Rocky (Master System) traz o Garanhão Italiano aos 8 bits

Fabio Zonatto / 8 de agosto de 2017 / Análises, Master System

Antes de falarmos sobre Rocky, vale ressaltar o quase óbvio: todo o cinéfilo que se preze deve conhecer muito bem o trabalho de Sylvester Stallone, já um mito na indústria – e nem sempre pelos melhores motivos possíveis.

Embora tenha emplacado com dois verdadeiros ícones encarnando o soldado John Rambo e o boxeador Rocky Balboa (a estrela deste artigo) e feito história ao retratar a história de ambos até o finalzinho (sendo que Rocky já passou seu legado em “Creed: Nascido para Lutar”), a Academia de Cinema – aquela responsável por geralmente premiar filmes ultra-chatos e torcer o nariz para explosões, monstros gigantes e tudo o mais que é legal na hora de distribuir suas estatuetas do Oscar – tende a ter calafrios diante da maioria da filmografia do ator.

Mas nós realmente nos importamos com o que eles pensam? Claro que não!

Neste artigo, vamos relembrar seu clássico cartucho para o Master System produzido e lançado pela Sega em 1987 que conta a trajetória do “Garanhão Italiano” Rocky Balboa em seus primeiros quatro filmes (o jogo chegou às prateleiras alguns anos antes de “Rocky V” estrear nos cinemas).

…Se bem que dizermos algo como “conta a história” é colocar um ponto realmente positivo nas coisas, já que neste aspecto o cartucho não poderia ser mais vago, infelizmente.

Você chegou a encontrar este título em sua locadora preferida durante os tempos dourados do videogame? Ou jamais nem mesmo soube de sua existência? Para refrescar sua memória – ou lhe apresentar uma pérola (meio suja, mas preciosa) esquecida – o Véio já colocou suas luvas de boxe e seu calção brilhante (só não tirou a camisa para não passar ainda mais vergonha) e prepara-se agora para a luta principal na majestosa Mandalay Bay – bora pro FIGHT!

Primeiro Assalto: mas cadê a história de Rocky Balboa?

Rocky para o Master System engana muito bem enquanto “jogo em homenagem à franquia cinematográfica” a partir do momento em o jogador já assistiu aos filmes anteriormente. Se este for o caso e você já for um fã inveterado da saga de Rocky e de sua amada “Aaaaaaadriããããnnnn…” (imagine este berro com a voz do Stallone), pode nem notar algo simplesmente crítico neste cartucho: não há história alguma!

No jogo, você controla o “Garanhão Italiano” em pessoa e deve enfrentar três oponentes inesquecíveis para tornar-se o campeão mundial de boxe: Apollo Creed, Clubber Lang e Ivan Drago. Traz algumas boas memórias, não?

A grande bola fora é que a Sega não fez qualquer esforço em dizer quem são aqueles bois de calções coloridos sobre o ringue. Isto significa que, para aqueles incautos jogadores que jamais assistiram aos filmes (opa, opa, sem julgar ninguém heim?), temos ali simplesmente Stallone lutando com uma cambada de punks genéricos. Como já dissemos na versão para o Master de Shinobi, agora repetimos: mas que mancada, não Sega?

Então, para revisarmos (e muito) toda uma boa e enorme história contada ao longo de décadas somente para ambientarmos Rocky para o Master System, façamos aqui uma rápida retrospectiva:

  • No “Rocky” original (1976), temos o início de tudo. Um desconhecido e sonhador lutador italiano acaba sendo escolhido para enfrentar o campeão mundial de boxe, Apollo Creed (interpretado por Carl Weathers). Assim, a primeira luta do jogo será contra ele;
  • Já em “Rocky II” (1979), o herói vivido por Stallone tem uma revanche contra seu já rival Apollo. Sendo novamente o mesmo adversário, o jogo simplesmente ignora este segundo combate – digamos que ele resume dois filmes em uma única luta. Que é isso Master, sabemos que você podia ter feito melhor… Certo, Kenseiden?
  • Na sequência, tivemos o Garanhão já campeão mundial a encarar o convencido Clubber Lang (eternizado pelo canastrão Mr. T). Esta luta é vista em “Rocky III” (1982), e será seu segundo desafio no jogo;
  • Por fim, o derradeiro combate do cart é contra o vilanesco soviético Ivan Drago (Dolph Lundgren), o nêmese do protagonista em “Rocky IV” (1985). Assim sendo, temos um total de somente três combates no jogo todo.

Segundo Assalto: uma luta épica… Contra os controles

A mecânica de jogo experimentada em Rocky pode até parecer tão simples quanto o pequeno joystick de dois botões do Master System, mas isto é só fachada: se você quiser mesmo aprender como bater “bonito” nos confrontos, prepare-se para uma verdadeira batalha contra os comandos.

