Home Análises Arcade World Heroes – Original ou Clone?

World Heroes – Original ou Clone?

1

Uma breve Introdução:

Certo dia, os funcionários da ADK estavam discutindo quem seria o maior lutador da história. As discussões estavam acaloradas, até que alguém disse algo do tipo: “Olha, Gegis Kahn até que era macho, mas ele não era páreo pra Joana d’Arc…”, seguidamente interrompido por outro colega que disse que “Hulk Hogan quebraria o Bruce Lee no meio.” – pegando suas katanas e preparando o que seria um genocídio, um dos estagiários disse: “Ao invés de derramar sangue, poderíamos fazer um jogo sobre isso.”

Dispostos a fazer algo mais produtivo que um genocídio, consultaram o saldo da empresa, e descobriram que tudo que tinham no cofre eram dois potes de paçoquinha (35 unidades) e um pacote com 3 pirulitos. Resolveram então fazer um contrato em parceria com um nome de peso nos jogos de luta, a SNK. Para a sorte das duas partes envolvidas, a equipe executiva da SNK adorava paçoquinha, aceitou o projeto de parceria e colocou o jogo em prática: World Heroes.

E se Hulk Hogan enfrentasse Gengis Kahn?

O ano, no entanto, era 1992. As pessoas estavam de olho na joia produzida pela CAPCOM, vocês sabem qual é. Agora que o game da rival fazia sucesso (e filas de dobrar o quarteirão, pela sua sua máquina de fliperama), teria a ADK se baseado nesse clássico, ou seguiu uma linha independente e até capaz de superá-la? É o que vamos analisar hoje, no Dojo!


A história de World Heroes

Não tendo nada de útil pra fazer da vida, o Dr. Brown* criou uma máquina do tempo e organizou um torneio de artes marciais entre as principais figuras históricas da humanidade. A verdade é que o bom doutor sabe dos planos da organização terrorista DAMD, que possui um ciborgue de alta periculosidade programado para assumir o comando do mundo por sua corporação. Somente o melhor guerreiro de todos os tempos pode pará-lo.

Agora, vamos fazer uma pausa aqui e pensar um pouco: alguém tá levando essa premissa à sério? O doutor pode ter conseguido a viagem no tempo, mas suas habilidades sociais são uma catástrofe. Vocês também viram falhas neste plano?

1 – Se o Ciborgue da DAMD é tecnologia contemporânea, o melhor é achar um guerreiro do passado para derrotá-lo?

2 – Como diabos os guerreiros toparam o torneio assim, de boa, sem sofrer o choque cultural da viagem no tempo?

3 – E como funciona um torneio como esse? Esse pessoal do passado viajou para o presente e ficou no seu país de origem, esperando seus desafiantes, como em Street Fighter II? Só eu to achando isso estranho?

4 – Não teria sido melhor unir todos os melhores guerreiros do presente pra dar cabo de toda a DAMD? Se bem que os Street Fighters estavam vencendo o M. Bison, e o trio de Fatal Fury estava derrubando o Geese da torre nesta época, então… ok, viagem no tempo.

Sejamos honestos, não é o enredo de World Heroes que nos faz jogar… é mais o estilo do jogo, mesmo. Não dá pra querer colocar lógica em toda a pancadaria que se encontra por aí, especialmente nos videogames. Fica a lição, amigos do Dojo!

*Provavelmente uma paródia bem-intencionada do Dr. Emmett Brown, da trilogia De volta para o Futuro.

Hero select – quem é quem em World Heroes!

Conheça o elenco, feito de adaptações de heróis do nosso mundo, ou a mistura deles. Olha, o fato é que são fictícios, mas também são reais… ou… olha, isso é contraditório e difícil de explicar, mas vocês já devem ter entendido, certo?

Hanzo – Adivinha? É o japonês brigão obrigatório em todo o jogo de luta. Baseado em Hanzo Hattori (isso, aquele do Samurai Shodown), é um ninja trajando roupas azuis. Seus golpes são: Shuriken dupla (hadouken), Dragão ascendente (Shoryuken, com um dragão em volta do corpo), Giratória bestial (o cara se joga como se fosse uma shuriken humana*, o ataque mais mortal para seu usuário possível). Hanzo só pretende mostrar sua superioridade e retornar para sua era, mas acaba ficando em nossa era, em busca de um desafio melhor.

Fumma – Contam as histórias folclóricas do Japão que Fumma Kotaro matou Hanzo, com ajuda de demônios, em um duelo ninja. Por isso, o jogo tem uma representação (apenas humana) dele. Os golpes são iguais aos de Hanzo, apenas chamados por nomes diferentes. Fumma, após esse contraditório torneio, trabalha na adaptação de seu ser para continuar vivendo na contemporaneidade, tornando-se uma espécie de super-herói*, com direito até a emprego civil¹.

