Review: Dandara [BR]

por Eduardo Paiva em 7 de fevereiro de 2018

Essa semana trago para vocês o primeiro review do ano! E logo de cara, um indie brasileiro: Dandara!

Origem e História

A desenvolvedora do game, a Long Hat House, foi criada em 2014 por dois amigos que fizeram faculdade juntos e resolveram se unir para fazerem o que gostam: criar games. Quantas histórias assim conhecemos e acabam se perdendo no meio do caminho? Perseverança é a chave. Para nossa sorte esses dois não desistiram, já têm um game lançado (Magenta Arcade) e agora nos trouxeram Dandara.

O jogo se passa em um mundo onde o balanço entre a criação e a intenção era uma realidade, e todos viviam e cresciam em harmonia. Entretanto, esse balanço foi quebrado em forma de opressão, trazendo desequilíbrio para todos. Seus habitantes, antes espíritos livres e felizes, agora vivem oprimidos e afastados uns dos outros, até que, direto do Berço da Criação, nasce Dandara, que muitos acreditam ser a chave para restaurar a paz e a tranquilidade de outrora.

Essa é a história contada no começo do jogo, e que me soou um tanto quanto abstrata. De onde surgiu essa opressão? Quem está impondo suas vontades? Algumas perguntas ficam sem resposta nesse início.

A protagonista do jogo, que tem seu nome no título, foi criada com base em Dandara dos Palmares, a esposa de Zumbi dos Palmares. Ela ficou conhecida por lutar pelos direitos de liberdade de todos os escravos e protegia com todas as forças a quem chegasse em seu quilombo em busca de refúgio. Sua contraparte digital possui esse mesmo espírito libertador: em suas mãos e ações está toda a esperança de que a paz e a liberdade voltem a fazer parte de seu mundo.

Nesse comecinho, me senti um pouco incomodado com “o sal”. A primeira frase do jogo é “O Sal já esteve em plena paz.” A energia de Dandara é baseada em sal e muitos outros itens tem sal no nome. Mas afinal, o que é o sal? É a moeda de troca do universo do jogo (assim como já foi em nosso mundo)? É a essência da criação? Entendo que nem tudo deve ser revelado no começo, mas para ter interesse em continuar e procurar saber mais, um mínimo deve ser apresentado a quem está experienciando a aventura.

Apresentação

O mundo de Dandara é introduzido ao jogador através de gráficos 2D em pixel art caprichado. Para quem é brasileiro, inúmeras referências podem ser encontradas, como personagens com nomes conhecidos de nossa cultura. Alguns cenários parecem futuristas e com um toque cyberpunk, outros parecem antigos, abandonados e místicos. É uma mistura bem peculiar que cria uma atmosfera única para o desenrolar dessa história.

Os inimigos também parecem ter sido pensados com diferentes referências em mente. Tem os que parecem criaturas alienígenas vindas de um planeta distante e outros que parecem remanescentes de antigas civilizações. Durante alguns diálogos, eles são chamados de exército eldariano e seria interessante saber um pouco mais sobre eles. Essa mistura de referências nem sempre funciona a favor, mas vemos aqui um trabalho de design inspirado que consegue construir uma identidade visual única e forte.

Personagem chamada Tarsila (do Amaral) e com design inspirado em Abaporu, sua obra mais famosa.

A trilha sonora é calma e introspectiva, estimulando a reflexão e a imersão na jornada de Dandara. Parece música de meditação. E, exceto em alguns momentos chave onde há uma mudança de ritmo e intensidade, ela mantém a cadência e continuidade dos sons. Gamers mais animados vão sentir falta de uma trilha sonora mais acelerada e estimulante, que são comuns em jogos desse estilo.

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Gameplay

O jogo é um metroidvania, como eles mesmo o chamam, que consegue trazer novidade a esse gênero com uma mecânica de movimentação única. Já pensou em um jogo onde você não consegue andar? Pois é, em Dandara você não consegue. No mundo do game, a gravidade funciona como elemento principal para sua movimentação, ora ajudando, ora atrapalhando. Fato é que você atravessa as salas e áreas do jogo, pulando. Há inúmeros lugares nas paredes, chão e teto onde você pode se deslocar, mas não são todos. É uma forma diferente de se jogar e que, acredito eu, foi criada com os smartphones em mente.

