Sega CD – uma sombra de revolução em Compact Disc que jamais decolou

Fabio Zonatto / 30 de junho de 2017 / Colunas, Especial

Quando imaginamos uma infância gamer nos anos 90, logo nos vem à mente os jogos em cartuchos/fitas e belos gráficos coloridos em pixels e sprites. Da mesma forma, talvez as primeiras memórias de muitos quando falamos em “primeiros jogos em CD” sejam consoles como o PlayStation, o Sega Saturn e o Neo Geo CD… Mas a história nos diz outra coisa.

Aqui no Brasil – salvo alguns colecionadores e uns poucos verdadeiramente sortudos – quase ninguém chegou a ver pessoalmente um TurboGrafx-CD, um Philips CD-i ou ainda um dos muitos modelos de 3DO. Com o momento econômico em crise no início dos noventa, já era privilégio para poucos ter um simples Mega Drive ou Super Nintendo em casa, que diria então uma plataforma em CD com a tecnologia “mais quente” daqueles tempos. E então, em 1993, a sempre fiel Tec Toy nos trouxe o incrível Sega CD – periférico que transformava o Mega Drive em um verdadeiro videogame do futuro!

…Ou era o que pensávamos quando namorávamos o atraente aparelho nas vitrines de lojas em shoppings. A verdade é que aqueles que não tiveram grana para investirem em um Sega CD foram poupados de alguns problemas, entre os quais a dificuldade em encontrar-se jogos da plataforma em locadoras (ou à venda a preços acessíveis) e a simples desilusão em perceber que, embora contando com alguns incríveis títulos, o Sega CD simplesmente “chegou à frente de seu tempo”. Tanto mais poderia ter sido realizado neste acessório se a tecnologia da época e sua acessibilidade tivessem ajudado!

Com isto em mente, sabemos hoje que o Sega CD infelizmente não passou de um projeto ambicioso e muito bem-intencionado, porém fora de seu tempo, o que o fez ser executado de forma abaixo das expectativas e nos incitou muitas discussões atuais sobre “como poderia ter sido” e “o que mais poderiam ter feito” com este notável hardware. Por quê hoje muitos de nós enxergamos esta que, após os PCs, foi a primeira grande plataforma de jogos em Compact Disc difundida em nosso país como um infame e retumbante fiasco?

Nesta matéria, vamos dar uma olhada geral na história do Sega CD e em como ele impactou no legado que a Sega deixou na história dos videogames. Quem nunca teve muita proximidade com o aparelho poderá conhecer mais sobre ele em nossa abordagem, na qual procuramos relembrar aspectos técnicos e comerciais, além de algo que de fato importa bastante: a qualidade da diversão que podemos ter ao jogá-lo. Isto sem nos esquecermos também da marca deixada em definitivo por este tão controverso aparelho no caminho da tecnologia que hoje nos trouxe à era de titãs completamente impensáveis naqueles já longínquos anos 90.

Se hoje você torce o nariz ao ouvir o nome deste pedaço de antiguidade vanguardista, vale a pena nos acompanhar neste texto para descobrir que o saudoso Sega CD valia muito mais do que costumamos achar hoje em dia – e que ele definitivamente merece um lugar de respeito na história brasileira dos videogames!

Ficha técnica do Sega CD

As principais características do aparelho sem dúvidas são suas capacidades de aumentar enormemente a memória e processamento do Mega Drive: o Sega CD adicionava 6 Megabits de RAM e um CPU Motorola 68000 extra, que trabalhando em conjunto com a CPU Motorola do Mega (só que em uma freqüência superior: a do 16 bits rodava em 7,8 MHz, enquanto que a do periférico CD o fazia em clock de 12,5 MHz), literalmente dobrava a potência original do console.

Porém, um ponto crítico na engenharia do acessório que atraiu diversas críticas por parte da mídia e dos consumidores na época referia-se a incapacidade do Sega CD em funcionar sozinho, ao mesmo tempo que necessitava de sua própria fonte de alimentação – exatamente como se fosse um hardware dependente de outro, porém um aparelho à parte ao mesmo tempo. Quem aqui não tem/teve um e passou um sufoco tentando acoplar as duas fontes em um pequeno benjamim? O negócio era partir para a extensão mesmo… Uma dor de cabeça.

