Weaponlord (Multi): Sangue e Honra entre Bárbaros, Amazonas e Demônios

Fabio Zonatto / 13 de fevereiro de 2017 / Análises, Mega Drive, SNES

Para quem possuía um Super Nintendo e/ou um Mega Drive lá pela segunda parte dos anos 1990, Weaponlord era um verdadeiro achado nas locadoras. Enquanto a capa não prometia lá muita coisa por ser até bem genérica, o conteúdo do cartucho era de impressionar: um game de luta com boas animações, gráficos bonitos, efeitos sonoros que seguravam a onda (mais no SNES que no Mega, diga-se de passagem), trilha sonora empolgante e controles complexos – mas que recompensavam imensamente quem os dominassem.

O game é uma criação do estúdio Visual Concept e foi publicado pela gigante Namco, tendo sido lançado em 1995 para a era 16 bits tanto da SEGA quanto para o da Nintendo (embora em determinado momento estivesse prometido com exclusividade ao SNES). E antes que você possa pensar que Weaponlord é nada mais além de um game de luta genérico e passável, saiba que o título foi descrito como sendo a ideia inicial para que a Namco criasse, bem mais tarde, a série Soul Calibur!

Vale ou não uma conferida esperta?

Uma profecia e 25 anos de espera

A trama não é das mais épicas já concebidas, mas serve bem ao seu papel: Um grande guerreiro mercenário tomba no campo de batalha mortalmente ferido, quando o espírito de um demônio ancestral o encontra agonizante e o possui. Renascido, o mercenário derrota em combate todos os senhores soberanos de seu tempo e torna-se um lorde demônio supremo e sem rivais. Porém uma profecia feita por seu xamã aponta que seu reinado um dia terminará: um novo guerreiro se erguerá do anonimato – um Weaponlord – e colocará um ponto final nesta história.

Orgulhoso, o lorde demônio ignora os conselhos de seus tenentes para matar esse tal guerreiro ainda enquanto criança e simplesmente aguarda para que o tal campeão (ou campeã) cresça e torne-se poderoso o suficiente para enfrenta-lo em um combate justo (atitude muito bacana da parte deste lorde demônio não-tão-maligno). 25 anos após a profecia, ele organiza um torneio que reúne os melhores combatentes dentre todos, e o vencedor dentre estes – considerado o guerreiro profetizado – o enfrentaria no final.

No mundo do Conan

Com temática medieval, os guerreiros eram todos bárbaros e amazonas que mais pareciam terem sido extraídos do universo de “Conan, O Bárbaro”: espadas largas, garras, foices, clavas e machados eram as ferramentas usadas pelos brigões, e o sangue estava sempre presente nos golpes mais violentos. O time de lutadores é formado por três mulheres (Talazia, Divada e Jen-Tai) e quatro homens (Korr, Bane, Zorn e o lorde demoníaco Zarak).

Os cenários seguem a mesma pegada, com uma boa mescla de fantasia sombria – em um deles, você luta sobre um demônio gigantesco ainda vivo e respirando. Arenas sangrentas, bosques recobertos de ossos e outros ambientes alegres e amistosos compõe os demais palcos de batalha.

A trilha sonora é muito bacana e não deixa a peteca cair: muitos tambores, percussões e músicas selvagens compõe as baladas de guerra. No SNES, o som é mais “macio”, o que acaba jogando um pouco contra a proposta agressiva de Weaponlord, porém no Mega Drive temos aquela aquela afinação de “radiador de Fusca” que tão bem conhecemos, o que dá o tom certo para que sejamos embalados na rispidez da época em que bárbaros resolviam as coisas na base do desmembramento e decapitações.

Por fim, no departamento de vozes e efeitos sonoros, o game peca um bocado – as narrações de “Battle” e “Fulano Wins” são bem poluídas para a época, fora que parece só existir um grito masculino e um feminino que é compartilhado por todos os lutadores. As pancadas soam como se atingissem placas de plástico e não convencem muito, mas a música muitas vezes encobre essas falhas.

Domando os controles dos brucutus

A principal característica de Weaponlord em comparação aos demais títulos de luta da época sem dúvida são seus controles: ao invés de executar um movimento com o direcional e depois apertar um botão de soco ou chute (como em Street Fighter ou The King of Fighters, por exemplo), você deve girar seu dedo no direcional enquanto segura o botão de ataque respectivo do golpe que quer aplicar. Pode não parecer, mas isso complica bastante para quem não está acostumado – o que sintetiza-se na forma de muitas surras bestas que você levará contra a CPU até pegar as manhas. Você terá basicamente de reaprender a jogar games de luta se quiser tornar-se verdadeiramente um Weaponlord.

Embriões do que um dia veríamos a Namco implementar na série Soul Calibur já surgem por aqui, o mais importante e claro sendo a barra de energia das armas dos lutadores. Bloquear demais ou usar algum tipo de golpe especial consome esta barra, e se o jogador não ficar de olho pode acabar se vendo de mãos vazias contra um oponente armado.