Você conta com um botão para bloquear e outro para desferir socos. No início, o bloqueio é até dispensável, pois é possível sentar o dedo no soco e detonar uma grande parte da energia do oponente sem muito esforço. Claro que isso logo muda, e serão os adversários que vão começar a chutar o seu traseiro pra valer. É aí mesmo que os golpes especiais devem entrar em cena.

…E também é neste exato ponto que começa a complicar todo o meio de campo.

Segundo o próprio manual de instruções que acompanha o jogo – referência com a qual muitos de nós, brasileiros que alugavam o jogo em capinhas pretas, não puderam contar – há uma boa variação de socos que podem ser combinados para formarmos sequências. Somente apertando-se o botão 2 temos um jab curto, porém mantendo-se certa distância do oponente e combinando o botão 2 com o direcional, o manual afirma que podemos desferir diretos, cruzados e ganchos.

A movimentação também é bem estranha, já que o jogador não pode se mover livremente pelo ringue somente utilizando o botão direcional. Algumas “condições” precisam ser obedecidas para que Rocky possa avançar ou recuar, e muito disso é ditado por sua atual condição na luta: você parte para cima do oponente quando engata no ataque, e retrocede para as cordas quando na defesa.

Na leitura teórica, tudo parece funcionar perfeitamente. Porém, para a maioria dos jogadores casuais, a coisa toda mais parece ser resumida por uma única instrução: “aperte tudo de forma aleatória e torça para o melhor acontecer”

…O que não poderia estar mais longe da realidade! Já veremos isto a seguir.

Terceiro Assalto: entendendo a arte de socar brucutus

Se você acostuma-se com a grande facilidade do primeiro combate contra Apollo Creed, terá sua cabeça quase decepada por Clubber Lang já na segunda luta. Neste ponto, vale lembrar que este título do Rocky para o Master apresenta apenas três adversários, portanto espere uma escalada desleal na dificuldade de um combate para o outro.

A estrutura de jogo é composta por 6 estágios distintos, sendo 3 fases de treino (que funcionam como estágios-bônus) preparatórias e 3 confrontos contra os clássicos oponentes dos filmes. Verdade seja dita, as fases de treino são um tanto quanto maçantes e repetitivas, uma vez que basta apertar o botão de soco de forma desesperada na maioria delas. A questão por aqui é que, mesmo que você não faça absolutamente nada nestes treinos (não aperte botão algum), eles não o impedirão de passar para a próxima luta.

“Então estes estágios estão lá somente para nos amolar e podemos ignorá-los por completo?”, você pergunta. E a resposta é direta: Não, não mesmo!

Cada treino, se completado cumprindo-se as exigências estipuladas pelo jogo, garantem à Rocky algum tipo de recompensa. Estes bônus podem vir na forma de um aumento na força de seus golpes ou até no aprendizado de um novo combo. Fato é que, sem a recompensa do terceiro treino – uma nova sequência de dois jabs com gancho – é virtualmente impossível derrotar o soviético Drago.

Ademais, embora pareça que os tais bônus concedidos pelos treinos não façam lá muita diferença no gameplay, você vai precisar sim de toda a ajuda possível já a partir do segundo desafio. Clubber Lang foi para incontáveis jogadores o motivo de terem desistido do jogo, tamanha a dificuldade do combate – mas até contra ele existe uma estratégia infalível.

Resumindo o desafio de Rocky em mais algumas poucas palavras: treine, estude e invista tempo para melhorar seu gameplay. Mesmo que o jogo pareça ter, em temos de trama, a profundidade de um pires de café, a jogabilidade dele é bastante desafiadora e requer uma boa curva de aprendizado.

É fã dos filmes? Está aí mesmo um bom desafio para você.

Quarto Assalto: o departamento técnico de Rocky no Master

Em termos técnicos, o Rocky do Master System impressiona logo num primeiro momento pela qualidade gráfica: a definição observada nas figuras dos lutadores, do ringue/público e nos modelos de treinos é realmente muito boa para os padrões do 8 bits da Sega. Nestes treinos, por exemplo, a expressão de Stallone fica bem representada pelos pixels que o compõe.

Até os detalhes do calção de Rocky – branco durante a primeira luta e nas cores da bandeira norte-americana para os demais confrontos – foram levados em conta, o que torna a ambientação muito mais fiel aos filmes.

O ponto negativo vai para a paleta de cores limitada nas telas de menus (uma imensidão azul-céu) e aos já citados poucos personagens vistos no cartucho, que são elementos os quais realmente incomodam principalmente àqueles fãs que sabem que a franquia do boxeador tem muito mais a oferecer que somente um punhado de treinos e três simples combates.