Embora sua unidade de leitura de discos contasse com somente uma velocidade, ela era vista como de boa potência para os padrões técnicos da época. Isso de qualquer forma não impedia o Sega CD de fazer um tremendo barulho de impressora matricial em alguns momentos: você ficava achando que o processamento dele iria estourar o aparelho a qualquer momento!

Seguem na sequência, os dados técnicos sobre nossa estrela do momento:

  • Processador: CPU Motorola 68000 de 16 bits, trabalhando em clock de 12,5 MHz. Enquanto opera jogos em formato de cartucho do Mega Drive, o CPU do Sega CD fica em modo de espera – porém ao reproduzir jogos em CD, este processador extra trabalha em conjunto com o Motorola do Mega para duplicar a potência;
  • Memória: RAM principal de 6 Megabits, CD-Rom de 128 Kbits e RAM de áudio de 512 Kbits para PCM. Conta ainda com um Backup de 64 Kbits;
  • Gráficos: 512 cores disponíveis, sendo que no máximo 64 destas podem ser reproduzidas simultaneamente na tela. Também pode exibir efeitos como Rotating, Scalling e Zoom, além de executar vídeos em formato FMU com até 256 cores (capacidade utilizada somente em Eternal Champions: Challenge from the Darkside);
  • Áudio: 8 Canais PCM Stereo, com 6 Canais FM, 3 Canais PSG e mais 1 destinado ao PWM;
  • Mídia: CD-Rom de 1X (150 kbps), com velocidade de acesso de 800ms;
  • Portas de entrada e saída: Slot para comunicação com o Mega Drive, entrada de linha e saída de linha RCA;
  • BIOS: a BIOS do Sega/Mega CD muda dependendo do modelo do aparelho, sendo todas com capacidade de ROM de 1 Megabit. Ela é acionada na reprodução tanto de jogos, quanto de CDs de música através do Player e também execução de Karaokê.

A chegada e impacto no mercado noventista

Tecnicamente, o Sega CD (conhecido como Mega CD no Japão, país onde foi originalmente lançado) é meramente um acessório de expansão para o Mega Drive tradicional que lhe aumenta as capacidades de processamento e memória. Apesar de trazer a tecnologia do CD aos 16 bits da Sega, ainda fez parte da chamada quarta geração de videogames.

Seu lançamento aconteceu primeiramente no Japão, em dezembro de 1991, onde conseguiu bons números de vendas somente durante as primeiras semanas pós-lançamento – como bem sabemos, o país nipônico era amplamente dominado pela Nintendo naquela época, e nem mesmo o Sega CD foi capaz de mudar isto. O periférico só chegaria à América do Norte em outubro de 1992, onde receberia uma aceitação muito melhor. Já em 1993, a plataforma CD chegaria à Europa e, dias após, também ao Brasil com assessoria da nossa querida Tec Toy.

O principal objetivo da Sega com este novo aparelho era o de competir com outras empresas que já começavam a investir na mídia CD – a NEC com seu TurboGrafx-CD e o CD-i da gigante Philips eram dois bons exemplos de adversários (ambos também de 1991).

Lá fora, o acessório foi recebido com reações mistas: enquanto a capacidade extra do CD permitia bons games que podiam reproduzir vídeos no formato Full Motion Video (ou simplesmente FMV), a grande maioria dos jogos lançados durante a vida do aparelho – uma biblioteca com mais de 200 títulos – eram considerados meras versões de jogos do Mega Drive com poucas melhorias técnicas. Muitas mídias norte-americanas acusaram o Sega CD de ser apenas um “grande dispositivo de memória extra com som em CD” para o Genesis, uma vez que sentiam que a capacidade do CD não estava sendo totalmente aproveitada pela Sega.

Porém, com o fracasso da Nintendo em também produzir para seu SNES um periférico em CD (sendo que, do final de sua parceria com a Sony, teríamos o nascimento do primeiro PlayStation – e ainda vamos contar esta história no Jogo Véio…), a Sega pôde aproveitar esta fatia do mercado para alavancar-se sobre a poderosa concorrente. Isto funcionou bem na América do Norte (e no Brasil) e também na Europa, mas causou pouco efeito no mercado japonês.

