Super Mario Land (Game Boy), uma visão alternativa do universo Mario

Daniel Nunes / 19 de maio de 2017 / Análises, Game Boy

No final dos anos 80, mais especificamente em 1989, a Nintendo se firmava em primeiro lugar no mercado de consoles caseiros. Alguns games que se tornaram clássicos já haviam tido seu momento de estrelato no Nintendo Enterteinment System/Famicom, como The Legend of Zelda, Metroid e Final Fantasy. A série Super Mario Bros. já tinha chegado em seu terceiro título, com sucesso estrondoso de público, fazendo de Mario um ícone dos videogames e uma marca de qualidade. Ao mesmo tempo, a Nintendo se preparava para o lançamento de seu mais novo console, e desta vez um console portátil com cartuchos intercambiáveis, o Game Boy, que tinha como grande apelo a possibilidade de apresentar versões miniaturizadas dos grandes sucessos da empresa. Numa série de decisões acertadas, a Nintendo vivia o auge de sua história como pioneira no mercado de videogames, e o exemplo maior dessa era de ouro eram os games da época, que transpiravam simpatia e estabeleciam com o público uma relação mágica e nostálgica.

Super Mario Land é um desses exemplos do pioneirismo da Nintendo como experimentadora de formatos e gameplays. Foi um título desenvolvido para ser lançado junto com o lançamento japonês do Game Boy, em 21 de abril de 1989. O game foi desenvolvido pelo estúdio Nintendo R&D1, e foi o primeiro da série Mario a dispensar a atuação criativa de Shigeru Miyamoto. Por causa disso, a produção de Gunpei Yokoi e a direção de Satoru Okada permitiram-se algumas liberdades na recriação da versão em miniatura de Mario. O game apresenta algumas peculiaridades que podem provocar estranhamento naquele jogador incauto que nunca ouviu falar em Super Mario Land e por acaso vai encarar o game hoje.

Mario em miniatura:

Super Mario Land quebra o cânone da série Mario em vários de seus pequenos detalhes. Aqui, a aventura não se passa no Mushroom Kingdom, e não temos os personagens Bowser nem a princesa Peach. Para começar, o game se passa em Sarasaland, uma terra dividida em quatro reinos conhecidos como Birabuto, Muda, Easton e Chai. Essa terra é invadida pelo monstro do espaço de nome Tatanga, que subjuga o povo de Sarasaland e aprisiona a princesa Daisy, querendo tomá-la como esposa. Mario é quem deve livrar o povo de Sarasaland dessa terrível ameaça e, como é de praxe, também salvar a princesa. Como se trata de um universo diferente da série canônica, a equipe de desenvolvimento introduziu inimigos, elementos e até desafios que divergem daquilo que se esperaria de um game Mario.

Mas os elementos clássicos de Mario não deixam de marcar presença, e nesse caso Super Mario Land se aproxima bastante do Super Mario Bros. original. Seja pela jogabilidade que consiste em pulos precisos e calculados entre plataformas e na cabeça dos inimigos; seja pelos cogumelos que fazem Mario crescer, e pelas flores que permitem a Mario atirar projéteis; seja pelas passagens subterrâneas que são acessadas entrando em canos; nesses e outros elementos a experiência de jogar um Mario clássico se mantêm intacta, e não deixa de ser admirável o belo trabalho da equipe Nintendo R&D1 em adaptar autenticamente a aventura do encanador italiano para o Game Boy, ainda na aurora dos games para o portátil da Nintendo.

O jogo possui um total de 12 fases, divididas em quatro mundos de temática própria, com três fases cada um. A cada um dos mundos corresponde um reino de Sarasaland: Bibaruto imita em alguns aspectos o Antigo Egito, Muda é um típico mundo aquático, Easton tem como tema as misteriosas estátuas da Ilha de Páscoa, e Chai tem um cenário parecido com uma floresta oriental. Como os recursos gráficos do Game Boy eram bastante limitados, os cenários podiam ser representados visualmente tão somente pelo plano de fundo com alguns poucos desenhos e pelos blocos de construção das fases. Em cada mundo há alguns inimigos específicos de alguns ambientes, que ajudam a dar alguma organicidade para a tematização das fases. Nesse sentido, a trilha sonora, composta por Hirokazu Tanaka, realiza um bom trabalho de imersão no ambiente, com faixas empolgantes e grudentas, que dão um vigor especial para a aventura de Mario.

