPG para perseverantes. Às vezes aguentamos calados por certas injustiças. Mas se a injustiça vai prevalecer, somente você pode decidir.

Sessão Spoilers — Pra quem ainda não jogou Phantasy Star II

Nei foi considerada um erro de laboratório, foi descartada por demonstrar compaixão com os humanos. Do contrário, ela seria uma das guardiãs do Laboratório de biossistemas.

Rudo não gosta da presença de Nei no grupo. Pudera, ele deve ter ficado traumatizado com os eventos que o levaram ao encontro de Rolf. Infelizmente, isso foi pouco explorado no jogo, provavelmente devido aos limites de adaptação dos sistemas japonês para americano.

Kain parece gostar muito de Nei, mas isso foi cortado da adaptação, certamente pelo mesmo motivo.

A morte de Nei é mais repleta de significado do que muitas mortes em RPGs por aí. Nei morre lutando pelos humanos e pela auto-afirmação de que pode fazer algo por eles, mesmo esses tendo lhe causado sofrimento em seu passado; Ela luta contra uma versão sua, Nei-first, que se mostra mais forte e impiedosa. A luta e seu resultado são dois dos momentos mais tocantes do jogo.

Noah está vivo e morando em Dezoris. Ele parece ter se conservado em uma cápsula de criogenia. Aqui, por questões de tradução, ele é chamado Lutz.

Nesta versão, o planeta Palma, que tinha características mais semelhantes à Terra, explode. Isso antes de você ter a chance de pisar nele e conhecer os avanços que o planeta tão querido teria alcançado, já que era o mais avançado cientificamente, 1.000 atrás.

O veredito:

Una-se a Rolf e vista sua armadura explorando novamente o Sistema Solar de Algol. Você se maravilhará com as criações científicas, reconhecerá (e não reconhecerá) lugares antes explorados, testemunhará eventos que mudarão o sistema como você o conheceu e dará o seu toque particular de estratégia ao jogo.

Claro, o jogo tem leves discrepâncias entre motivação e enredo. Por outro lado, encher a casa de Rolf de aliados e os chamar para o combate é emocionante. Você andará pelo desconhecido, pilotará máquinas gigantes e abrirá o horizonte com sua espada em busca da tão sonhada paz.

A aventura por Algol continua… Aguardo por vocês na próxima!


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