Aqui em nossa terra adorada, o Sega CD chegou tímido e não se mostrava de muitos amigos: o preço do acessório não era nada barato, e a necessidade de ter-se também um Mega Drive complicava muito as coisas para quem nem o 16 bits trazido pela Tec Toy tinha ainda em casa. Alguns estabelecimentos maiores investiram em jogos do Sega CD para disponibilizá-los à locação, porém poucos destes de fato adquiriram aparelhos para serem jogados na própria loja. Isso era uma tremenda raridade!

Uma vida controversa em CDs e cartuchos

Desde o planejamento deste periférico do Mega Drive, as coisas já começaram de forma controversa: desenvolvido totalmente pela Sega do Japão, a divisão Sega of America simplesmente foi deixada de fora de qualquer processo de criação. O pessoal norte-americano nem mesmo chegou a receber da sede nipônica uma unidade protótipo do Sega CD que funcionasse durante esta fase de desenvolvimento: eles tiveram que, na base da boa e velha “gambiarra”, juntar peças de unidades-teste para obterem um aparelho que minimamente lhes mostrasse como o periférico em CD funcionaria. Segundo Michael Latham – produtor executivo da Sega of America naquela época – os japoneses não queriam que a central americana possuísse uma unidade completa do Sega CD pois tinham grande receio de que alguém por lá acabasse por vazar imagens e/ou especificações técnicas do aparelho na mídia. O projeto deveria ser mantido em sigilo absoluto até quase o momento de seu lançamento.

Após chegar ao mercado e começar a lutar por seu lugar ao sol, o Sega CD começou a fazer algum sucesso principalmente por sua capacidade de reproduzir jogos que, para a época, mais se pareciam com filmes: o clássico (e hoje completamente obsoleto) formato FMU permitia que trechos de demonstração e até mesmo jogos inteiros fossem reproduzidos em cenas gravadas com atores reais. Desta forma, títulos como Sewer Shark, Night Trap, Tomcat Alley, Prize Fighter, Mad Dog McCree, Double Switch e outros clássicos logo ganharam os holofotes de um mercado que jamais havia visto tal tecnologia nos videogames domésticos. Além dos baseados em filmagens reais, também tínhamos os jogos que rolavam com animações completas como Road Avenger, Time Gal e Dragon’s Lair.

Além dos jogos em FMU, o Sega CD também trouxe algumas verdadeiras pérolas no tradicional 2D de pixels coloridos: por muitos considerada a melhor versão de toda a franquia, Sonic the Hedgehog CD chegou detonando ao pegar tudo que já havíamos visto no Mega e elevar ao sétimo sentido do cosmo. Outros títulos que receberam grande destaque dentro deste estilo foram Lunar: The Silver Star, Shining Force CD, Dark Wizard, Snatcher, Heart of the Alien, Batman Returns (e sua inesquecível fase pilotando o bat-móvel) e o ambicioso Eternal Champions: Challenge from the Dark Side. Outros ainda ousavam apelarem para ambientes e elementos construídos completamente por polígonos, como o grande Silpheed.

Mas nem só de bons jogos é composta a trajetória do Sega CD: o principal foco de muitas críticas negativas que bombardearam o aparelho (além de questões técnicas aqui já citadas, como a necessidade deste possuir sua própria fonte de alimentação) foram as versões – ou “ports” – de games originalmente lançados para o Mega Drive que pouco ou quase nada acrescentavam aos jogos: Mortal Kombat CD, Brutal: Paws of Fury e Ecco: The Tides of Time são infames exemplos de como puderam pegar jogos de cartucho, adicionarem toneladas de “Loading Times” intermináveis e detonar com a diversão e ânimo de qualquer um antes mesmo de começar a jogatina.

Além disso, o título em FMU Night Trap ainda caiu na malha fina dos congressistas norte-americanos e europeus conservadores, isto ao engrossar juntamente com Mortal Kombat os argumentos de que “os jogos de videogame eram violentos demais para as crianças”. Night Trap foi tido como outro dos grandes responsáveis pela criação do órgão classificatório Entertainment Software Rating Board – o ESRB que hoje deixa seus selos nas capinhas e pré-créditos dos jogos.

Os diferentes modelos do Sega CD na história

Algo que confundiu a muitos brasileiros naqueles tempos pré-internet era o fato de que, em muitas revistas especializadas, o Sega CD apresentado era diferente daquele trazido pela Tec Toy encontrado nas lojas pelo país: “Mas por quê o da revista é encaixado embaixo do Mega e o da loja encaixa na lateral do console?” era a pergunta que alguns faziam.

