Street Fighter (Arcade) – Há 30 anos, nós vamos ao encontro do mais forte!

Fabio Zonatto / 31 de maio de 2017 / Análises, Arcade

Lendas como a saga Street Fighter não nascem ao acaso, e sim são elas forjadas com muito trabalho e esforço. Está pronto para mergulhar de cabeça nas origens da franquia?

Diferente de muitos casos, o jogo que deu origem ao monstro tradicional e comercial que hoje chama-se “Street Fighter” não tem suas raízes tão conhecidas em meio à comunidade gamer: são muitos os veteranos que não possuem nenhuma lembrança da série antes de Street Fighter II, lançado em 1991. Mas a história de sucesso desta franquia data de anos antes, em 1987, quando o jogo original chegou aos Arcades – e mesmo não tendo todo aquele alarde esperado, aquele cart ditaria muitos dos “mandamentos” que os títulos de luta seguem até hoje. Até mesmo seu então futuro maior rival Mortal Kombat aprendeu muito por aqui!

Só para se ter uma idéia, na equipe de produção da Capcom para o Street Fighter original encontramos nomes como o de Takashi Nishiyama e Hiroshi Matsumoto, que mais tarde uniriam-se aos estúdios da SNK para desenvolverem outras séries de luta como Art of Fighting e Fatal Fury. Além disso, cuidando dos modelos gráficos dos personagens estava ninguém menos que Keiji Inafune, que seria no futuro o responsável pela arte da franquia Mega Man.

Agora nos diga com sinceridade: com um time destes, esses caras sabiam ou não o que estavam fazendo? Só fera!

Observar ou realizar um gameplay deste clássico Street Fighter é sem dúvida alguma viajar ao passado, aos primórdios dos títulos de pancadaria. Isso porque o jogo oferece um tipo de ação que mais assemelha-se a um apanhado de batalhas contra chefões de algum beat’em up que a atmosfera que hoje sentimos – é realmente bem interessante observarmos como os programadores ainda tateavam e desbravavam por caminhos desconhecidos procurando  encontrarem o “feeling” correto que elucidaria nosso conceito do que no futuro seria um jogo de luta.

Falando em “conceito,” muitos dos que foram criados aqui sobreviveriam por décadas após seu lançamento. Entre os personagens, alguns destes também já estavam destinados à grandeza máxima – como é o caso de Ryu, Ken e Sagat. Mas sejamos francos ao reconhecermos que nem tudo por aqui era uma verdadeira maravilha, e certos elementos sucumbiram após este Street Fighter para desaparecerem silenciosamente no esquecimento… E que agora desenterraremos para nos lembrarmos e aprendermos com o passado.

Nesta Semana Especial Capcom do Jogo Véio, aproveite para reservar um tempinho à esta leitura e assim embarcar numa viagem rumo ao ponto de partida, a aurora de uma das maiores franquias gamísticas do planeta. Prepare-se para conhecer o mundo de Street Fighter!

Calçando as sapatilhas vermelhas: É hora de Street Fighter!

Uma das maiores broncas que os jogadores sempre tiveram em relação à franquia Street Fighter refere-se à sua trama, que sendo bastante franco, nunca foi mesmo das mais trabalhadas. Se o contexto de “super-vilão que quer dominar o mundo” já não colava muito bem, tente então imaginar um pretexto não muito melhor que este… Se precisar de idéias para isto, tente o “jovem lutador que quer tornar-se o melhor do mundo”. Eis aí seu pano de fundo!

O jogador encarna Ryu, o citado jovem artista marcial que só pensa em mostrar ao planeta o quanto suas habilidades podem ser incríveis. Porém, ao contrário do Ryu sério de hoje em dia que parece estar sempre em busca do próximo desafio para provar-se a si mesmo, este garoto mostra aquela empolgação de quem está caçando a fama para botar o dedo na cara de todo mundo pra falar que simplesmente era o melhor. Além disso, este jovem era bem mais preocupado com as aparências – até calçava sapatilhas vermelhas e tingia o cabelo de ruivo para combinar!