Porém, após contabilizarmos estes detalhes negativos, a estratégia da Sega em “pensar pequeno, mas com qualidade” até que colou bem por aqui.

Já na parte sonora, temos talvez a maior decepção do cartucho. Não que este setor peque pela falta de qualidade – as canções originais e energéticas aliadas aos efeitos nítidos e empolgantes fazem bem o seu papel e complementam perfeitamente a experiência de jogo.

O problema mesmo é a completa ausência de canções icônicas da série, como “Eye of the Tiger”, “Hearts on Fire”, “No Easy Way Out” e até do inconfundível tema clássico. Dada a enorme importância das trilhas sonoras para os momentos mais marcantes dos filmes, esta é verdadeiramente uma falha das mais imperdoáveis.

Será mesmo que a Sega não teria conseguido licenciar nenhuma destas canções para uma versão em MIDI em seu cartucho? Fica a pergunta – provavelmente a jamais ser respondida – no ar.

Último Assalto: eterno Rocky, eterno jogo!

Agora eu, Fabio Zonatto, quero trazer você, leitor, à par de um grande dilema que, vez por outra, um redator tem de enfrentar: dado o fato da esmagadora maioria de reviews já feitos sobre o Rocky para Master System terem sido para mitologicamente detonar o jogo, por que então este review do Jogo Véio não foi lançado em nossa coluna Nota Zero?

Devo admitir que as lembranças que eu particularmente tinha deste cartucho não eram mesmo das melhores: ser espancado impiedosamente pelo Lang tantas vezes seguidas garantiu que eu não alugasse mais o jogo após a segunda tentativa. Criei até mesmo uma certa raiva dele. Então, veio-me a ideia de trazê-lo para os leitores do Véio em um saudoso repeteco, o que me obrigou a quebrar aquela antiga carapaça rancorosa debaixo da qual eu havia guardado este cart em minha memória ao revisitá-lo.

O resultado foi espantoso: o que umas boas duas décadas a mais de vivência não fazem por seu julgamento crítico!

Rocky é um título de muitas qualidades, apresentando gráficos muito bonitos e trabalhados para os padrões 8 bits, além de uma jogabilidade que, embora pareça uma bagunça à primeira vista, é bem trabalhada e técnica – o que só é descoberto após algum tempo de dedicação ao jogo.

Após pegar-se o jeito dos golpes e do esquema de movimentação ofensiva/defensiva, derrotar estes humildes três oponentes passa a ser um desafio extremamente gratificante quando finalmente vencido. Você também apanhou pra caramba do Clubber Lang em sua infância? Talvez seja hora de uma revanche… Você não tem ideia do quanto foi bacana para mim ter feito aquele falastrão beijar a lona, 23 anos depois da surra épica que levei contra ele.

Então fica aqui a recomendação do Véio: dê uma chance – ainda que seja uma nova chance – a este atualmente tão injustiçado jogo. Controlar Rocky “The Italian Stallion” Balboa em pessoa é sempre uma grande emoção. Basta baixar um pouco o som da TV e colocar um Survivor para tocar no talo que você entrará de imediato na atmosfera inesquecível do eterno campeão do boxe – e das frases motivacionais!

Vídeos

Rocky (Master System): Longplay – Fonte: World of Longplays

Dicas

Como vencer os três oponentes de Rocky

Já que o jogo é bem curtinho, segue aqui uma estratégia bacana pra você terminá-lo sem detonar seu joystick de frustração. Lembrando que, para enfrentar seus adversários, um bom domínio dos controles ainda é imperativo – portanto trate de praticar bastante, ou a Adrian vai ficar bem desapontada com você…

  • Apollo Creed: no treino com o saco de areia, tente atingir um placar de 85 acertos – o melhor possível. Contra Apollo, o negócio é combinar muitos jabs e diretos na cabeça, sem dar tempo a ele de contra-atacar.
  • Clubber Lang: durante o segundo treino, que é de velocidade, você precisa atingir uma média de 7 golpes. Este resultado é muito importante, pois também lhe dará uma vantagem na luta final contra Ivan Drago. Já Clubber Lang tem um estômago ultra-sensível, então o negócio é apostar pesado em combinações na linha da cintura.
  • Ivan Drago: na última sessão de treino com o técnico Mickey, seu objetivo é marcar um placar de 80 acertos ou mais. Caso tenha obtido um resultado de 7 no treino anterior contra Lang, o confronto contra Drago será muito menos complicado.
    O soviético até dá trabalho, porém o novo combo ganho nos treinos – jab, jab e gancho – será uma arma letal contra ele. Basta usar e abusar desta sequência e não tem erro: é cinturão na certa!

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