Outro destes “embriões” surge na forma do “Thrust Blocking”: uma defesa mais agressiva que deve ser encaixada do tempo exato. Os mais saudosos lembrarão que World Heroes 2 já apresentava um elemento de bloqueio parecido, porém somente em Weaponlord esta técnica podia ser aplicada contra qualquer tipo de ataque, o que adicionava surpresa aos combos: quando o oponente está preparando-se para detonar uma sequência, você podia acertar o “Thrust Blocking” no golpe de abertura e deixa-lo totalmente aberto à um combo seu caso seja rápido para inicia-lo.

Muitas outras técnicas avançadas de combate são executadas ao atacar o inimigo utilizando movimentos com propriedades especiais que lhes causam efeitos retardantes. Tais movimentos são denominados:

  • “Catchers” – podem tontear o alvo por uma fração de segundos e arrancar muita energia da arma do inimigo;
  • “Deflects” – quando as armas dos dois combatentes colidem, eles podem testar forças para decidirem quem é melhor de braço. O “deflect” ocorre quando um dos lutadores subjuga seu oponente neste duelo, fazendo o perdedor ficar aberto a ataques;
  • “Take Downs” e “Knock Downs” – movimentos brutais que derrubam o oponente, permitindo movimentar-se rapidamente em sua direção e aguarda-lo se levantar para um bom combo. Também é possível atacar o infeliz ainda caído, finalizando-o de vez ou erguendo-o no ar para o início (ou continuação) de um grande combo;
  • “Double Overs” – fazem o inimigo desequilibrar-se, permitindo estender combos livremente.

A lista de movimentos dos lutadores também é peculiar em Weaponlord. Por aqui não existem os “agarrões” convencionais, sendo que qualquer golpe do tipo deve ser acionado com um comando específico e único. Também não estão presentes aqueles golpes especiais de escurecer a tela, emitir flashes e fazer meteoros bombardearem a terra – os movimentos mais elaborados são de múltiplos acertos e nada mais. Porém a lista deste tipo de golpe para cada lutador ultrapassa os 10, o que adiciona muito em termos de variedade para as sequências e combos devastadores.

Será que tem Fatality? Tem sim senhor!

Convenhamos: depois que Mortal Kombat chegou ao estrelato avassalador com suas piscinas raia olímpica transbordando em sangue vermelhinho, uma porrada de outros games de luta incluíram esta modalidade tão peculiar de finalizar seus combates. Weaponlord não foi diferente e combina bem até – afinal, guerreiros bárbaros não costumavam ser muito misericordiosos com seus inimigos mesmo.

Porém neste game especificamente, o golpe fatal não é desferido através de um comando específico: caso o oponente perdesse toda sua vida durante algum golpe especial (e nem com todos isto funcionava), a tela dava aquela escurecida tenebrosa e então tudo poderia acontecer – cabeças eram decepadas, caixas torácicas explodiam, tripas voavam e até cérebros saiam rolando pelo chão. Mas a carnificina não parava por aí, já que era possível “combinar Fatalities” para que toda essa sorte de bizarrices citadas ocorresse de uma vez só! Boa sorte para manter seu almoço no estômago depois dessa…

Graças aos gráficos detalhados, muitas destas execuções eram até mais chocantes que as vistas em Mortal Kombat ou em qualquer de seus “clones”, feitos especificamente para copiar o estilo da criação da Midway.

O pioneiro da internet…. Mais ou menos

Muitas das características únicas de Weaponlord foram implementadas tendo-se em mente que o game deveria ter sido um dos primeiros a ser disputado multiplayer em larga escala via internet. Um sistema na época visionário conhecido como “Xband” oferecia serviços por banda discada e possibilitaria jogar com seu SNES ou Mega Drive conectados à na-época-não-tão-grande-rede de computadores.

O maior obstáculo para que este revolucionário plano fosse um grande sucesso foi justamente a latência, considerada impraticável no final das contas, ainda mais para um game de luta. Os programadores da Visual Concept esforçaram-se bastante em tentar preparar Weaponlord para a internet, adaptando mecânicas e otimizando tudo o que podiam…. Mas no final das contas, as limitações técnicas da época jogaram decisivamente contra a ideia (apesar de no exterior ter dado relativamente certo até certo ponto).

Um legado esquecido injustamente

Assim como no caso de Eternal Champions, do Mega Drive (excetuando-se a versão posterior para o Sega CD), Weaponlord jamais recebeu qualquer continuação mais atual, remaster ou remake. Como já dito, muitas das ideias e mecânicas debutadas neste cartucho foram implementadas na série Soul Calibur, que faria um enorme sucesso muito mais tarde – porém isto é infelizmente um fato desconhecido para muitos.

Embora Weaponlord não seja um verdadeiro primor em todos os aspectos, foi sem dúvida alguma um game tremendamente injustiçado. Não foram muitos que, como eu, tiveram a sorte de encontra-lo na locadora esquecido lá no canto da prateleira…. E para quem teve tal sorte, ainda restava o sofrimento de aprender os movimentos sozinho em um esquema de jogo tão diferente, já que a atenção recebida pelo título nas revistas especializadas em games da época nunca se equiparou às grandes franquias, com suas listas de golpes e estratégias.

Se tiver esta chance, conheça – ou relembre – o saudoso Weaponlord com um simples gameplay descompromissado. Garantia de que serão momentos de diversão, surpresa e descobertas.

Vídeos

Weaponlord: Longplay (SNES) – Fonte: World of Longplays

Weaponlord: Longplay (Mega Drive) – Fonte: World of Longplays

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