Bizarrices e curiosidades:

O resultado final de Super Mario Land reflete algumas das liberdades que a equipe de produção tomou em relação ao universo do ilustre mascote da Nintendo, e apresenta alguns elementos que podem ser entendidos como inconsistentes em relação ao que a série Mario se transformou ao longo dos anos. Com exceção das plantas carnívoras, das tartarugas, das balas de canhão e dos bichinhos conhecidos como Goombas, todos os outros inimigos vistos em Super Mario Land são inéditos. Além disso, há algumas surpresas e curiosidades meio bizarras. As tartarugas, conhecidas como Bombshell Koopas, possuem um casco que explode pouco tempo depois que Mario pisa nelas. Certamente todo e qualquer jogador de Super Mario Land já foi pego nessa armadilha. Nas duas primeiras fases do segundo mundo, o reino aquático de Muda, há um estranho OVNI que paira bem no início das fases, sugerindo que Mario tenha chegado a esse mundo transportado por meio do disco voador (Mario é um ET!? ou é amigo de ETs!?). Essas naves retornam na terceira fase desse mundo, no fundo do mar, quando aparecem integradas ao plano de fundo do cenário.

Ao final da batalha com os três primeiros chefes, há aquela clássica cena em que Mario descobre que a princesa está em outro castelo, mas com uma hilária diferença. Mario de fato pensa encontrar a princesa Daisy após cada batalha, mas ela se transforma num monstro comum diante de Mario, que descobre então que sua aventura deve continuar.

Em Super Mario Land, há duas fases em que o gameplay é alterado para um side-scrolling shooter, uma novidade que não foi repetida em mais nenhum outro game da série Mario. Na terceira fase do mundo aquático, Mario pilota um veículo submarino, e na última fase do game Mario pilota um avião. Em ambas, a jogabilidade consiste em atirar nos inimigos e desviar de suas investidas e de blocos que apareçam pelo caminho. Trata-se de um estilo bastante simples de gameplay, mas não deixa de ser curioso como ele é integrado perfeitamente no meio da aventura de Mario. Na batalha final de Super Mario Land, Mario enfrenta Tatanga por meio desse gameplay, o que faz do último desafio do game um episódio único da série Mario.

Apesar dessas diferenças curiosas, a aventura de Super Mario Land é consideravelmente curta, e talvez reserve poucas dificuldades para o jogador experiente. As 12 fases do game podem ser facilmente completas em menos de quarenta minutos, e as batalhas contra os chefes não apresentam nenhuma dor de cabeça quando se descobre seus padrões simples de ataque. É compreensível toda essa simplicidade quando se considera que Super Mario Land foi um título de lançamento do Game Boy, um game um tanto experimental e feito na medida para o público infantil, que devia comprar a ideia de um videogame que pudesse ser carregado para todos os cantos, com jogatinas que não deviam durar tanto quanto as destinadas aos consoles caseiros.

Você conhece o Mario?

Super Mario Land teve duas sequências. Super Mario Land 2: 6 Golden Coins, na qual se revelava que os eventos da aventura anterior de Mario foram todos planejados pelo seu arquirrival Wario, que teve aqui sua estreia. E Wario Land: Super Mario Land 3, que desta vez colocava Wario como protagonista de um game próprio.

Mesmo com todas as suas limitações e pertencendo a uma época bem específica da história dos videogames, Super Mario Land mantém o seu charme, e se sustenta como uma aventura que merece ser revisitada, sobretudo pelos entusiastas de games de plataforma. Super Mario Land fez grande sucesso, e foi o quarto game mais vendido ao longo da vida do console portátil da Nintendo. Se você teve um Game Boy, muito provavelmente deve ter jogado. Se não, vale a pena dar uma olhada nesse que é um pequeno vislumbre do que os outros games de Mario provavelmente seriam longe da influência do genial Miyamoto-san.

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