1 – Em seu final, Fumma levanta a possibilidade de que todo o jogo foi apenas um sonho.

Rasputin – Acredite, o inimigo de Anastácia² é personagem jogável em World Heroes. Baseado livremente em Gregori Rasputin, esse personagem russo é um padre que controla energia com as mãos e pés, refazendo-os em forma ampliada compostos de pura energia. Rasputin também joga esferas de ki (no chão ou no ar, como Akuma, de SF, só que bem menos poderoso) e bate com sua batina, girando o corpo, em um golpe de dar inveja em muita bailarina. Uma vez vencedor, Rasputin usa seus próprios conhecimentos para voltar à sua era, mas acaba parando no período Triássico*.

2 – Você assistiu o filme Anastasia? Aquele com o incrível padrão Disney, que não faço ideia se é da Disney ou não…

Jane – Sim, outra personagem baseada em Joana d’Arc! Mas Jane dessa dimensão foi criada em um circo*, em seu país e origem, a França. Depois de um tempo na nossa era, Jane acha que a melhor coisa que pode fazer de sua vida é arranjar um marido, sem entender que seu jeito de moça guerreira e independente não é atraente nos dias atuais*… Seus golpes consistem em um supercorte com a espada e uma magia na forma de pássaro.

J. Carn – Um dos principais guarda-costas de Gengis Kahn, na Mongólia. Após a viagem no tempo, sentiu-se entendiado com o mundo relativamente pacífico, mas topa entrar no torneio, para mostrar sua superioridade como guerreiro. Seus golpes são a Ombrada dilacerante e a bomba protetora. Em seu eventual final, ele acaba se tornando “o tipo ideal de homem” para Jane, mas recusa sua proposta*.

Brocken – Androide de tecnologia alemã, Brocken representa o futuro* e usa de mísseis, descargas elétricas, jatos em seus pés e mecanismos de expansão de braços e pernas. Aposto que você está pensando em dois Street Fighters famosos agora, não? Seus golpes especiais são: míssel, electrofinger³ e mergulho aéreo. Em seu final, Brocken conclui que o torneio foi apenas uma missão.

3 – Se você jogou GTA2 no PC, você sabe do que eu estou falando.

Dragon – Um chinês que bate muito, seria o representante dos anos 80, da China e… certamente, do Bruce Lee. Em sua história, Dragon aceitou na hora o desafio do torneio, ele precisa se tornar o mais forte. Seus golpes mais fortes são o Dragão Voador e a sequencia-soco-meteoro. Em seu final, é descoberto por um diretor de filmes chinês e sua lenda têm início**.

Muscle Power – Baseado em Hulk Hogan, mas com o nome mais genérico possível, M. Power só sabe gritar e falar grosso, além de seus golpes de wrestler profissional. Foi outro lutador que não pensou duas vezes em relação a entrar no torneio, porque “It’s America, baby!!!”. Seus golpes mais fortes são a disparada com soco e o massacrante pilão-quebra-espinha.  Em seu final, é condecorado com todo o tipo de cinturão de possíveis lutas do mundo*.

Geegus –  O Final Boss do game! Criado pela DAMD, Geegus “escanerizou” os guerreiros do torneio do dr Brown e pode se transformar em qualquer um dos oito lutadores. (Tipo o Shang Tsung, mas não sendo um velho caquético à beira da morte.) Ele é o motivo pelo qual o Dr. Brown organizou seu (questionável) torneio.

Geegus (Ras)putin
*Todas coisas do jogo que me dão uma imensa sensação de “ÃHN???”
** Não me atrevo a dizer “Ahn” para alguém que bate igual ao Bruce Lee.

Mais de uma modalidade: o Death Match

Como jogador, antes de iniciar sua viagem pelo mundo, você escolherá a categoria por onde se desenvolvem a luta.

Normal Mode: funciona igual a Street Fighter, você viaja até um cenário estereotipado, luta contra um lutador tão caricato quanto o cenário e luta contra o chefe, no laboratório da DAMD.

Death Match Mode:  todos os cenários são ringues com armadilhas: paredes de espinhos, minas terrestres, cordas eletrificadas, chão coberto de gelo e cordas em chamas. Provavelmente o grupo de criação da ADK/SNK foi fortemente influenciado pela luta-livre japonesa e pelo circuito internacional aberto, que permitiam esse tipo de barbaridade em combate. O cenário do chefe é um ringue “elétrico” com duas minas terrestres, uma em cada lado do cenário.

Mas de boa, é só um esporte pacífico!

Claro, acho que nas competições oficiais deve ser proibido colocar minas terrestres em um ringue, mas estamos falando do Japão, então é melhor mantermos o benefício da dúvida.


Plágio ou originalidade? O que é World Heroes?