Bem, eu admito que não era um dos garotos mais observadores em minha tenra idade, por isso somente notei muitos anos depois que o modelo que aparecia nas publicações como Ação Games, SuperGame e Videogame vinha acoplado à um Mega Drive modelo II, enquanto que o Sega CD lateral é visto anexado ao modelo III, mais compacto que o antecessor. Obviamente porque os encaixes de conexão dos aparelhos ficavam dispostos em locais distintos, irremediavelmente também o modelo do Sega CD teria de ser diferente… Mas um dos principais motivos para a existência de um segundo tipo de periférico era na verdade a redução dos custos de produção para a Sega.

O chamado “Sega CD 1” tinha incorporado à ele uma unidade de leitura de CDs motorizada, que segundo a empresa era um dos principais elementos que impedia que o custo do aparelho pudesse ser menor. Não demorou muito e a Sega lançou o segundo Sega CD, desta vez substituindo o leitor de CDs interno por um externo e notavelmente apresentando um tamanho menor que o modelo anterior.

Aqui no Brasil, o modelo que tivemos disponível para compra em lojas comuns era exatamente este segundo Sega CD de valor mais baixo, sendo que se quiséssemos adquirir a primeira versão do aparelho, precisávamos apelar para as lojas de importação. Após algum tempo, a Sega lançou ainda o modelo Sega CDX, que também aportou em território Tupiniquim graças a Tec Toy sob o nome comercial de Multi-Mega CDX. O mais impressionante nesta última versão produzida pela empresa japonesa era que o aparelho reunia em um só o Mega Drive e o Sega CD de forma ultra-compacta, que ainda podia ser usado como um discman (ou CD Player) portátil.

O legado do Sega CD – uma revolução esquecida por muitos

Negar que a Sega tenha tomado péssimas decisões com seus periféricos de aprimoramento do Mega Drive – não nos esqueçamos que, além do Sega CD, também tivemos o infame 32X – é missão somente para os seguistas mais fanáticos do mundo: simplesmente não dá para esquecer que a mamãe do Sonic disparou diversas bolas foras e que atingiram a trave no tocante ao direcionamento que tomaram com estes aparelhos. Mas é só de tristeza que hoje vive o legado de plataformas visionárias como o Sega CD? Jamais! Não cometamos tamanha injustiça.

Como já falamos aqui, tivemos dezenas de jogaços lançados para o CD do 16 bits, que com certeza hoje ainda valem (e como valem!) um gameplay – seja para conhecê-los ou simplesmente para relembrar aqueles momentos mágicos que alguns sortudos entre nós tiveram ao sentirem-se jogando um filme de Hollywood ou um petardo dos fliperamas no conforto de sua sala ou quarto.

Ainda me lembro dos jornaizinhos do Sega Club (obrigado, Tec Toy!) chegando pelo correio e anunciando os vindouros lançamentos do Sega CD… e do quanto sou grato até hoje pela Shock Vídeo, lá em Itaquera, bairro da zona leste de São Paulo onde cresci, ter adquirido tantos bons títulos da plataforma – aluguei tanto seus jogos que sempre tinha algo para explorar em meu Sega CD!

Também não dá pra esquecer a campanha da Tec Toy para promover o Sega CD no Brasil: alguém aí lembra-se de ler nas revistas da época anúncios sobre “Bem-vindo ao Mundo Animal”, “Siga Sega” e “Bem-vindo a próxima fase”? Novamente o genial departamento de publicidade da empresa trabalhando muito bem para trazer os jogos da Sega aos nossos lares.

Aqui no Véio, vamos trazer ainda muitos destes tesouros esquecidos novamente à luz do dia: então preparem-se para o cheiro de naftalina. Vamos atacar de Dr. Grant e desenterrar o legado desta plataforma que tanto nos trouxe em termos de tecnologia, tradição e atual nostalgia. Porque aqui o negócio é assim mesmo: retrogaming de verdade, tirado lá do fundo do baú!

Vídeo

Comercial “Siga Sega” veiculado na TV brasileira após o lançamento do Sega CD – Fonte: Retro Games TV Commercial HD

30 dos melhores jogos de Sega CD – Fonte: Old Style Gaming

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