Brincadeiras a parte, o objetivo em Street Fighter era um apenas: viajar pelos continentes em busca dos melhores lutadores e vencer a todos eles, assim graduando-se para poder seguir rumo à Tailândia, onde os dois maiores guerreiros do jogo o aguardavam para decidirem mesmo quem seria o campeão. Uma trama sem floreios ou nada de espetacular, porém direta e extremamente franca, exatamente como só retrogames oitentistas eram capazes de nos oferecer.

No controle de um futuro mito

Talvez o ponto mais notável em Street Fighter seja o fato de que não há opção para selecionar seu lutador. Por padrão, o jogo lhe oferece unicamente o comando sobre o jovem Ryu, e este deveria enfrentar os demais competidores ao redor do mundo (os quais não poderiam ser controlados jamais). Isto limitava bastante seu estilo de jogo, pois a maestria por aqui era sempre atingida através do mesmo caminho: pegar bem as manhas dos controles de apenas um personagem.

Ken também está presente no jogo, mostrando que jamais deixou de estar ao lado de seu melhor amigo e parceiro de treinos. Porém jogar com ele não é algo obvio e já dado de bandeja: o norte-americano é somente controlado pelo segundo jogador, no caso de alguém querer lhe desafiar para uma partida de “1 contra 1”. Só era possível jogar-se com Ken no modo de história caso o segundo jogador vencesse o primeiro no duelo, neste caso substituindo Ryu no torneio e prosseguindo para as próximas etapas. Mas vale lembrar que a única diferença entre os dois são seus gráficos – os comandos são 100% idênticos para ambos!

E por falar em comandos, aqui podemos presenciar o nascimento da santa trindade “Ryúnica” que talharia um estilo único de Caratê: conheça as origens do Hadouken, Shouryuken e Tatsumaki Senpu Kyaku (ou do Tek-Tek-Truguen! mesmo), os movimentos especiais que Ryu e Ken possuíam desde o primeiro jogo para detonarem seus inimigos. Porém se você acha que dá pra ficar apelando numa boa como em Street Fighter II, terá uma desagradável surpresa quando começar a digitar os comandos…

Sem precisão cirúrgica, pode esquecer os movimentos especiais – os controles do personagem são, além de bastante exigentes, notavelmente duros e pouco responsivos. Controlar seu lutador assemelha-se um pouco a jogar o clássico Karate Champ do NES, e quem já teve esta experiência sabe que tal afirmação não trata-se exatamente de um elogio. Isto significa que pode demorar um tempinho até você pegar mesmo a manha dos comandos, uma vez que o sistema de “input” ainda primário deste jogo estava anos-luz da sensibilidade e fluidez que observamos nos títulos mais recentes da franquia.

Importante lembrar que Street Fighter inovou nos Arcades ao inicialmente apresentar botões de soco e chute sensíveis a pressão aplicada pelo jogador – apertar com mais ou menos força gerava ataques fortes, médios ou fracos. Porém tal inovação não colou muito na época: após alguns problemas técnicos relatados à Capcom, a decisão foi de relançar a máquina com 6 botões (3 socos e 3 chutes). Este modelo ditou uma tendência, e quase todos os demais games de luta após Street chegaram aos fliperamas (e posteriormente aos consoles domésticos) sob o mesmo esquema de controles.

Espalhando amor e porrada aos quatro cantos do mundo

O desafio visto em Street Fighter é coisa de jogo antigo mesmo, daqueles que não tinham a menor misericórdia da sua paciência: inimigos casca grossa capazes de detonar sua barra de vida com poucos movimentos, um chefão final tão justo quanto o preço atual dos videogames e controles meio durões que mais fazem parte do problema que da solução. Além disso, infelizmente temos outras falhas técnicas que ajudam a tornar tudo ainda mais complicado.

Dentre estas, uma das mais notáveis são as constantes quedas de frames, que ocorrem principalmente quando os dois lutadores acionam seus golpes especiais simultaneamente ou no momento em que uma magia atinge seu alvo. A “travada” na movimentação quebra bastante o ritmo do jogo, e não é muito difícil perder a concentração e acabar sendo detonado após um destes slowdowns chatos.