O título está disponível para Nintendo Switch, Xbox One, PS4, PC e também na Play Store para dispositivos Android e App Store, da Apple. Demora um pouco para se acostumar e no computador, o uso de um joystick é altamente recomendado.

Para atravessar os mapas cheios de inimigos, você conta com um tiro que pode (e deve) ser carregado. Você pode mirar onde quiser e cada disparo possui 4 projéteis. Para alcançar o dano máximo, você deve conseguir acertar os quatro disparos em seu alvo. Ao longo da sua aventura, você adquire outras armas e itens que adicionam um pouco de variedade ao gameplay de Dandara. Não é nem preciso dizer que tais itens lhe permitem acesso a áreas do jogo que você não conseguiria antes, afinal, estamos falando de um metroidvania. Upgrades podem ser feitos tanto na saúde quanto na energia gasta para uso das armas especiais. E isso é possível através do uso de apelos de sal, que podem ser coletados matando inimigos e explodindo caixas.

Dandara é um game desafiador. Nesse aspecto, lembra muito os games antigos onde a dificuldade era mais elevada. Só o ato de se locomover sem ser atingido, por si só, já é difícil em determinados momentos. Um grande problema é quando você morre e o jogo te pune de forma errada.

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Os acampamentos são checkpoints onde você salva o seu progresso e faz os upgrades, e estes são escassos e distantes uns dos outros. Toda vez que você morre, volta para um deles. Mesmo quando está batalhando contra chefes e sub-chefes, você volta para o último acampamento usado e tem que fazer o caminho todo de novo. Isso desanima e impõe uma dificuldade desnecessária, ainda mais quando você perde todos os apelos de sal que possuía, tendo que voltar até onde você morreu para recuperá-los. Voltar para a última sala antes de morrer já seria o suficiente para continuar a exploração sem ter que refazer tantos caminhos. Se um jogo é feito para você morrer várias vezes, o próprio ato de morrer não pode ser um obstáculo para que você continue interessado em progredir.

Outra coisa que também atrapalha de forma desnecessária é o mapa. Como disse no começo, a gravidade é um elemento principal do jogo. Às vezes, as salas mudam de ângulo dependendo de qual porta você entrou (e também muda quando você está dentro dela), só que o mapa não acompanha essa rotação e está sempre na mesma posição. Várias vezes me peguei fazendo essa rotação mentalmente, para saber onde estava a porta que eu queria chegar.

Veredito

Se você conseguir passar por cima desses problemas, encontrará em Dandara um game com level design de primeira, onde a maioria das salas possuem puzzles para serem atravessadas e a precisão e timing na execução dos movimentos será de extrema necessidade para seu progresso. A gravidade (ou falta dela) e a capacidade de Dandara de se agarrar na maioria das superfícies porporciona uma experiência nova e desafiadora.

Depois que você consegue se acostumar com essa forma diferente de locomoção, começa a prestar atenção no mundo que está sendo proposto para você, onde o antigo e o tecnológico se combinam de maneira orgânica. Em cenários tão encantadores, é uma pena não ter mais informações sobre sua criação, habitantes e ameaças.

É sempre bom ver nossa cultura sendo explorada em outras mídias além da televisão. No mundo dos games, onde há tanta diversidade de mundos, gêneros e histórias, ainda existe um grande espaço para ser preenchido por iniciativas nacionais. Que bom que a Long Hat House está apenas começando. Não vejo a hora de ver um game dessas mentes talentosas voltado apenas para PC e consoles, deixando um pouco de lado a jogabilidade para telas touchscreen.

Dandara foi lançado no dia 6 de Fevereiro de 2018, mesmo dia em que, no ano de 1694, Dandara dos Palmares suicidou-se logo após ser capturada, preferindo a liberdade após a morte do que voltar à vida de escrava.


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