Em uma análise crua, World Heroes se parece muito com Street Fighter II. A grande maioria dessas características se dá na concepção de personagens:

Street Fighter II World Heroes Características:
Ryu Hanzo Japonês à procura da luta perfeita, faixa na cabeça.
Ken Fumma Um rival à altura para o personagem principal.
E.Honda J.Carl Obeso casca-grossa.
Blanka Rasputin Um personagem mais esquisito acima da média.
Guile Dragon Personagem bom, diferentão, mas não é o principal.
Chun Li Jane A mulher do jogo, poderosa.
Zangief M.Power Lutador de Wrestler com os golpes mais fortes.
Dhalsim Brocken Lutador que usa a distância e poderes diferentes contra o adversário.

Os jogadores que gostam de World Heroes, por favor, acalmem-se em suas cadeiras. Não estou acusando esse jogo de ser um plágio descarado de Street Fighter II, diferente de um certo outro jogo, né Kaneco? Abaixe essa arma, eu explico:

É inegável que a obra-prima da CAPCOM tenha influenciado a ADK e a SNK. Mas não é pra menos: SFII era um sucesso absoluto, a fórmula estava dada, e todos se inspiraram nela. Mas, para o caso de World Heroes, foi uma influência, mas não foi a principal fonte.

Influências:

Hanzo e Fumma, esses são ninjas inimigos, provavelmente inimigos normais por questões de clã. Eles não são simples caratecas rivais, como nossos amigos lançadores de hadoukens.

Brocken luta de modo semelhante a Dhalsim, mas seu corpo lembra M.Bison.

Ok, pontos para Street Fighter, sem dúvidas foi uma influência. Mas analisemos mais a fundo:

J.Carn é muito parecido com Uighur, o Guardião do mangá  Hokuto no Ken.

Os golpes de Dragon lembram a técnica de Kenshiro, o protagonista dessa mesma obra.

Já Brocken tem traços do personagem  Rudolph von Stroheim, da franquia de mangá JoJo’s Bizarre Adventure. Ainda que Brocken tenha esqueleto metálico, como os Exterminadores da série T-500, dos filmes da franquia “O Exterminador do Futuro“. Dando-lhe uma bela surra, pode-se ver um pedaço de seu crânio robótico.

Hasta la vista, baby!

Sabe quem mais é referência desse filme? Geegus, que tem o comportamento semelhante ao T-1000 (em “O Exterminador do Futuro 2“, o antagonista): assume a forma de qualquer pessoa e seu corpo é de um tipo de metal líquido.

Joana d’Arc era tema de mais de 20 filmes até o ano de 1990, é um ícone não só histórico, como também da cultura Pop.

Joana d’Arc (filme de 1948)

Então, concluindo, o jogo sofreu influências variadas da cultura pop da época. Se verificarem o quadro de comparação entre os jogos, uma ótica mais clínica revela que algumas coisas são muito mais de um universo muito maior do que o jogo dos esteriótipos porradeiros da CAPCOM que tanto amamos.


A logística dos Heróis do Mundo

Como um bom arcade da SNK, o joystick tinha 3 botões: soco, chute e arremesso (como em Fatal Fury). Mas, o repertório de golpes inclui soco forte, soco fraco, chute forte e chute fraco, além do já mencionado arremesso. Nos arcades, a força do golpe variava com o tempo do botão pressionado (brevemente para golpe fraco, fundo e demorado para golpe forte), inclusive no resultado de movimentos especiais.

Já, no Super Nintendo, o jogador pode optar por usar 3 ou 5 botões*.

*Viu que bonito, Neo Geo? Às vezes ter mais de 4 botões é uma vantagem.

O veredito: World Heroes é um bom jogo?

A bem da verdade, eu preciso confessar que me aproveitei muito do espaço aqui do dojo pra defender esse jogo de certas acusações injustas, especialmente a de plágio, porque após Street Fighter II, jogos de luta bons encheram o mercado dos consoles. Uma das empresas que mais se destacou nesse mote foi a SNK, enquanto a ADK usou os dotes dessa para alcançar um belíssimo game de luta.

World Heroes não é a obra máxima dos jogos de luta, mas conseguiu mais duas sequências (um bom sinal com relação ao seu sucesso), e alguns de seus personagens fizeram participações especiais em outros jogos da SNK.

O quanto vale a pena? Esse não é pelo valor nostálgico, mas pelo modo diferentão (Death Match) e por fazer um retrato diferente dos cenários e personagens do mundo, World Heroes é uma boa experiência para o jogador véio. Se você não jogou, pode experimentar sem medo, o jogo não é difícil de se aprender.

Aqui termina mais uma sessão no Dojo! E, como sempre, nós vamos ao encontro do mais forte!

Mais textos relacionados
Leia mais por Roberto Bier
Leia mais em Arcade

Veja também

Vigilante – Pancadaria clássica nos 8 bits do Master

Em 1988 a briga de rua era apenas um gênero. Poucos jogos conseguiam destaque no imenso ma…