Outro problema desanima bastante os jogadores que curtem combos extensos: quando um personagem recebe um ataque, ele dá uma recuada que mata praticamente qualquer possibilidade de encaixar outros golpes e assim realizar sequencias elaboradas. A mecânica de jogo básica é somente uma: atingir um sopapo ou pontapé de cada vez em seu adversário, papando cada pedacinho de sua barra de vida com cautela. Tem quem diga que Street Fighter é mais um jogo de estratégia (que envolve muita paciência e observação) que de luta propriamente dito.

Agora falemos dos desafiantes que você encontrará no torneio enquanto tenta tornar-se o melhor do mundo. Cada país tem dois representantes e, embora você possa escolher por qual irá começar, a Tailândia sempre será o último destino da viagem por abrigar os dois inimigos finais da jornada:

  • Joe é um lutador de kickboxing norte-americano e que geralmente lhe desafiará logo no início do jogo. Ele não será grande problema, e não tratou de deixar uma impressão melhor que esta: nunca mais veríamos este camarada genérico novamente na franquia;
  • Mike é um boxeador que apresenta alguns socos poderosos, mas que no geral é um inimigo fácil de ser vencido. Apesar das semelhanças com Balrog, a Capcom sempre insistiu que ambos são lutadores diferentes – o que significa que este aqui não teve vida longa mesmo;
  • Retsu é um monge veterano (posteriormente, a Capcom revelaria ser ele um amigo de Gouki, mestre de Ryu e Ken) que não é muito fã de movimento – o cara fica plantado na maior parte do tempo. Hadouken nele!
  • Geki é um ninja que pode ficar invisível e atirar shurikens. Um verdadeiro casca-grossa que não para quieto nem por um único segundo, então a manha é ir com calma e pega-lo entre um salto e outro, sempre de olho em sua movimentação;
  • Birdie não tem nenhum golpe de corrente por aqui (ele só receberia tal tratamento em seu retorno na série Street Fighter Alpha), e tem uma fraqueza incrível contra Shouryukens. Por outro lado, pode dar cabo de você com apenas dois movimentos, tamanha sua força física!
  • Eagle aparece bem parecido com sua encarnação na série Alpha, armado com seus bastões e seu inconfundível bigode loiro. Ele também tem alguns ataques bem perigosos, como a girada;
  • Lee é um mestre chinês que manja muito das artes-marciais, porém outro que jamais foi desenvolvido na franquia além deste ponto inicial. Não tem nenhuma magia ou ataque muito incrível, mas bate dolorido pra caramba! Cuidado com seus saltos;
  • Gen com seu Kung Fu trata-se de outro velho conhecido desde a série Alpha e que estreou aqui mesmo, no primeiro Street. Ele também baseia seu estilo de luta nos ataques físicos, mas com alguns Shouryukens a festa dele acaba rapidinho;
  • Adon é outro lutador que teria um futuro brilhante pela frente, mas que já era perigoso neste jogo. Seus chutes acrobáticos são capazes de detonar sua barra de vida em um piscar de olhos, então trate de ficar esperto na defesa;
  • Sagat é o chefão final do Street Fighter, e que no futuro tornaria-se o maior rival de Ryu justamente pela derrota que sofreria para ele neste primeiro jogo. Ele é simplesmente a definição do “apelão”: seus ataques (a magia Tiger e sua clássica joelhada) podem praticamente colocá-lo para dormir com apenas um acerto. Ele também movimenta-se bastante, o que torna difícil a tarefa de contra-atacar suas ofensivas. Prepare sua paciência, pois este grandalhão dará trabalho!

De tempos em tempos, você também encara uma fase bônus especial para aumentar seus pontos – mas esqueça a parada de detonar o carango! Por aqui o negócio era torneio de artes marciais mesmo, e a missão era arrebentar pilhas de telhas e tabuinhas – exatamente como numa apresentação de Caratê no seu bairro.

Departamento Técnico – nos primórdios das Rodoviárias

Está aí algo que jamais é fácil de avaliar, principalmente tratando-se de um clássico de época. Mas temos de manter a compostura e profissionalismo ao nos perguntarmos: para os padrões de sua época, Street Fighter é mesmo um game sonora e graficamente atraente? E teria ele envelhecido bem?

Na parte gráfica da fábula, temos um produto bacana, colorido e com certo nível de detalhes, mas que não acrescenta à mesa nada que abra de verdade o apetite. Ao que mais importa primeiro: os modelos dos personagens não ocupam grande espaço na tela, e os cenários – embora variados e bem construídos – são pouco inspirados e sem movimento algum. Até as magias não contam com efeitos especiais incríveis, mais parecendo aquelas bolinhas de fogo que um certo encanador atira em Super Mario World. As animações também são limitadas, com poucos quadros que as fazem parecer engessadas e pouco empolgantes.

O esquema de barras de vida e do cronômetro do round também causam estranheza a quem está acostumado aos padrões atuais – isto porque tais barras ficam uma sobre a outra (não lado a lado), apresentando ao invés dos nomes dos lutadores, as identificações “Player” e “Enemy”. Os inimigos são apresentados somente na tela que antecede a luta, então gravar o nome de cada um não era tarefa das mais simples.

No departamento de músicas e efeitos sonoros, o Street Fighter original também não se sai muito melhor. Ainda que porradas, saltos e vinhetas soem como em qualquer outro bom título dos dourados anos 80, nas vozes é que a coisa fica crítica: mesmo com um bom domínio de inglês, entender o que é dito por aqui é um desafio quase tão grande quanto detonar o Sagat.

Mesmo tratando-se de um título para os Arcades, as falas do narrador e dos lutadores (sendo poucos destes que realmente dizem alguma coisa) são verdadeiramente abafadas – mais parece que estão falando com a boca cheia de pão. Eu mesmo experimentei o jogo, e até agora acredito fortemente que o narrador diga “Mooolay!” quando você vence um round… Vale a pena você também tentar jogar um pouco só pra ver o que é capaz de entender desta enrolada e confusa frase.

Finalmente, as canções apresentadas são bem compostas e trazem aquele sentimento de nostalgia que hoje tanta falta nos faz. Cada música faz o possível para combinar com a fase na qual é executada, e na falta de mais vozes e de efeitos mais contundentes, a melodia rapidamente torna-se o ponto central do gameplay. Aqui então, fica um belo ponto positivo para Street Fighter!

Um mito de sapatilha e cabelos ruivos

Se pegar o jogo no meio de um round pulando a tela de apresentação, quem jamais jogou um Street Fighter anterior ao segundo (ou nem sabia que tal existia) provavelmente jamais adivinhará o nome do que está jogando – e os cabelos ruivos e sapatilhas vermelhas de Ryu não ajudam em nada a esclarecer a questão.

Mas quem é mesmo fã de retrogames e se amarra em conhecer as origens empoeiradas de grandes clássicos simplesmente não pode deixar de jogar este título, que tão poucos brasileiros puderam conhecer no passado. Claro que nosso país jamais recebeu muitas destas máquinas em seus fliperamas (você conheceu algum? Se sim, por favor nos conte nos comentários!), e as únicas conversões à outras plataformas que o primeiro Street Fighter da história recebeu foram para o já jurássico DOS e o tremendamente obscuro TurboGrafx CD – neste último, inclusive, o título de capa era Fighting Street!

Seja você um grande fã da franquia até hoje, divertindo-se em duelos ranqueados no Street Fighter V, ou alguém que ainda relegue o 3D e curta muito mais os lançamentos no estilo de Ultra Street Fighter II: The Final Chalengers do Nintendo Switch, ainda vale muito a pena passar pela experiência de um bom gameplay neste Streetão veio de guerra.

Tudo vale como aprendizado, e isso a Capcom sem a menor sombra de dúvida pode atestar!

Vídeo

Street Fighter (Arcade): Longplay – Fonte: Game Archive

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